Resenha: Bootleg Series V.11 – The Basement Tapes (Pt.1)

The Basement Tapes Complete: The Bootleg Series Vol. 11

Look here you bunch of basement noise
You ain’t no punchin’ bag
(You Ain’t Goin’ Nowhere)

Chegando a onze volumes, a série de “bootleg oficiais” dá um passo atrás em seu novo garimpo. Se em “Another Self Portrait” a época contemplada é de 1969 a 1971, “The Basement Tapes Complete” resgata cerca de oito meses de 1967, quando Bob Dylan se reuniu com sua banda de apoio (ainda não batizada de The Band) para algumas sessões de gravação. Tanto o período quanto os registros se tornariam essenciais e históricos.

“The Bootleg Series Vol.11: The Basement Tapes Complete” tem um visual parecido com “Another Self Portrait”. Dois livros, com textos e fotos inéditos, complementam os 6 CDs com 140 faixas, das quais 33 são completamente inéditas.

Parando o tempo

Após seu acidente de moto em julho 1966, Bob Dylan passou um tempo se recuperando enquanto adiava todos os compromissos profissionais (edição do documentário sobre a turnê de ‘66 – que nunca foi lançado – “Eat the Document”; finalização do livro “Tarantula” e uma nova turnê mundial). Em 1967, já recuperado do acidente (e possivelmente depois de esboçar algumas letras que seriam a base para o projeto The New Basement Tapes), Bob Dylan passou a se encontrar com os integrantes de sua banda de apoio, após quase todos (exceto Levon Helm) se mudarem para perto de Dylan, na região de Woodstock, em um casarão intitulado “Big Pink”.

As primeiras gravações ocorreram precariamente na casa de Dylan, na sala “Red Room”. Segundo Robbie Robertson, o primeiro objetivo era “parar o tempo”. Por conta da qualidade do som e da dificuldade de trabalhar na casa de Dylan (e suas atribuições familiares, com filhos pela casa), o grupo resolveu mudar a área de trabalho para o porão da Big Pink.

(Posteriormente, haveria outra mudança. O grupo sairia da Big Pink para uma casa na Wittenberg Road. A fita resultante destas gravações – registradas depois de Dylan gravar John Wesley Harding – formam o CD 5, com a maioria das faixas inéditas).

Os primeiros registros foram de covers e poucos esboços de coisa nova. Com o tempo, a brincadeira foi ficando séria. Uma das razões era simples: sem shows, livros e disco novo, sem grana. A banda de apoio ainda fazia parte da folha de pagamento de Dylan e ele precisava arranjar alguma fonte de renda. Resolveu compor canções e gravá-las com o intuito de distribuí-las para que outros artistas gravassem (e assim, receber direito autoral sem precisar dar as caras ao mundo).

As primeiras músicas distribuídas pela editora de Dylan circularam em 1968. Nesta época, já se sabia que Bob sobrevivera do acidente, mas ainda se especulava quais implicações, e sequelas, o incidente teria. As canções, que deveriam se manter no circuito profissional, logo chegaram ao mercado paralelo da música, iniciando um movimento histórico.

Do porão à pirataria

Em 1968, Greil Marcus foi apresentado a uma fita, entregue por um “traficante” como se fosse droga, com algumas músicas da Basement Tapes. Só no ano seguinte é que esses registros cairiam no mercado, sendo distribuídos em um vinil com uma capa branca. Para identificá-lo, apenas um carimbo: The Great White Wonder.

Aclamado como o primeiro disco pirata da história do rock, o álbum duplo continha 23 músicas, sendo apenas sete das gravações no Big Pink. Mesmo com muito esforço para interromper sua distribuição, The Great White Wonder ganhou inúmeras variações e dificultou a ação da gravadora (em 2012, o site Pitchfork fez uma ótima matéria sobre o histórico bootleg, chamando-o de “o tio bacana do vazamento de discos de hoje em dia”).

Só em 1975 que a Columbia decidiu lançar algumas das músicas gravadas em 1967. Ainda assim, escolheram algumas faixas com importância relativa e algumas das músicas tiveram partes regravadas (o intuito era garantir uma experiência sonora melhor, mas fãs gostam mais de autenticidade do que qualidade). Quando lançado, Bob Dylan se surpreendeu com as boas vendas. “Eu pensei que todo mundo já tivesse”, disse.

A partir da década de 80, outras canções deste período começaram a entrar no circuito pirata. Nos últimos 20 anos, duas compilações “extra-oficiais” foram lançadas, contemplando com intenções profissionais uma gama muito maior daquela usada pela Columbia nos anos 70. The Genuine Basement Tapes, com 5 CDs, foi usado por Greil Marcus nos anos 90 como referência para seu livro sobre esta fase. Em 2001, uma nova compilação, A Tree With Roots, fazia um upgrade no álbum quintuplo, remasterizando e organizando de outra maneira.

Arqueologia sonora

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Agora, 47 anos depois das gravações e 39 anos depois do seu primeiro lançamento oficial, as Basement Tapes recebem a atenção e trabalho meticuloso da Columbia/Sony.

