Se no último dia 11 foi aniversário de Charlie Sexton, hoje é o dia de Tony Garnier assoprar as velas. Nascido em St. Paul, Minnesota, no dia 18 de agosto de 1956, Tony Garnier foi criado na California e passou por bandas de relativo sucesso como Asleep at the Wheel e Lounge Lizards.
Também participou do histórico disco Rain Dogs de Tom Waits e foi baixista da banda do Saturday Night Live, ao lado do guitarrista G.E. Smith, antes de integrar a banda de Bob Dylan no dia 3 de junho de 1989, para substituir Kenny Aaronson em Dublin em decorrência de uma doença. Tony voltaria a banda no dia 10 de junho para se tornar o músico que mais dividiu o palco com Bob, somando 24 anos e mais de 2 mil shows na parceria.
Além de baixista, Tony possui a posição de “diretor musical” no palco, interpretando e repassando para a banda os sinais minimalistas de Dylan.
Somados aos milhares de show, Tony Garnier participou de várias gravações ao lado de Dylan:
– Singles:Things Have Changed e ‘Cross The Green Mountain;
– Álbuns:MTV Unplugged, Time Out of Mind, Love & Theft, Modern Times, Together Through Life, Christmas in the Heart, Tempest, Shadows In The Night;
– Filme: Masked and Anonymous.
Apesar das responsabilidades e dos olhares do chefe, Tony Garnier muitas vezes parece se divertir no palco. Em alguns momentos, o baixista fica visivelmente imerso no mundo dylanesco, como é possível observar (com um pouco de perseverança) nesta versão de “Ballad of Frankie Lee and Judas Priest”:
Ontem, 11 de agosto, foi o aniversário de 45 anos de Charlie Sexton. Não se sabe exatamente se ele ainda é guitarrista do Bob Dylan (apesar de ter sido substituído por Duke Robillard no começo do ano – período em que tocou com Jakob – , a partir de julho ele passou a substituir Duke alternando com o músico Colin Linden).
Ao ler seu verbete na enciclopédia de Michel Gray, é possível ter uma noção de seu talento. Assim como seu irmão Will, tornou-se guitarrista prodígio desde muito jovem. Fez amizade com Stevie Ray Vaughan e seu irmão Jimmy; lançou seu primeiro disco aos 16 (Pictures for Pleasures, de 1985); fez uma turnê com David Bowie em 1987, entrou na banda Arc Angels no começo dos anos 1990 e fundou o Charlie Sexton Sextet em 1995. Além de tudo isso, produziu e escreveu músicas para inúmeros filmes.
Bob & Charlie
A história da parceria entre Bob Dylan e Charlie Sexton começou nos anos 1980. Segundo o “Who’s Who” do Expecting Rain, Charlie participou de algumas demos em 1983. Em 1996, Charlie subiu ao palco como convidado em um show de Bob em Austin, Texas – cidade em que Sexton foi criado.
Segundo Gray, nas entrevistas que Bob Dylan fez para divulgar seu box Biograph, Bob afirmou: “Eu gostaria de ver Charlie Sexton se tornar uma grande estrela, mas a máquina toda deveria quebrar neste exato momento antes disso acontecer”.
Ele possui três passagens na banda de Dylan, computando mais que 500 apresentações:
Entre 5 de junho de 1999 a 22 de novembro 2002, quando substituiu Bucky Baxter;
Entre 5 de outubro de 2009 e 21 de novembro de 2012, quando substituiu Danny Freeman;
A partir de 2 de julho de 2013, quando entrou no lugar de Duke Robillard.
Charlie também participou de algumas gravações com Dylan:
Um dos diferenciais de Charlie Sexton na banda de Bob era sua interação com o chefe. Era comum vê-lo chegar próximo do teclado de Dylan e iniciar uma espécie de duelo. Em outros momentos, Charlie brincava com Bob no palco
https://www.youtube.com/watch?v=PeVBioYfcrw
Além da diversão que é assistí-lo, Charlie é um guitarrista muito talentoso, criando belas ambiências nas canções de Dylan.
Happy Birthday, Dear Charlie
Em 2010, no show em Billings, Montana, Bob Dylan surpreendeu a todos no bis. Após Tony Garnier cochichar no seu ouvido, Bob anunciou que aquela noite era aniversário de Charlie Sexton. O público foi a loucura enquanto Charlie se envergonhava no palco.
