Post inicialmente publicado no Pangeia, no dia 20/10/2009, sob o título Novidades do bom velhinho!
Quando todos o reverenciavam pelo seu estilo folk, ele passou a tocar guitarra. Quando todos queriam vê-lo se apresentando, ele sumiu para viver numa fazenda. Quando todos queriam um album novo, ele aparece com um album tradicionalmente country.
Depois, torna-se evangélico; Volta ao judaísmo; Atua em filmes nos anos 80. Na década seguinte, após lançar um album considerado um dos melhores da sua carreira, ele faz um CD completamente diferente…
Talvez seja assim que podemos interpretar a receptividade de Bob Dylan à receptividade do público.
A última do músico é o lançamento de um album “Christmas in the heart”. Um CD – respirem fundo – NATALINO! Sim, podemos ouvir Bob Dylan soltando a voz – seja ela qual for – em canções tradicionais do Natal americano.
O disco recebeu até um clipe, com a participação do próprio Dylan, em uma indumentária exótica (note a peruca).
O clima solidário de fim-de-ano também mexe com Bob. Toda a renda de direitos autorais do álbum será doada para instituições que ajudam as pessoas de baixa-renda. Nos EUA, a Feeding America receberá a quantia. Para os fãs ingleses, Crisis será a presenteada. No restante do mundo, o repasse será feito para WFP.
Updade (2024): comecei um podcast para abordar diversos temas e os dois primeiros episódios são sobre essa canção. Conheça o Podcast Dylanesco, disponível no Spotify, Amazon Music, Apple Podcast e Youtube.
Em outubro de 1962, os EUA viviam seu momento mais tenso na Guerra Fria. Após instalarem mísseis nucleares na Turquia apontados para a URSS, os americanos viram seu arquiinimigo fazer o mesmo ao colocar mísseis na costa de Cuba, todos apontados para o território rival.
Apelidada de Crise dos mísseis, a tensão ia além de um iminente embate: era a consolidação de uma guerra nuclear. Uma guerra que poderia ficar sem vencedores, já que devastaria boa parte do nosso planeta – ou simplesmente sua totalidade.
O episódio influenciou Bob Dylan em ao menos duas canções. Let me die in my footspeps – inicialmente intitulada I will not go down under the ground – era uma música quase descritiva da situação: houve um crescimento na venda de tijolos e cimentos nos EUA, já que inúmeros cidadãos montaram abrigos subterrâneos para um possível ataque russo. Um Dylan patriota, percebendo a possível destruição total de seu país, se recusa a descer e prefere morrer na sua terra, com o orgulho de ser parte dela.
Contudo, assim como fez em algumas canções de protesto (vide Only a pawn in their game), Dylan também focou não apenas no fato, mas refletiu sobre as origens e os possíveis resultados desse embate.
A Hard rain’s a-gonna fall foi lançada no álbum “The Freewhelin’ Bob Dylan” (1963) e gravada em apenas um take no dia 6 de dezembro de 1962, no estúdio A da Columbia em New York. A melodia e a estrutura básica – como um diálogo – foram emprestadas da canção tradicional “Lord Randall”. Nela, um jovem e a mãe conversam e, aos poucos, revela-se que o filho está morrendo por envenenamento.
Ao vivo no Carnegie Hall Hootenanny – 22 de September 22 de 1962
Bob converte a música para uma problemática contemporânea. Sobre sua versão, ele afirma que “cada frase é na verdade uma música inteira. Mas quando a escrevi acreditava que não viveria tempo bastante para escrever muitas mais, então coloquei tudo o que pude nela.”
Todas as estrofes iniciam com um questionamento para o “filho de olhos azuis”: Onde ele esteve, o que ele viu, o que ele ouviu, quem ele conheceu e, finalmente, o que ele fará com a chuva que está prestes a cair.
Gravação de estúdio de 2008
Para o jornalista Anthony Scaduto, Dylan explica que não se trata de uma alusão a uma chuva nuclear, mas “apenas” de algum tipo de fim que está prestes a acontecer. Bob afirma que a frase que explica a chuva está na última estrofe, “Where the pellets of poison are flooding their waters” [Onde as gotas de veneno inundam suas águas]. Como veneno, ele diz considerar todas as mentiras que são empurradas para dentro dos cérebro dos americanos, principalmente em rádios e jornais.
EDIT: Infelizmente o vídeo foi excluído, mas recomendo procurar essa versão Ao vivo em Amherst, no dia 19/11/2010 (5ª estrofe) – Atualmente é a versão que mais me chama a atenção, principalmente a interpretação de Dylan nessa estrofe. É interessante perceber como o fraseado na guitarra de Charlie Sexton vai regendo e influenciando Bob na forma de cantar, que cresce gradativamente até seu ápice.
Nas suas respostas às questões, Bob utiliza imagens inéditas no linguajar usado pela música popular da década de 60. Acima de tudo, é uma canção que expressa terror e medo, sem um foco pré-definido. Não há menção à guerra nuclear, chuva radioativa, segregação racial ou a qualquer tema específico. A música incita o ouvinte a refletir sobre seus próprios medos, discutir a iminência de que algo ruim possa acontecer através de seus próprios sentimentos.
Abaixo, uma versão completa de “A hard rain’s a-gonna fall”, gravada em 10 de março de 1964.