Parte das fitas de 7 polegads originais (das marcas Shamrocks, Pure Tones e Village Silver) foram resgatas pelo arquivista Jan Haust das mãos do próprio Garth Hudson – que ajudou no processo de restauração como uma espécie de consultor. Como muitas fitas estavam bem corroídas pelo tempo, e algumas caixas vazias, Haust utilizou de outras fontes: cópias das originais (feitas por um roadie de Garth), acetatos da época, DATs e o que mais fosse possível para trazer de volta toda a sonoridade.

Haust levou toda a documentação para Toronto, onde o engenheiro de restauração Peter Moore trabalhou arduamente – às vezes tendo que “passar” as fitas com um ferro.

Aí talvez esteja um dos grandes méritos da Columbia e Jeff Rosen, atual empresário de Dylan e provável idealizador da Bootleg Series. Ao utilizar de toda a estrutura e investimento do escritório de Bob e da Columbia, o resultado é um trabalho verdadeiramente arqueológico, unindo do garimpo de todos os restos materiais às tecnologias ideais para este tipo de restauração.

Neste ponto, apesar de muitos lançamentos piratas serem antecessores desta série, os “bootlegs oficias” trazem uma dignidade sonora impossível através de processos semi-profissionais dos piratas.

The Old, Weird America

The Old, Weird America

Greil Marcus se debruçou no bootleg “The Genuine Basement Tapes” para destrinchar as gravações de 1967 no seu livro de 1997 “The Old Weird America”. Na obra, essencial para os apreciadores de detalhes dylanescos misturados a devaneios quase poéticos do autor, Marcus cria um ambiente interessante. Para ele, os encontros de Dylan e a futura The Band não só fizeram o “tempo parar”, como criaram um universo tão próprio – que ainda assim dialogava com todo o cancioneiro americano – que só se justificava pensando neste período como a criação de uma nação única.

Marcus se baseia na mesma sensação criada por Harry Smith em sua essencial “Anthology of American Folk Music”. A “Smithville” era a compilação de todos os personagens e sentimentos contidos na antologia agrupados em um local utópico. Bob Dylan e cia., por sua vez, extrapolam as raízes nacionais e criam um universo paralelo – um Aleph de Borges aplicado ao contexto dylanesco, digamos.

Ao se deparar com covers, brincadeiras musicais, ensaios, estudos e composições prontas, o ouvinte se perde nas obras já existentes e naquelas que são criadas a durante seu registro – ou pouco tempo antes. Essa sensação nebulosa é a “Velha e Esquisita America” de Dylan, segundo Marcus.

Conclusão

The Complete Basement Tapes faz jus à qualidade artística de Dylan e companhia durante o ano de 1967. Se no lançamento de 1975 as canções sofreram mudanças radicais (com um bom intuito, mas pecando na execução e distanciando o disco do registro), dessa vez o objetivo foi trazer com a maior exatidão possível esses momentos incríveis e históricos.

É interessante notar os exercícios e esboços criativos de Bob Dylan. É possível já ouvir o timbre de voz que o tornaria “crooner” entre 1968 e 1973, além de se deliciar com canções inacabadas, muitas vezes nascendo no momento do registro.

Gibson lança violão assinado por Dylan

Gibson Bob Dylan SJ-200

Como já era de se esperar, por conta de boatos, algumas fotos e a aparição rápida (e estrategicamente genial) no comercial da Chrysler, a Gibson anunciou o lançamento de um violão feito em parceria com Bob Dylan.

Segundo a empresa, o modelo é uma réplica exata de um modelo customizado SJ-200 que Dylan possui. Ele será lançado em dois formatos: uma edição para colecionador, com um selo interno autografado por Bob (apenas 175 unidades, por US$9.999), e outra “genérica” para músicos, com algumas diferenças nos detalhes e um preço menor (não encontrei o valor oficial, mas imagino que será cerca de US$5.000).

Gibson Bob Dylan SJ-200

Entre os destaques do Bob Dylan SJ-200, está o logo do olho na mão do violão em madrepérola, dois escudos no corpo e um case personalizado com o mesmo logo.

Por que um SJ-200?

Assim que se oficializou o lançamento, alguns fãs começaram a questionar a escolha do formato usado como referência. Nos últimos anos, Bob Dylan costumava alternar entre dois modelos: um Martin D-28 e um Gibson J-45.

Bob Dylan's Gear

Uma pesquisa rápida mostra que Bob Dylan usou pelo menos em três momentos da vida o J-200 (ou o SJ-200). A primeira foi durante um workshop no Newport Folk Festival, em 1965; a segunda foi durante as fotos de Nashville Skyline e no show no Isle of Wight Festival, em 1969 (que Dylan ganhou de George Harrison); e a terceira foi em 1992. Apenas na foto de 1965 nota-se os dois escudos no corpo.

Confira abaixo mais fotos do Bob Dylan SJ-200.

