“Man In The Long Black Coat”: a “House Carpenter” de Dylan

Recentemente encontrei esta animação, feita pelo artista Andrew Colunga, que ilustra a música “Man In the Long Black Coat”. A partir deste vídeo fui atrás da história por trás da densidade de uma das canções mais sombrias de Dylan.

People don’t live or die, people just float

“Man In The Long Black Coat” foi composta em março de 1989, durante as gravações de Oh Mercy, disco produzido por Daniel Lanois (que apesar das tensões nas gravações, voltaria a trabalhar com Bob Dylan em Time Out Of Mind).

Malcom Burn, músico que participou da gravação do disco, relatou para Damien Love (na Uncut de novembro de 2008) os primeiros esboços de Dylan com a canção:

“Quando ele começou a fazer, ele estava cantando talvez uma oitava acima. E não soou tão bem. Estava bem ruim, na verdade. E talvez tenha sido Bob ou talvez tenha sido Daniel Lanois, mas alguém percebeu que não estava funcionando, e sugeriu cantar uma oitava mais grave, e foi quando ele conseguiu aquele ‘Crickets – a-chirpin’ – water is high’. De repente o fraseado veio e eu fiquei tipo, ‘Porra, isto é muito bom.”

Além de testemunhar os primeiros passos da canção, Malcom foi responsável pelos grilos que preenchem a canção – feito com um lendário teclado Yamaha DX7.

Every man’s conscience is vile and depraved

Em sua autobiografia, Bob Dylan fez alguns comentários sobre a letra da música:

“Ela foi tirada de um abismo de trevas, visões de um cérebro elouquecido, uma sensação de irrealidade – o pesado preço do ouro pairando sobre a cabeça de alguém. Quando não resta mais nada, até a corrupção é corrupta. (…) A letra tenta falar de alguém cujo próprio corpo não lhe pertence. Alguém que amou a vida mas não pode viver, e cuja alma se amargura porque outros são capazes de viver”.

Para Clinton Heylin, “Man In The Long Black Coat” é uma releitura do tema da folclórica “House Carpenter” – também conhecida como “Daemon’s Lover”. A canção tradicional conta a história do retorno de um homem para seu antigo amor – que atualmente está casada com um carpinteiro. O homem então convence a mulher a largar o marido e os três filhos para viajar no mar. No fim, eles vão até próximo ao inferno, quando o barco onde está o casal quebra e é engolido pelo mar.

Seguindo a teoria de Heylin, a releitura do tema de “House Carpenter” pode ser a história contada sob o ponto de vista do carpinteiro. O homem da longa capa preta talvez seja a Morte ou o próprio Demônio.

Oliver Trager cita um rumor de uma possível influência do filme No Mercy, de 1986 e estrelado por Richard Gere e Kim Basinger, mas as relações são bem vagas se comparadas com a lógica de Heylin (veja o trailer do filme aqui).

A “Walk The Line” dylanesca

Em seu livro, Bob Dylan também comenta sobre suas intenções com “Man In The Long Black Coat”, comparando com um clássico de Johnny Cash:

“De algum modo estranho, pensei nela como a minha ‘I Walk The Line’, uma canção que sempre considerei o ponto alto, uma das mais misteriosas e revolucionárias de todos os tempos, uma canção que promove um ataque a nossos pontos mais vulneráveis, as palavras afiadas de um mestre”.

Morre Paul Williams, padrinho da crítica no rock

Morreu no último dia 27 o crítico musical Paul Williams. Fundador da lendária revista Crawdaddy, Williams é considerado o padrinho da crítica sobre rock por ser um dos primeiros a escrever seriamente sobre o assunto.

No universo dylanesco, fez vários textos em sua revista e em outras publicações, além de escrever alguns livros sobre Bob Dylan. Entre os destaques, está “Dylan – What Happened?”, de 1979, sobre a recente conversão ao cristianismo de Bob Dylan. O livro foi escrito após o crítico assistir a uma série de shows, as primeiras apresentações após a conversão, e lançado poucas semanas depois.

Um dos leitores do livro foi o próprio Dylan, que o convidou para passar alguns dias no backstage de alguns shows em 1980.

Recentemente li este livro e outros textos de Paul Williams compilados no livro “Bob Dylan: Watching The River Flow”. Ele não é jornalista formado e isso só conta a favor de sua escrita. É incrível como você entra de cabeça nos devaneios de Paul e se sente numa mesa de bar. Em algumas resenhas, ele escreve vários parágrafos sobre assuntos relacionados, mas não diretamente ligados ao disco, e reserva apenas algumas linhas para um resumo didático – como se apenas quisesse te instigar a mais ouvir do que ler a música.

É uma grande perda, mas também um grande legado de Paul Williams para a história da crítica do rock.

Ouça Bob Dylan fazendo rap!

Além de ter escrito o primeiro rap da história, Bob Dylan já fez sua colaboração ao mundo do hip-hop em 1986. Kurtis Blow convidou Dylan para participar do disco Kingdom Blow, na faixa “Street Rock”.

Ouça:

Em Crônicas, V.1, Bob Dylan fala sobre sua iniciação no rap e cita sua parceria com Blow.

“Danny [Daniel Lanois, produtor de Time Out Of Mind e Oh Mercy] me perguntou quem eu andava escutando ultimamente, e eu disse Ice-T. Ele ficou surpreso, mas não deveria. Poucos anos antes, Kurtis Blow, um rapper do Brooklyn que tinha um sucesso chamado “The Breaks”, havia me pedido para participar de um de seus discos, e ele me familiarizou com aquele lance, Ice-T, Public Enemy, N.W.A., Run-D.M.C. Esses caras definitivamente não estavam por aí de bobeira. Estavam batendo tambores, arrebentando, arremessando cavalos nos despenhadeiros. Eram todos poetas e sabiam o que estava rolando. Alguém diferente estava fadado a aparecer mais cedo ou mais tarde, alguém que conhecesse esse mundo, tivesse nascido e crescido com ele… que tivesse tudo e mais um pouco a ver com ele. Alguém com uma cabeça aberta e arejada e com poder na comunidade. Ele seria capaz de se equilibrar com uma perna só em uma corda bamba estendida ao longo do universo e você o reconheceria quando ele chegasse – não haveria outro como ele. O público seguiria naquele caminho, e não se poderia censurá-lo por isso.”

Será que esse “messias” um dia será o neto de Bob, Pablo Dylan? Só o tempo dirá…