Bob Dylan estrelou o comercial da Chrysler para o novo modelo 200 durante o intervalo do Super Bowl – famoso final do campeonato de futebol americano.
No vídeo, é possível ver Bob Dylan com cabelos castanhos (ao invés dos grisalhos que usava no ano passado), além de bastante maquiagem, ou photoshop, rejuvenescendo-o deixando-o meio esquisito.
Em sua fala, uma valorização da tradição americana e da tradição de construção de carros de Detroit, base da Chrysler. Ao fundo, trechos da música “Things Have Changed”.
Confira abaixo o vídeo e a tradução do discurso:
Existe algo mais americano do que os Estados Unidos?
Porque você não consegue importar originalidade.
Você não pode fingir ver ser verdadeiramente cool.
Você não consegue duplicar legado.
Porque o que Detroit criou foi a primeira e tornou-se uma inspiração para o… resto do mundo.
Sim… Detroit fez carros. E carros fizeram os Estados Unidos.
Para fazer o melhor, para fazer o mais primoroso, é preciso convicção.
E você não consegue importar o coração e a alma de todos os homens e mulheres trabalhando na produçao.
Você pode procurar o mundo todo pelas coisas mais refinadas, mas você não vai encontrar um correspondente para as estradas americanas e as criaturas que vivem nelas.
Porque nós acreditamos na aceleração, no rugido e na impulsão.
E quando é feito aqui, é feito com a única coisa que você não consegue importar de nenhum outro lugar.
Orgulho americano.
Então deixe os alemães fermentarem sua cerveja, deixe os suíços fazerem seu relógio, deixe os asiáticos montarem seu celular.
Nós iremos construir o seu carro.
A revista americana Esquire dedicou a matéria de capa de sua edição de fevereiro para fazer o perfil de alguns esquisitos do entretenimento e as vantagens de suas existências. Bob Dylan, obviamente, recebeu um espaço e um tema impossível de deixar de lado quando o assunto é sua excentricidade: a secreta vida pessoal de Mr. Dylan.
Tom Junod traça um perfil da privacidade dylanesca a partir de sete perguntas sobre detalhes do cotidiano, algumas delas feitas à equipe de Bob:
1- O que ele come no café-da-manhã?
2- Quais são seus hábitos de sono?
3- Bob Dylan é vegetariano?
4- Bob Dylan utiliza email?
“5-” Como é a vida afetiva de Dylan? (Tom se recusou a perguntar)
6- Qual carro Bob Dylan dirige?
“7-” Quem vai esculpir seu busto, se não um de nós? (esta foi apenas uma pergunta retórica).
Quem é este Bob Dylan?
Alguns relatos de pessoas que tiveram contato com ele são usados para ilustrar o quanto Bob Dylan valoriza a privacidade. Uma delas é Jeff Tweedy, que excursionou com Dylan no ano passado durante a turnê AmericanaramA. Paralelo aos testemunhos, Junod discute a importância do posicionamento, para muitos paranóico, de Dylan.
Primeiro Tom mostra que a valorização da privacidade não é o mesmo que reclusão. Todos sabem onde Bob mora; suas turnês são extensas e anuais; ele concede entrevistas quase sempre que lança discos; filmes, escritos por ele (como Masked and Anonymous) ou sobre ele (e com sua participação) foram lançados na última década. “Apesar da fama de ser um homem que não fala, Dylan é e sempre foi um homem que não se cala”, afirma o jornalista.
Após ilustrar em como Bob Dylan conseguiu manipular todos a acreditarem que ele é o coitado, Junod escreve:
“Dylan como a eterna vítima, Dylan como o tamanho de nossos pecados. Existe outra narrativa, no entando, e é de que Dylan não é apenas o primeiro e melhor poeta intencional do rock’n’roll. Ele é também o primeiro grande cuzão do rock’n’roll. O poeta expandiu a noção de como uma canção pode se expressar; o cuzão encolhe a noção de como uma platéia pode se expressar em resposta a uma canção. O poeta expande o que significa ser humano; o cuzão observa cada falha humana, mantendo um livro de dívidas para nunca serem esquecidas ou perdoadas”.
Então, talvez para amenizar as acusações e manter a paz com os fãs dylanescos, Junod dá alguns exemplos de encontros de anônimos com Bob e de que como ele foi solícito e simpático.
Bob Dylan e a policial de New Jersey
A matéria retoma o encontro bizarro que a polícial Kristie Buble teve com um idoso que observava casas na cidade de New Jersey durante uma chuva forte (história que ganhou um post exclusivo no blog da revista). Ao ser chamada para ver o provável mendigo que atormentava a vizinhança, Kristie abordou o indíviduo e perguntou seu nome: “Bob Dylan”. Após uma carona até o hotel e uma conversa simpática com o velho ensopado, Krisite foi surpreendida pelo empresáiro de Dylan, Jeff Rosen, irado com a conversa e obrigando para que a policial se afastasse. Um amigo de Bob mata a charada: “É a única liberdade que Bob Dylan tem – a liberdade de se locomover misteriosamente”.
De fato toda a discussão me lembrou do segundo show que fui de Bob em 2012. Antes de começar, puxei uma conversa com uma produtora que estava pedindo para não usar flashes nas fotos – um pedido do próprio Dylan, segundo ela. Ela também afirmou que Bob caminhou na região do Credicard Hall horas antes do show (uma região de São Paulo nada atrativa para turistas, diga-se de passagem). Isso, aliado às andanças que soubemos de Dylan pelas cidades onde passou, só me fizeram pensar no óbvio.
Bob Dylan se alimenta do cotidiano, do que há de mais real na vida. É através desse material bruto, dessa massa disforme e esquisita, que ele traça sua linha de raciocínio sobre a humanidade, nossos eternos inimigos e nossas eternas angústias e anseios. E é só através do anonimato, mesmo que momentâneo e ao custo de ameaças mafiosas, que é possível captar a verdade.
Ao fim da matéria, Tom Junod conclui ao colocar em palavras uma única e absoluta regra:
Nós não vamos ver Bob Dylan. Bob Dylan vem nos ver.
Morreu ontem, de causas naturais, o músico e ativista Pete Seeger – ele tinha 94 anos. Ao lado de outros ícones, como Woody Guthrie e Leadbelly, Seeger foi um dos grandes porta-vozes do folk, desde de os anos 40.
Bob Dylan, assim como praticamente todo o resto dos admiradores de folk, respeitava muito Pete. Entre suas músicas mais famosas, estão “If I Had a Hammer” e “Turn, Turn, Turn”, além de popularizar a canção “We Shall Overcome”.
Abaixo, dois momentos de Pete cantando Bob Dylan:
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