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Devaneios sobre The New Basement Tapes

T-Bone Burnett e cia.

Acabo de ver “Lost Songs: The Basement Tapes Continued”, documentário sobre a produção de “Lost In The River” da Showtime, com direção de Sam Jones. “Lost Songs” tem um aparente compromisso de ser um “making of” do disco, mas acaba se tornando um grande acervo de reflexões e a influência da pressão no processo criativo.

T Bone Burnett resolveu juntar cinco músicos de gerações relativamente diferentes para musicar letras de um Bob Dylan de 26 anos (ou de 47 anos atrás). Elvis Costello funciona como um braço direito e “olheiro” no estúdio de T Bone ao mesmo tempo que torna o projeto menos juvenil. Jim James (do My Morning Jacket) é o extrovertido que possui experiência suficiente para uma aparente facilidade para compor. Taylor Goldsmith (The Dawes), Marcus Mumford (Mumford & Sons) e Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) formam o grupo dos novatos que ainda precisam de tempo e saúde mental para conseguir extrair harmonias e melodias.

O documentário começa com a forma de cada um encarar a aventura: 24 letras de Bob Dylan para serem musicadas em duas semanas, no lendário estúdio da Capitol, com o imponente e talentoso T Bone na produção e câmeras por todo lado. Alguns usam de todo apetrecho tecnológico para gravar ideias ou rascunhos bem definidos – vão desde gravações com iPhone no banheiro do avião (Elvis Costello) até um mini estúdio improvisado em um hotel (Jim James). Nesta primeira parte, tudo parece ser patrocinado pela Apple, com iPads, iPhones e Macs pipocando na tela.

Se alguns seguem o encontro com ideias completas e avançadas, outros rascunham coisas esperando um projeto mais colaborativo. Neste ponto, Marcus e Rhiannon são os que mais sofrem: chegam com quase nada e frustram-se ao se verem mais despreparados do que o resto do grupo. Taylor se vê como um coadjuvante ponderado, que sabe seu humilde lugar no “dream team”, trazendo boas melodias e belas canções. Mas Rhiannon não possui voz suficiente para impor suas ideias e seu processo criativo e Marcus se vê no beco da pressão por metas que o sobrecarrega.

E é aí que nasce um dos pontos mais interessantes e paradoxais do projeto.

O período que surgiram as letras são opostos a esses descritos acima. Bob Dylan ainda se recuperava de um acidente de moto que o obrigou, ou o presenteou, com um sumiço da vida pública. Neste meio tempo, ganha também sua banda de apoio como vizinhos. Desrespeitando todos os prazos (Dylan atrasou em 8 meses a edição de um documentário que nunca foi ao ar e seu livro Tarantula só chegaria às prateleiras 4 anos depois) Bob começa a compor letras exaustivamente. Segundo o dylanólogo Sid Griffin, este é o período mais produtivo da carreira de Dylan.

Se somarmos todas as músicas gravadas durante as Basement Tapes e as letras entregues a T Bone Burnett para o projeto, temos quase 80 obras (é óbvio que algumas músicas gravadas por Dylan e The Band são meros exercícios, mas não deixam de ter valor criativo). Isso sem contar os arranjos desenvolvidos por Dylan e os vizinhos para músicas de outros autores.

Segundo Robbie Robertson, as gravações tinham o objetivo de “parar o tempo” e Dylan afirma que apenas as compunha por que sentia que precisava escrevê-las. Os especialistas argumentam que Bob já pensava em enviá-las para serem gravadas por outros autores (o que foi feito com sucesso, rendendo bons hits e dólares a Dylan), mas o fato é: não havia uma pressão escancarada por resultados; não havia uma meta pré-estabelecida; não havia um convite formal, uma decisão vertical e câmeras por todos os lados. Era exatamente o contrário do vivido pelos “New Basement Tapes”.

Mas uma coisa se mantem. Segundo alguns relatos, Bob Dylan demonstrava um interesse para que a futura The Band passasse a compor também. Os encontros no porão da Big Pink serviam também como workshops, mesmo com Dylan chegando com letras prontas (apenas “Tears Of Rage” e “Wheel’s On Fire” tem co-autoria de algum integrante da banda), havia um ar colaborativo no ar. E independente das letras, Bob Dylan precisava do conhecimento musical e técnico da banda para botar em prática suas ideias – e parecia dar uma considerável liberade nisso.

Se T Bone e seu grupo criaram um caminho diferente, Marcus e Rhiannon parecem ter tido as aulas ministradas por Dylan e trilharam um caminho similar. Ao explorar a canção que estava em si próprio e não nas entrelinhas das palavras, o duo criou o ponto alto do projeto: usar a pressão para fazer algo sincero e real, surpreendendo a si próprio.

Na resenha que fiz para o disco, concluí que os destaques foram exatamente os dois. E vendo o documentário, tive certeza da minha conslusão. Marcus e Rhiannon trilharam o caminho das pedras, mas as histórias reunidas são únicas e eternas.