Para os dylanescos quem possuem iPhone, iPad ou estão pensando em comprar algum desses, aí vai uma ótima dica: um app que mostra fatos dylanescos ocorridos a cada dia.
Com o nome de This Day in Bob Dylan, o aplicativo também tem curiosidades (trívias), um Quiz para vc testar seu conhecimento, notas das músicas compostas entre 62 e 74 e alguns extras.
Confira no vídeo:
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Como eu não tenho iPhone e afins, fiquei apenas na vontade.
Nesta minissérie, falarei a respeito do “melhor disco de Dylan” sob três óticas: para a história do rock, para a história de Dylan e para a minha história. O rótulo de “melhor disco” é relativo e pode mudar ao longo dos anos. Os últimos álbuns de inéditas, por exemplo, mostraram-se tão bons como todos os que citarei nesta minissérie. Porém, quis montar um breve panorama dylanesco a partir desses três exemplos.
A primeira parte é sobre o disco com mais relevância para o rock.
Once upon a time…
A história de Highway 61 Revisited começa em maio de 1965. Menos de dois meses depois de lançar Bringing It All Back Home – que já ilustrava a tendência de Dylan em retomar suas raízes roqueiras, com o lado A tendo Bob acompanhado de uma banda -, o cantor fez uma série de shows na Inglaterra. A turnê foi filmada por D. A. Pennebaker e se tornaria o documentário Dont Look Back. Seria a última turnê solo e acústica de Dylan.
Em Don’t Look Back, há uma cena de Dylan tocando Hank Williams com amigos no quarto do Hotel Savoy, em Londres. Uma das músicas é “Lost Highway” e um amigo lembra a seguinte estrofe – que Bob prontamente tenta resgatar da memória:
“I’m a rolling stone, all alone and lost,
For a life of sin, I have paid the cost.”
Na volta aos EUA, Dylan pensara em abandonar a música. Ele comentou com um amigo que achava suas apresentações monótonas e, ao se questionar se ele mesmo iria num concerto de Bob Dylan, ele teve que se responder com sinceridade: “não”.
A salvação veio logo depois da turnê britânica (e possivelmente durante o vôo de volta). Bob escreveu “um vômito, que parecia ter 20 páginas” e que não se parecia com nada, apenas algo rítmico no papel. Ele não pensara neste texto como uma música até o momento em que, sentado ao piano, viu escrito, como que em câmera lenta, a frase “How does it feel?”.
Nothing to lose
Bob recrutou no dia 15 de junho de 1965 seu produtor desde parte de Frewheellin’Tom Wilson, para gravar uma música no estúdio A da Columbia. Para a sessão, Dylan sugeriu Mike Bloomfield, guitarrista da Butterfield Band. Além do restante dos músicos, Tom Wilson convidou o amigo e guitarrista Al Kooper para acompanhar a sessão.
Kooper chegou antes e prontamente trouxe sua guitarra. Já estava preparado quando viu chegar Dylan acompanhado de Bloomfield – com sua guitarra molhada de chuva nas mãos. Ao ver o guitarrista apenas se aquecendo, Al percebeu que não teria chances na guitarra e preferiu guardar suas coisas e se dirigir à sala de controle.
(Em um texto detalhista e investigativo, Derek Barker escreveu na sua Isis #120 sobre esses dois dias de sessão. Segundo suas pesquisas, Al Kooper chegou a tocar guitarra no dia 15. O que importa, contudo, é que Kooper estava convicto de que participaria da gravação e conseguiu se instalar no órgão de maneira malandra, mesmo sem nunca ter tido contato com o instrumento. No texto de Barker, Kooper relata que teve sorte ao ver que o órgão estava ligado, já que ele não saberia nem mesmo ligar a parafernália toda).
Com Bloomfield na guitarra, Kooper no órgão, Bobby Gregg na bateria, Joseph Macho Jr. no baixo, Paul Griffin no piano e Bruce Langhorne no pandeiro, Bob Dylan tocou guitarra e cantou uma das mais importantes músicas da história do rock.
As primeiras versões eram com Dylan no piano e uma levada de valsa, mas logo Bob encontraria o som que precisava para conseguir elevar o som da sua poesia.
