15 músicas inesquecíveis… que Dylan (quase) esqueceu!

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Ao longo dos mais de 50 anos de carreira, Bob Dylan compôs centenas de canções. Algumas estão presentes, em shows e discos, desde seu nascimento; outras, viram a luz da plateia apenas raras vezes; outras só sentiram o frio do ar-condicionado do estúdio.

Abaixo, quinze músicas fantásticas que Dylan deixou de lado – ou guardou durante um bom tempo.

– Abandoned Love

Antes de ser gravada para o álbum Desire – mas substituída por “Joey” e inserida em Biograph, de 1985 -, “Abandoned Love” foi apresentada ao vivo durante a participação de Dylan em um show de Ramblin’ Jack Elliott no dia 3 de julho de 1975 (provavelmente dias após sua composição).

A interpretação no palco supera muito a de estúdio. Bob parece imerso no ideal de amor que construiu, mas que agora quer abandonar. Inúmeras frases ficam na cabeça do ouvinte com a certeza de que seu sentido teve ou terá relevância em algum momento. Um exemplo? “I march in the parade of liberty/ But as long as I love you I’m not free/ How long must I suffer such abuse/ Won’t you let me see you smile before I cut you loose?”.

– Up To Me
12 estrofes em 6:19 minutos e a impressão de que se poderia ouví-la durante horas. “Up To Me” foi gravada durante as sessões acústicas de New York para o disco Blood On The Tracks. Sua melodia e abordagem lembram bastante “Shelter From The Storm” (o que talvez explique sua exclusão), mas a história é outra. Ao invés de ser convidado para um abrigo contra a tempestade, o eu-lírico descreve situações em que o destino lhe dá responsabilidade.

Ao final, uma conclusão impossível de ser interpretada como algo não biográfico: “And if we never meet again, baby, remember me/ How my lone guitar played sweet for you that old-time melody/ And the harmonica around my neck, I blew it for you, free/ No one else could play that tune/ You know it was up to me”.

– Almost Done

Apesar de bela e tocante, “Almost Done” faz jus ao nome e é uma obra inacabada. Bob Dylan a tocou em alguns ensaios em maio de 1984, mas infelizmente abandonou antes de finalizá-la. A letra é difícil de entender, principalmente porque algumas vezes ele apenas balbucia para guardar a melodia.

Mesmo incompleta, é daquelas que se pega cantarolando no meio da tarde.

– Nobody ‘Cept You

Sobra de Planet Waves, mas executada durante os primeiros shows da concorrida turnê de ‘74, “Nobody ‘Cept You” parece uma música sacra travestida de romântica (“There’s a hymn I used to hear/ In the churches all the time/ Make me feel so good inside/ So peaceful, so sublime/ And there’s nothing that reminds me of that/ Old familiar chime/ Except you”).

Seu registro em estúdio ainda é experimental, com Levon Helm parando de tocar antes do término, mas o resultado é uma música alegre e vibrante.

– I’ll Keep It With Mine

Essa não é uma música linear, reta e bem formatada. Supostamente feita para Nico, do Velvet Underground, (com quem Dylan, também supostamente, teve um caso), “I’ll Keep It With Mine” ficou em constante transformação durante 18 meses. Nesse registro, durante as gravações de Blonde On Blonde, o produtor Bob Johnston parece não entender de onde Dylan tirou a canção.

– Percy’s Song

Assumidamente influenciada por “The Wind and The Rain”, de Paul Clayton, “Percy’s Song” é cantada de maneira tão melancólica quanto seu enredo. O solos de gaita parecem entoar uma poesia ainda mais bela e tristonha. Como em uma sinfonia, o único som que é possível ouvir da plateia são tosses pontuais – dos poucos vencidos pela garganta seca, como se o corpo esquecesse de todos os sentidos para focar apenas na audição.

– Lay Down Your Weary Tune
Uma ode à natureza, ou uma tela panteísta que segundo Michael Gray é uma visão de mundo em que a natureza não é apenas uma manifestação de Deus, como também contendo Deus em todo seu aspecto. “Lay Down Your Weary Tune” pode ser considerada das primeiras músicas impressionistas que Dylan compôs, ao lado de outras como “Mr. Tambourine Man”.

