Bob Dylan faz show para UMA pessoa!

Fredrik Wikingsson

Não, você não leu errado. Ontem, às 15hs em Philadelphia (Meio-dia no horário de Brasília), o sortudo acima foi o único a presenciar Bob Dylan e sua banda no palco do lendário Academy Of Music. Bob cantou quatro canções, nenhuma de sua autoria, para uma casa propositadamente vazia.

Segundo a Rolling Stone, o show fez parte de um projeto sueco chamado Experiment Ensam (Experiência Só), em que diversas pessoas presenciam coisas completamente sozinhas que usualmente são reservadas apenas para públicos maiores. Em outros filmes, uma única pessoa esteve em um clube de comédia ou karaokês. O sortudo que viu Bob Dylan foi Fredrik Wikingsson, famoso apresentador de TV na Suécia. Para ele, o cachê de Dylan foi maior do que o de um show normal.

Bob Dylan – que segundo Fredrik ganhou mais do que seu cachê normal de show – subiu no palco para cantar apenas quatro canções: “Heartbeat”, de Buddy Holly; “Blueberry Hill”, de Fats Domino; “It’s Too Late (She’s Gone)”, do Chuck Willis e mais um blues que a única testemunha não reconheceu.

Wikingsson conta que seu maxilar ficou doendo durante horas. “Eu sorri tanto que parecia que eu estava em êxtase”. Para se ter uma ideia, no seu relato ele comparou até com sua família.

“Eu achei que a primeira fileira iria assustá-lo. Eu era um cara escolhendo o mais próximo do mais caro de uma garrafa de vinho em um restaurante, que é algo bem sueco a se fazer. Eu concluí que a segunda fileira seria ideal.”

Depois de 10 minutos incrivelmente ansiosos, uma pessoa entra no palco e começa a conversar com o técnico de luz. “No fim era o Dylan acenou com a cabeça para mim. Então ele começa a falar com o baixista e o baterista sobre como eles iriam começar a primeira música”.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=h62v-mS_Ko4[/youtube]

Logo que acabou a primeira música, Fredrik aplaudiu e ninguém se importou com ele.

“Eu imaginei que talvez soou um pouco falso e esquisito. Então na segunda música, eu imaginei que deveria falar algo. E foi tão estranho. Eu gritei ‘Vocês soam ótimos!”. Isto fez com que Dylan caísse na risada. Agora, eu tenho duas crianças e seus partos foram ótimos, mas ele rindo no palco por conta da porra de um comentário tosco que eu fiz foi inacreditável!”

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=bQQCPrwKzdo[/youtube]

Com Dylan tocando gaita no final de “It’s Too Late (She’s Gone)”, a platéia de uma pessoa se viu numa situação inusitada.

“Eu semprei detesto quanto as pessoas automaticamente gritam e aplaudem toda vez que ele começa a tocar gaita, mas eu me vi quase chorando quando ele fez o solo. Ele poderia muito bem apenas encerrar a canção sem o solo, mas ele queria que fosse ótimo”.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=SW4fmf7nE0E[/youtube]

No final, um blues irreconhecível para Wikingsson.

“Isto provavelmente será vergonhoso para mim porque talvez seja um blues bem famoso. Eu tenho certeza que quando ver as imagens vou descobrir qual era.”

A apresentação foi filmada com oito câmeras e um documentário de 15 minutos sobre a ocasião será publicado no Youtube no próximo dia 15 de dezembro.

Update (13/12)
Eis o resultado:

 [youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Zguua-xpMZI[/youtube]

Resenha: “The New Basement Tapes – Lost In The River”

The New Basement Tapes - Lost In The River

A Egyptian Records, gravadora de Bob Dylan que em 2011 lançou letras inéditas de Hank Williams musicadas por nomes como Jakob Dylan, Jack White, Norah Jones e o próprio Dylan, parece ter gostado da ideia e repetiu a receita – dessa vez focando nas letras do seu dono.

Tudo começou quando uma caixa de letras – manuscritas e datilografadas – foi entregue pelos editores de Bob Dylan ao amigo e produtor musical T Bone Burnett (que já havia tocado com Dylan desde os tempos de Rolling Thunder Revue).

A partir das letras (entregues em duas levas: uma com 16 e uma segunda com oito), datadas de 1967, T Bone quis repetir o clima do casarão Big Pink e recrutou músicos multi-instrumentistas para compor um “dream team” e musicar as poesias dylanescas.

The New Basement Tapes - Lost In The River

A escalação que entrou em estúdio foi de peso: Elvis Costello, Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops), Taylor Goldsmith (Dawes), Jim James (My Morning Jacket) e Marcus Mumford (Mumford & Sons) – todos com experiência em excursionar com Dylan. Além deles, o projeto ganhou a visita de Johnny Depp durante as gravações.

Antes, depois ou durante Basement Tapes?

Apesar de T Bone Burnett atrelar as letras a era Basement Tapes, Clinton Heylin questionou na edição Dez/14 da UNCUT a real época de composição. Para Heylin, tanto o conteúdo quanto evidências físicas (Robbie Robertson, da Band, indicou que as letras de Basement Tapes eram entregues apenas datilografadas, sem ser manuscritas) indicam que as letras de Lost In The River podem ter um contexto ainda mais intrigante.

“A razão para que estas letras tenham um valor além do status de ‘perdidas’ é que elas aparentam ser letras de músicas que Dylan compôs nos seis meses após o acidente de moto, mas antes da Band se mudar para Big Pink.”

Clinton então vê essas letras como a ligação perdida entre Blonde On Blonde e Basement Tapes, numa época em que Dylan questionava não só a direção de sua arte como a condução de sua carreira (com atritos cada vez mais frequentes com seu empresário, Albert Grossman). Talvez por isso, guardou a sete chaves os rascunhos que passavam pela sua cabeça – antes mesmo de pensar em gravar com os futuros vizinhos.