Just take everything down to Highway 61
A escolha do nome deste disco é tão importante quanto o próprio disco. Se no álbum anterior Bob levou tudo de volta para casa, agora ele cairia novamente na estrada e passaria pela espinha dorsal da sua música.
A Rota 61 liga o norte ao sul dos EUA. No extremo norte, passa por Duluth, onde Bob nasceu, e Hibbing, cidade em que Dylan foi criado. A estrada é conhecida como “The Blues Highway” e também é caminho para os locais de nascimento e casas de Elvis Presley, Muddy Waters, Charley Patton e Son House.
Segundo a lenda, o famoso pacto com o demônio de Robert Johnson ocorreu na encruzilhada da Rota 61 com a 49. Precisa de mais?
Playing the electric violin
Cena de Don’t Look Back em que Bob aprecia a variedade de design das guitarras britânicas
Após gravar “Like a Rolling Stone”, Dylan só retornaria ao estúdio no fim de julho. Dessa vez não teria mais a supervisão de Tom Wilson e receberia Bob Johnston como seu novo produtor. As razões dessa mudança são misteriosas, mas uma das possibilidades seria, além de um desgaste na relação entre Dylan e Tom, uma necessidade de mudança na forma como as gravações seguiam. Bob agora tinha um novo processo de composição e interpretação.
Entre “Like a Rolling Stone” e a gravação do restante das faixas, Dylan se apresentou na edição de 1965 do Newport Folk Festival. Após uma participação tímida em 1963, ele voltou no ano seguinte como a grande atração e “porta-voz da geração”. Em 1965, Dylan experimentaria algo completamente diferente.
Um dos grandes objetivos do festival é difundir a cultura popular americana e suas várias facetas. Ao lado de apresentações de danças típicas, negros interpretam seu blues do Delta ou a versão elétrica de Chicago. Há workshops para auxiliar nessa disseminação do folk.
Tudo leva a crer que Bob Dylan não pensava em apresentar as músicas elétricas de Bringing It All Back Home e nem seu recém-lançado single, “Like a Rolling Stone”. Porém, ao perceber que Mike Bloomfield e outros músicos também estavam em Newport, resolveu ensaiar improvisadamente e apresentar esta nova roupagem. Em troca, ganhou as primeiras vaias que receberia nos próximos meses e alimentou ainda mais o mito dylanesco.
I had to rearrange their faces and give them all another name
Highway 61 Revisited consolida algo que era esporádico nas letras de Bob Dylan: a utilização de personalidades, reais ou não, para compor um contexto fantástico e surreal. Cassius Clay (“I Shall Be Free No. 10”) e Abraham Lincoln (“Talkin’ Word War III Blues”) já foram coadjuvantes nas fábulas dylanescas, mas agora Bob usa e abusa deste recurso.
Entre as canções com menções, “Highway 61 Revisited” e “Tombstone Blues” possuem uma boa quantidade delas. Mas nenhuma supera “Desolation Row”: Romeu se apaixona pela Cinderela; Corcunda de Notre-Dame, Caim e Abel são os únicos que não aguardam a chuva nem fazem amor; Einstein está disfarçado de Robin Hood. Esses são apenas alguns exemplos contidos na faixa que encerra o álbum.
Trilhando ‘Highway 61 Revisited’
Like a Rolling Stone: Como bem definiu Dylan, não se trata de ódio, e sim de vingança. Cuspida em mais de 6 minutos, “Like a Rolling Stone” conseguiu ser single e promoveu Dylan ao patamar de sucesso no pop, mesmo com críticas dos conservadores do folk. A batida inicial dá o sinal de que há um marco. Bruce Springsteen lembra que, quando a ouviu pela primeira vez, a batida soou como se uma porta fosse arrombada com um pontapé.
Tombstone Blues: O galope de “Tombstone Blues” remete a um resquício do estilo cru de Bringing It All Back Home, como a simplicidade de “Maggie’s Farm” e “Subterranean Homesick Blues”. A letra, influenciada por uma conversa entre policiais sobre a morte, tece comparações precisas, como “The geometry of innocent flesh on the bone/ Causes Galileo’s math book to get thrown”. No final, Dylan dá a dica, mesmo que obscura: “Now I wish I could write you a melody so plain/ That could hold you dear lady from going insane/ That could ease you and cool you and cease the pain/ Of your useless and pointless knowledge”.