Bob então pediu para que todos cantassem duas vezes um “Happy Birthday” ao guitarrista:
(o vídeo, que infelizmente está com a data errada, foi dica do Pedro Queiroz lá no Facebook).
As recentes manifestações no país me fizeram relembrar, e de alguma maneira re-contextualizar, algumas músicas da chamada “fase de protesto” de Bob Dylan. Na semana passada, apenas postei a letra de “The Times They Are A-Changin’” e sua mensagem clara. Dessa vez, contudo, resolvi escrever algumas palavras de “When The Ship Comes In”, que também se encaixa na mesma temática, mas com uma abordagem apocalíptica e ainda mais alegórica.
Dylan on Brecht
“When The Ship Comes In” está diretamente ligada a um contexto engajado e poético. Isso porque em abril de 1963, Suze Rotolo – namorada de Bob – trabalhava na produção de “Brecht On Brecht”, um espetáculo off-Broadway (fora do circuito de elite do teatro nova-iorquino) baseado em canções de Berthold Brecht e Kurt Weill.
Um dia, Dylan foi se encontrar com Suze no teatro e se deparou com as músicas da dupla – “eram erráticas, sem ritmo e imprevisíveis – visões estranhas… eram como canções folk em sua natureza, mas ao contrário das canções folk também, porque eram sofisticadas”, lembraria décadas depois em suas Crônicas.
Uma das músicas ouvidas pelo visitante de 21 anos foi “Pirate Jenny”, composta para a “Ópera dos Três Vinténs”. Junto com “Mack The Knife”, “Pirate Jenny” é uma das músicas mais famosas da obra.
“Pirate Jenny” é uma música apocalítpica e vingativa. Conta basicamente a história de uma empregada que se vinga de seus patrões com a chegada de um navio da liberdade, justiça e boas intenções. Ao fim da canção, ao ser questionada sobre o fim de seus chefes autoritários, responde para matá-los.
A vingança pós-desdém
Segundo a própria Joan Baez, Bob estava a acompanhando em uma turnê pela Costa Leste americana quando ela parou o carro em frente a um hotel e pediu para Dylan verificar se era o hotel com o quarto reservado em nome de Joan Baez. Bob voltou informando que não havia reserva, mas quando ela foi ter certeza, viu que na verdade o funcionário havia mentido para Dylan. Enquanto a cantora pedia um quarto para seu acompanhante, o recepcionista tratou Bob com desdém, mas atendeu a famosa musicista.
Nesta noite, Bob Dylan – embriagado de ódio – escrevia “When The Ship Comes In”.
Sua versão de “Pirate Jenny” é tão assustadora quanto a original, mesmo que menos tétrica. A chegada do navio dylanesco é marcada pelo quase cessar do tempo, com o mar se dividindo ao meio e o vento parando de soprar. Os inimigos, acordando e desacreditando do que o esperavam, percebem não têm nada a fazer. A embarcação da justiça e sabedoria não estava de brincadeira.
Whole Wide World is watchin’
A canção foi lançada em 1964, no disco “The Times They Are A-Changin’”. Sua estreia ao público, porém, foi no ano anterior. Dylan escolheu esta música para cantar no dia 28 de agosto de 1963, na histórica Marcha dos Direitos Civis em Washington – para quem não se lembra, a manifestação teve como marco o famoso discurso “I Have A Dream”, de Martin Luther King.
Dylan, que nos anos 60 foi considerado o “porta-voz de sua geração” parece muitas vezes também ter um momento de profeta de gerações futuras. “When The Ship…” poderia muito bem ser a trilha sonora de boa parte dos protestos recentes no país.
Tudo ainda ESTÁ acontecendo e agora talvez não seja a melhor hora de entender O QUÊ ocorre, mas já está claro que já é um marco para cada um de nós, participantes ativos ou não.
Como se prevesse o futuro, em meio a um contexto com cobertura não só da grande mídia, mas também dos próprios autores e testemunhas, Dylan estava certo ao dizer com uma aliteração que faz lembrar todo o poder da Internet nos dias de hoje:
And the ship’s wise men
Will remind you once again
That the Whole Wide World is watchin’.