A canção foi deixada de lado do álbum The Times They Are A-Changin’ para dar lugar a “Restless Farewell” e seu adeus ao passado.

– Let’s Keep It Between Us

Mais um dos ataques ácidos direcionados àqueles que se acham amigos. Ao piano, Bob dispara seu ódio para as especulações e fofocas (algo que ele sentiu na pele desde o começo). Então sugere: “vamos manter entre nós, querida”.

Um R&B cantando com vontade e sinceridade, mas apresentada apenas algumas vezes. Gravada inicialmente para o disco Shot Of Love, Dylan chegou a tocá-la durante a turnê de 1980.

– John Brown

Bob Dylan, então com 21 anos, já opinava contrário às guerras – seja contra Cuba, seja contra o Vietnã. “John Brown” é inspirada na tradicional inglesa “Mrs. McGrath”, mas atualizada para os EUA do século XX e as consequências do ufanismo acéfalo.

A canção conta a história do soldado John Brown e sua orgulhosa mãe, que diz a todos sobre a ida do filho à guerra. No reencontro, ela se depara com o rapaz destruído – fisica e mentalmente – pela guerra. O final, quase em suspenso, deixa claro: o orgulho pela medalha inexiste nas memórias de John.

Dylan lançou a música em 1963, sob o pseudônimo de Billy Boy Grunt, na revista Broadside. Após algumas apresentações, Bob só revisitaria em 1987 após sugestão de Jerry Garcia para a turnê com o Grateful Dead. A primeira aparição oficial seria no disco Unplugged, de 1995.

– Pretty Saro

A música não é de autoria de Dylan, mas a primeira vez que a ouvi (durante a divulgação de “Another Self Portrait”), não consegui entender porque Bob resolveu tirar uma das melhores interpretações que já fez. Sua voz, da época “crooner” e levemente empostada, traz uma doçura única à canção tradicional e sua narrativa amorosa.

Quase ironicamente, Bob canta: “If I was a poet/ And could write a fine hand/ I’d write my love a letter/ That she’d understand”. Como se não fosse um de seus grandes trunfos.

– I’m Not There

Um quadro em poesia. Uma fotografia em acordes. Um segundo descrito em 5:13 minutos. Para Dylan, as palavras soltas, sem um significado aparente para ele, é critério suficiente para deixar a canção de lado. Como disse Heylin, foram necessários 40 anos e um filme de 40 milhões de dólares para que “I’m Not There” saísse do porão.

É uma música inacabada, quase nos mesmos moldes de “O Castelo”, de Kafka. Aqui, porém, o prazer não é ver uma obra não finalizada, mas ouvir as palavras e o som metaforseando-se em uma canção. A imagem que temos, contudo, é de um ser deformado, com um potencial de ser quem ele quiser.

– Blind Willie McTell

A canção menos esquecida por Dylan – que escolheu tocá-la frequentemente nos últimos anos -, mas que quase ficou inédita ao público. Bob gravou-a para Infidels, mas resolveu tirar da seleção final, deixando o crítico músical Paul Williams fora de si. Ao questionar Dylan sobre o porquê tirar a melhor canção da safra, Bob apenas respondeu: “Calma, é apenas um disco. Eu já fiz vários deles”.

Por sorte, ela saiu do ostracismo no Bootleg Vol 1-3.

– All Over You

Uma divertida canção que mistura humor e paixão. Tão óbvio quanto um gato ter nove vidas, um milionário ter um milhão de dólares e Rei Saud possuir quatrocentas mulheres, eu faria tudo por você. Amor e humor caminhando pela estrada da conquista.

– Love is Just a Four-Letter Word

Tão esquecida por Dylan que ele nem se deu o trabalho de terminá-la ou mesmo gravá-la. O registro ficou por conta de Joan Baez, que insistiu para que Bob a terminasse. No fim, como Oliver Trager descreve, “Love is Just a Four-Letter Word” é mais dos aforismos dylanescos.

– I Was Young When I Left Home
“Isso deve ser bom para alguém, esta música triste. Eu sei que é boa para alguém. Se não é para mim, é bom para alguém”, introduz Dylan. Este é o único registro da música (gravado em Minnesota em 22 de dezembro de 1961, após Bob gravar seu disco de estreia, mas antes do lançamento) e ele canta como se tivesse, no mínimo, o dobro da idade que tinha – apenas 20 anos. A canção ecoa “500 Miles” de Hedy West – que por sua vez utilizou como base a tradicional “900 Miles”.