It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry: Inicialmente com o nome de “Phantom Engineer”, esta canção com um títullo bem-humorado é um shuffle dos anos 40 com uma bateria arrastada. A letra possui algumas referências de blues e country, como o termo “my gal” e a frase sobre a lua brilhando por entre as àrvores, vinda diretamente de “Poor Me”, de Charley Patton.
From a Buick 6: Para Hinton, um carro clássico americano ganhou uma canção à altura. A música vem de “Milk Cow Blues”, de Sleepy John Estes e regravada por Elvis na fase Sun Records. Irwin concorda com Hinton ao ver uma temática de amor. Bob faz a descrição de sua mulher, possivelmente Sara Dylan: “she don’t make me nervous, she don’t talk too much”.
Ballad of a Thin Man: Para mim, é um recado direto para os jornalistas incapazes de entender as drásticas mudanças e evoluções do rock. Bob descreve um “freak show” para mostrar como Mr. Jones não consegue saber o que tudo aquilo significa, mesmo sendo letrado. Mas a crítica também pode ser apontada para qualquer não entendendor da obra dylanesca. A estrutura da música é uma arte única, com uma batida densa e uma melodia dura.
Queen Jane Approximately: Seria Queen Jane aproximadamente a então rainha do folk, Joan Baez? Shelton vê como um ataque pungente à “vida familiar tradicional, conscienciosa, marcada por regras de etiqueta ritualísticas, aflitivas, sem sentido”.
Highway 61 Revisited: A Rolling Stone definiu assim: Bob Dylan “guia uma série de personagens malfadados (sendo Deus e Abraão os mais conhecidos) pela ‘estrada do blues’ dos Estados Unidos, enquanto desfila seu veneno contra uma série de hipocrisias americanas como o falso patriotismo e o comercialismo grosseiro”.
Just Like Tom Thumb’s Blues: Diversas referências ilustram essa viagem ambígua e desastrada. O título pode ser do personagem de “Ma Bohème”, de Rimbaud, mas talvez esconda um jogo com Tom Wilson, ex-produtor de Dylan. O trajeto começa em Juarez (que fica próxima à Rota 61), passa até pela Rua Morgue de Edgar Allan Poe e segue até o momento em que o narrador percebe que é hora de voltar para New York. Para Polizzotti, ela pinta um quadro de blefes e perdas, de estar esgotado e do medo de você nunca mais poder voltar pra casa.
Desolation Row: Única música da última sessão de estúdio, ocorrida no dia 4 de agosto. Após algumas tentativas com outros músicos, Bob achou melhor se manter acústico e recrutou apenas os músicos Charlie McCoy no violão e Russ Suvakus no baixo. A canção pode ter influência de Desolation Angels, de Kerouac, mas suas referências são inéditas na música. Dylan disse a Jann Wenner que a compôs no banco de trás de um táxi em New York. Shelton faz uma das melhores sínteses:
“O cenário é uma paisagem de sonho e a descrição de Dylan combina de forma poderosa o grotesco, o existencial e o sonho. “Desolation Row” é um Mardi Gras grotesco em que heróis e vilões do nosso mito-história perfilam-se lado a lado. (…) O escritor que questionou a sociedade por dois anos agora encontra as respostas, mas não gosta do que vê. Tudo é absurdo, está virado de cabeça para baixo; tudo está perdido; tudo é ridículo; a única verdade repousa ao longo da Desolation Row.”
Concluindo: por que é o melhor disco de Dylan para história do rock?
“Se você precisasse resumir Highway 61 Revisited em uma única frase, bastaria dizer que é o álbum que inventou a atitude e a elevou a uma forma de arte. Basta olhar a capa. Ninguém, de Johnny Rotten a Eminem, fez algo melhor do que aquilo até hoje” – Nigel Williamson.
Highway 61 Revisited e seu maior sucesso influenciaram a criação de uma revista especializada. O rock não era mais apenas uma música pop que circulava nas paradas de sucesso. Agora, o rock é poesia, é expressão artística e é reflexão da condição do homem moderno. Aceitem ou não, muito disso se deve a Bob Dylan.