Conteúdo

Conforme foram divulgadas através de lyric videos, as letras de Lost In The River ficavam cada vez mais emocionantes. Independente da data exata em que foram compostas, seu conteúdo parece dialogar diretamente com as possíveis reflexões de Dylan durante a recuperação do fatídico – e histórico – acidente, formando um amálgama entre estudos poéticos e balanços sobre os últimos quatro anos corridos e bem sucedidos de Bob.

“Down on the bottom/ No place to go but up” está na estrofe de abertura do disco: talvez uma referência ao “vôo” de Dylan sob a moto? Outro exemplo possivelmente autobiográfico está em “Nothing To It”, descrevendo um incômodo por não se encaixar em nenhum rótulo ou estilo:

“Well I knew I was young enough
And I knew there was nothing to it
‘cause I’d already seen it done enough
And I knew there was nothing to it

There was no organization I wanted to join
So I stayed by myself and took out a coin
There I sat with my eyes in my hand
Just contemplating killing a man”

Ao se debruçar nas letras “esquecidas”, é interessante notar o novo caminho que Dylan passava a trilhar. As letras parecem se aproximar mais da visão que Bob desenvolveria principalmente em John Wesley Harding: alguém que entende a riqueza da linguagem e alegoria e passa a usá-la atrelada a uma maior maturidade e sensatez.

Outro ponto é o poder que Dylan tem em não olhar para trás. Várias letras de Lost In The River são clássicos instantâneos, com belíssimas construções. É o caso de “When I Get My Hands On You”, “Liberty Street” e “Stranger” (talvez minhas três favoritas do disco).

Forma

Por sorte de todos, o grupo liderado por Burnett não quis simular uma musicalidade dylanescas nas composições. Respeitou-se principalmente as características dos músicos envolvidos e a habilidade de interação entre eles.

As gravações parecem ter sido feitas ao vivo, com os músicos se olhando e se relacionando no momento do registro, dando um caráter mais pessoal e íntimista. Segundo Burnett, alguns músicos resolveram musicar as letras antes do encontro, enquanto outros preferiram vir com o propósito de agregar no improviso. Ambas as formas parecem muito próximas do formato que agrada Dylan, possibilitando, aí sim, um ambiente tão solto e leve quanto a época de Basement Tapes.

Documentário

Além do álbum e suas variações (CD, download e vinil), o registro resultou também em um documentário para a HBO, com cenas das gravações, além de entrevistas – incluindo até Bob Dylan.

O documentário irá ao ar nos EUA no dia 21 de novembro.

Conclusão

Lost On The River Box Set + Deluxe Digital Album + Fan Poster Bundle

“Lost In The River” é um projeto respeitoso e ousado. Como diz a máxima, ninguém canta Dylan como Dylan, mas quando não há uma referência das intenções do autor, a liberdade flui com a naturalidade da descoberta.

T Bone escolheu com inteligência e estratégia os integrantes do supergrupo. Para mim, os destaques ficam com dois jovens e talentosos músicos: Rhiannon Giddens, com sua bela voz e habilidade no banjo; e Marcus Mumford que me ganhou com sua interpretação de “Stranger”.

Além disso, é um ótimo complemento para o “Bootleg Series: The Basement Tapes Complete”, que Dylan acabou de lançar e que cobre exatamente a mesma época.

Infelizmente, ainda não há qualquer informação sobre o lançamento deste disco no Brasil.

Aquecimento Bootleg Series Vol. 11: vídeos, app e wiki

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Apesar das oito músicas lançadas em diversos sites e outras doze divulgadas com exclusividade na NPR, temos mais novidades para o décimo primeiro volume da Bootleg Series: The Basement Tapes Complete.

Vídeos

A Rolling Stone fez um ótimo trabalho levando o lendário Garth Hudson, integrante do grupo The Band (que gravou o Basement Taps com Dylan) ao local que serviu, em 1967, de estúdio. No vídeo, Garth (que ajudou no Bootleg Series) diz que é a primeira vez que ele volta à famosa casa, apelidada de Big Pink e dá alguns detalhes interessantes sobre este período.

É muito legal ver as imagens e imaginar a vida que Dylan e The Band levaram nesses meses despretenciosos e revigorantes.

Além de Garth, alguns responsáveis pela restauração e remasterização das fitas são entrevistados e mostram as fitas originais, usadas para a Bootleg Series.

A página do Bob Dylan no Facebook divulgou hoje um vídeo com entrevistas com críticos, escritores e produtores sobre a relevância do Basement Tapes e deste lançamento. Bob Dylan aparece em algumas imagens inéditas da época:

A Sony Music Italia divulgou no Youtube uma espécie de “unboxing” da Bootleg Series Vol.11. É possível ver o conteúdo da edição “Complete”: CDs, livros e muitas fotos inéditas.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=jU_izM_BYBk[/youtube]

Aplicativo (iTunes)

App

Lançado para o décimo volume, o aplicativo “Bootlegs” recebeu uma atualização para esta edição. Nele, é possível ter acesso a vídeos, inúmeros documentos, fotos, letras e informações de todas as faixas.

Ele está disponível no iTunes e para ter acesso às informações, é necessário ter as músicas no dispositivo.

Bob Dylan Wiki

Como não houve um trabalho denso de catalogação das gravações do Basement Tapes, não há muitas informações sobre todos os músicos participantes, seus respectivos instrumentos e outros detalhes.

Por isso, a Sony montou um Bob Dylan Wiki para que qualquer pessoa possa auxiliar.