Novidades já nos dois primeiros shows de 2013

Um número limitado de cartazes como este são vendidos nos shows.

Bob Dylan iniciou a turnê anual com mudanças consideráveis em relação aos shows de 2012. A começar com a banda, que teve a confirmação da saída de Charlie Sexton para entrada de Duke Robillard.

Outra novidade foram os instrumentos escolhidos por Bob: pelo menos nos dois primeiros shows ele abandonou a guitarra e o teclado (que estava devidamente instalado no palco) e tocou apenas gaita e o grand piano – inserido pela primeira vez no meio do ano passado.

O repertório dos primeiros shows é bem recente, dez das 16 canções são de 1997 para cá. O álbum mais novo, Tempest, ganhou destaque com Bob apresentando quatro músicas.

Stu Kimball permaneceu no violão o show inteiro e deixou a cargo de Duke Robillard a função de guitarrista. Com o violão constante e a pegada mais blues e jazz de Duke, o show ficou bem mais calmo e intimista (inclusive as canções de Tempest). Bob Dylan parecia se esforçar para cantar mais limpo, sem mostrar seus atuais uivos roucos.

Confira o setlist e ouça o show do dia 6 e veja suas diferenças com o do dia 5:

1. Things Have Changed
2. Love Sick
3. High Water (For Charley Patton)
4. Soon After Midnight
5. Early Roman Kings
6. Tangled Up In Blue
7. Pay In Blood
8. Visions Of Johanna
9. Spirit On The Water
10. Beyond Here Lies Nothin’
11. Blind Willie McTell (no dia 5 “Beyond here” trocou de lugar com “Blind Willie”).
12. What Good Am I?
13. Thunder On The Mountain
14. Scarlet Town
15. All Along The Watchtower (dia 5: “Highway 61 Revisited”)

(bis)
16. Ballad Of A Thin Man

Abaixo, um vídeo gravado, uma espécie de diário, com alguns trechos do show do dia 5.

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“Man In The Long Black Coat”: a “House Carpenter” de Dylan

Recentemente encontrei esta animação, feita pelo artista Andrew Colunga, que ilustra a música “Man In the Long Black Coat”. A partir deste vídeo fui atrás da história por trás da densidade de uma das canções mais sombrias de Dylan.

People don’t live or die, people just float

“Man In The Long Black Coat” foi composta em março de 1989, durante as gravações de Oh Mercy, disco produzido por Daniel Lanois (que apesar das tensões nas gravações, voltaria a trabalhar com Bob Dylan em Time Out Of Mind).

Malcom Burn, músico que participou da gravação do disco, relatou para Damien Love (na Uncut de novembro de 2008) os primeiros esboços de Dylan com a canção:

“Quando ele começou a fazer, ele estava cantando talvez uma oitava acima. E não soou tão bem. Estava bem ruim, na verdade. E talvez tenha sido Bob ou talvez tenha sido Daniel Lanois, mas alguém percebeu que não estava funcionando, e sugeriu cantar uma oitava mais grave, e foi quando ele conseguiu aquele ‘Crickets – a-chirpin’ – water is high’. De repente o fraseado veio e eu fiquei tipo, ‘Porra, isto é muito bom.”

Além de testemunhar os primeiros passos da canção, Malcom foi responsável pelos grilos que preenchem a canção – feito com um lendário teclado Yamaha DX7.

Every man’s conscience is vile and depraved

Em sua autobiografia, Bob Dylan fez alguns comentários sobre a letra da música:

“Ela foi tirada de um abismo de trevas, visões de um cérebro elouquecido, uma sensação de irrealidade – o pesado preço do ouro pairando sobre a cabeça de alguém. Quando não resta mais nada, até a corrupção é corrupta. (…) A letra tenta falar de alguém cujo próprio corpo não lhe pertence. Alguém que amou a vida mas não pode viver, e cuja alma se amargura porque outros são capazes de viver”.

Para Clinton Heylin, “Man In The Long Black Coat” é uma releitura do tema da folclórica “House Carpenter” – também conhecida como “Daemon’s Lover”. A canção tradicional conta a história do retorno de um homem para seu antigo amor – que atualmente está casada com um carpinteiro. O homem então convence a mulher a largar o marido e os três filhos para viajar no mar. No fim, eles vão até próximo ao inferno, quando o barco onde está o casal quebra e é engolido pelo mar.

Seguindo a teoria de Heylin, a releitura do tema de “House Carpenter” pode ser a história contada sob o ponto de vista do carpinteiro. O homem da longa capa preta talvez seja a Morte ou o próprio Demônio.

Oliver Trager cita um rumor de uma possível influência do filme No Mercy, de 1986 e estrelado por Richard Gere e Kim Basinger, mas as relações são bem vagas se comparadas com a lógica de Heylin (veja o trailer do filme aqui).

A “Walk The Line” dylanesca

Em seu livro, Bob Dylan também comenta sobre suas intenções com “Man In The Long Black Coat”, comparando com um clássico de Johnny Cash:

“De algum modo estranho, pensei nela como a minha ‘I Walk The Line’, uma canção que sempre considerei o ponto alto, uma das mais misteriosas e revolucionárias de todos os tempos, uma canção que promove um ataque a nossos pontos mais vulneráveis, as palavras afiadas de um mestre”.

Morre Paul Williams, padrinho da crítica no rock

Morreu no último dia 27 o crítico musical Paul Williams. Fundador da lendária revista Crawdaddy, Williams é considerado o padrinho da crítica sobre rock por ser um dos primeiros a escrever seriamente sobre o assunto.

No universo dylanesco, fez vários textos em sua revista e em outras publicações, além de escrever alguns livros sobre Bob Dylan. Entre os destaques, está “Dylan – What Happened?”, de 1979, sobre a recente conversão ao cristianismo de Bob Dylan. O livro foi escrito após o crítico assistir a uma série de shows, as primeiras apresentações após a conversão, e lançado poucas semanas depois.

Um dos leitores do livro foi o próprio Dylan, que o convidou para passar alguns dias no backstage de alguns shows em 1980.

Recentemente li este livro e outros textos de Paul Williams compilados no livro “Bob Dylan: Watching The River Flow”. Ele não é jornalista formado e isso só conta a favor de sua escrita. É incrível como você entra de cabeça nos devaneios de Paul e se sente numa mesa de bar. Em algumas resenhas, ele escreve vários parágrafos sobre assuntos relacionados, mas não diretamente ligados ao disco, e reserva apenas algumas linhas para um resumo didático – como se apenas quisesse te instigar a mais ouvir do que ler a música.

É uma grande perda, mas também um grande legado de Paul Williams para a história da crítica do rock.