Para quem se viu obrigado a sair de sua casa, de sua cidade e de abandonar o próprio nome para trilhar o caminho que lhe cabia, Dylan se mostra um exímio observador ao descrever a saudade de casa e das consequências tristes da despedida.

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E para você, alguma música inesquecível ficou de fora?

Digitalizado todo acervo de Bob Dylan

Um site de notícias focado em artes, o C-Ville, noticiou ontem que uma pequena empresa chamada Bluewall Media finalizou o processo de digitalização de mais de 50 anos de acervo de Bob Dylan.

Utilizando um programa desenvolvido por eles chamado Starchive, Peter Agelasto e sua equipe conseguiram digitalizar mais de 100 mil itens em dois anos. No arquivo, inúmeros áudios, filmagens, fotos e documentos. Por questões contratuais, Agelasto não deu muito detalhes do trabalho – apesar de incluir no site da empresa.

Bluewall Media

Bob Dylan foi o primeiro cliente a usar o programa Starchive – que é capaz de converter quase qualquer documento em arquivos de ótima qualidade (sejam eles retirados de fontes profissionais ou mesmo da internet). Segundo a notícia, foi o atual vice-presidente da Bluewalls Jim Fishel (que já trabalho na gravadora CBS – dona da Columbia) que indicou, em 2002, os serviços à equipe de Dylan.

A ideia do Starchive é mais do que arquivar a história dos artistas. Segundo a empresa, o programa permite um controle maior dos autores sob suas obras, questionando até a necessidade de uma gravadora.

Ainda não há qualquer indício do uso desses arquivos digitais, mas o app de “Bootleg Series” pode ser uma bela pista do que podemos esperar.

Lone Justice: imitando Dylan (ou o “verdadeiro canto”)

Em 1984, após voltar da turnê que se viraria o disco Real Live, Bob Dylan resolveu fazer um novo álbum de estúdio (Empire Burlesque), mas dessa vez de um jeito diferente. Depois de divergências com Mark Knopfler durante as gravações de Infidels, Bob decidiu assinar a produção e a testar diversas bandas em várias sessões de gravações em estúdios diferentes. Ron Wood participou de algumas sessões e testemunhou um Dylan menos assertivo e confiante no resultado.

Paralelo a tudo isso, Carole Childs – uma das namoradas de Dylan na época e que trabalhava como A&R (artista e repertório) da gravadora Geffen – sugeriu que Bob desse uma canção ao grupo que ela acabara de assinar e que gravavam seu disco de estreia.

Lone Justice

O Lone Justice era tido como os queridinhos do momento, com a bela cantora Maria McKee à frente e um estilo nomeado como “cowpunk”. Ainda assim, Maria e cia. ficaram surpresos ao ter como visita Bob Dylan, acompanhado por Ron Wood, para entregar-lhes pessoalmente a demo da música “Go ‘Way Little Boy”.

Ouça a demo feita por Dylan:

Bob resolveu acompanhar as gravações – talvez como um estágio para entender melhor a função de produtor que ele assumiu em seu próprio projeto. Anos depois Maria relembrou o momento e a orientação dylanesca:

“Ele veio até o estúdio quando estávamos gravando nosso primeiro álbum e nos ensinou a música. E ele ficou por aí. Ele trouxe Ron Wood com ele e eles tocaram na música… Nós acabamos trabalhando durante bastante tempo porque ele não gostava do jeito que eu estava cantando… até que eu cantei como se fosse ele! Chegou ao ponto que eu apenas fiz minha melhor imitação de Bob Dylan – e ele disse, ‘Ah, agora você está cantando de verdade!’

Circularam duas versões da música. Uma possui um solo de órgão no começo enquanto a outra (abaixo) possui um solo de gaita que alguns dizem ser do próprio Dylan – e outros de Maria.

Ouça a versão com a gaita no início:
[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=KB5ahWU09i8]

O grupo lançou apenas mais dois discos – sendo mais um de estúdio e outro ao vivo.