Bob Dylan fala por 40 minutos durante homenagem!

Bob Dylan no MusiCares 2015

Bob Dylan, o artista que faz cerca de 100 shows anuais, mas desaparece nos hiatos de cada fase da turnê, resolveu aparecer em um tributo a si próprio. Numa pesquisa mental rápida, lembro da sua participação do Grammy de 2011 e da condecoração por Obama no ano seguinte. Nas duas ele estava presente, mas não parecia estar lá. No dia 6 de fevereiro de 2015, contudo, foi o oposto.

A MusiCares é uma organização ligada ao Grammy que ajuda músicos com dificuldades. É uma espécie de lar dos velhinhos para cantores e instrumentistas. Para conseguir angariar fundos, faz um jantar de gala anual, homenageia alguém e ganha com contribuições. Bob Dylan foi o escolhido do ano e recebeu uma festa temática completa.

Bob Dylan e Jimmy Carter

O evento teve a participação de pessoas emblemáticas, que cantaram canções de Dylan ao longo dos anos. Segundo Sheryl Crow, foi o próprio Bob que escolheu a música para cada intérprete.

Confira o set:
Leopard-Skin Pill-Box Hat – Beck
Shooting Star – Aaron Neville
Subterranean Homesick Blues – Alanis Morissettez
On A Night Like This – Los Lobos
Senor (Tales of Yankee Power) – Willie Nelson
Blind Willie McTell – Jackson Browne
Highway 61 Revisited – John Mellencamp
One More Cup of Coffee – Jack White
What Good Am I? – Tom Jones
I’ll Be Your Baby Tonight – Norah Jones
Million Miles – Derek Trucks and Susan Tedeschi
Pressing On – John Doe
Girl From the North County – Crosby, Stills & Nash
Standing in the Doorway – Bonnie Raitt
Boots of Spanish Leather – Sheryl Crow
Knockin’ On Heaven’s Door – Bruce Springsteen
Blowin’ in the Wind – Neil Young

Depois de cerca de duas horas de músicas e homenagens, o ex-presidente dos EUA (e amigo de Dylan desde a década de 70) subiu ao palco para chamar o grande homenageado.

Após receber o prêmio – mas estranhamente mal tocá-lo -, Bob Dylan pegou o calhamaço de papel que estava em sua mão e começou a ler. E aí está o oposto de suas últimas aparições do tipo: ele falou por 40 minutos. Um discurso pronto de mais de 25 mil caracteres!

Chocolate entregue durante o evento.

Começou agradecendo a todos, mas informando que as canções não chegaram até aqui sozinhas. Foi preciso a ajudade inúmeras pessoas. E passou a elencá-las: o produtor John Hammond, Peter, Paul & Mary, The Byrds, Jimi Hendrix, Nina Simone e, é claro, Joan Baez. Outras tantas foram enumeradas por Dylan pela importância na divulgação de sua obra.

Depois de olhar pra frente, Bob Dylan se dá ao luxo de olhar para trás – não apenas para o seu passado, mas para o passado do caminho que trilha, e persiste caminhar, há 50 anos. Falou da influência de grandes músicos como Staple Singers e Jerry Lee Lewis, destilou um veneno quase humilde para vários compositores e cantores que rejeitaram suas letras e canções.

Prestou doces homenagens a amigos como Kris Kristofferson, Willie Nelon e Johnny Cash. E, como faz desde suas primeiras conversas com jornalistas, confrontou os críticos. Questionou as críticas e o porquê delas serem aplicadas apenas a ele. Questionou a forma como sua obra é tratada. Foi raivoso, sem perder a sutileza do humor.

Teceu comentários verdadeiros de um manifesto: o fim da verdade em detrimento da habilidade inútil e do pseudo-talento. Descreveu suas canções como se estivesse em um workshop: elas não foram difíceis de compor, só é preciso viver.

Dylan deixou claro sua opinião sobre si mesmo: ele não inovou em nada e não revolucionou nada. Apenas seguiu o caminho que aprendeu com suas influências. Só manteve a rebeldia do rock’n’roll aliada à tradição das histórias folk. Só respeitou as raízes do blues enquanto experimentava apresentá-las à poesia. Só um detalhe: fez tudo isso através de uma porta inédita.

Infelizmente ainda não temos nem o áudio nem um vídeo na íntegra deste momento histórico do universo dylanesco. Aguardo com ansiedade e esperança.

Alguns links interessantes (em inglês):

9 pessoas que Dylan agradeceu

Vídeo com trecho do discurso

Fotos oficiais (do Grammy)

Discurso na íntegra

15 coisas que podemos refletir sobre Bob Dylan com seu discurso

Sobre Bob Dylan e sua Musa (ou Entrevista: o diálogo possível)

AARP

Acabo de ler a longa entrevista de Bob Dylan na revista da AARP (sigla em inglês para Associação Americana dos Aposentados). É a primeira conversa de Dylan com a imprensa nos últimos três anos. A anterior foi com a Rolling Stone para divulgar Tempest (e teve um resultado bem mais cáustico do que esta).

Nas cerca de 9 mil palavras (ou 11 páginas impressas!), Bob Dylan conversou com Robert Love, editor da AARP Magazine e ex-funcionário da Rolling Stone. Eles falaram sobre as influências musicais, os anseios em torno de Shadows in the Night e, entre outros assuntos, a relação de Bob Dylan com sua musa maior – a música a poesia intrínseca a ela.

Permito-me fazer um devaneio sobre o que acabo de ler.

Ao terminar de ler a entrevista, me veio um antigo e minúsculo livro que me deparei na época da faculdade. Nunca me esqueci dele. Entrevista: O diálogo possível. De Cremilda Medina. Basicamente é um guia de como se fazer uma entrevista. A ideia é simples: uma entrevista deve ser um diálogo e, para isso, ambas as partes devem se alimentar do conteúdo. O entrevistador sempre sairá com algo novo, já que é essa a razão da conversa. Mas o segredo está em como fazer com que o entrevistado seja atingido de maneira equivalente.

E mais do que isso: como não transformar uma entrevista em um interrogatório!

Neste aspecto, acho que Bob Love conseguiu o trunfo de criar um papo com fluidez, muito conteúdo relevante e, o mais surpreendente, com uma considerável participação de Bob Dylan. Ao final da entrevista, Dylan relata:

“Eu achei essas perguntas muito interessantes. A última vez que eu dei uma entrevista, o cara queria saber de tudo menos de música. As pessoas fazem isso comigo desde os anos 60 – eles perguntam coisas que eles perguntariam para um médico, um psiquiatra, um professor ou um político. Por que? Por que você está me perguntando essas coisas?”

Dylan estava conectado ao entrevistador durante a conversa. O papo abriu o caminho para uma parceria e troca de informações. Não era um interrogatório. Era uma reflexão coletiva.

E aí vai outra reflexão: a crítica músical, assim como a própria indústria, enfrenta algo bizarramente similar aos anos 60. Se há 50 o jornalismo musical estava ainda em ascensão, hoje parece estar em queda livre – pelo menos na grande mídia. “Músicos” mais dançam do que cantam; o palco é preenchido com mais fogos e luzes do que instrumentos… e o jornalismo segue a mesma escassez de conteúdo.

420-bob-dylan-leans-hoodVoltando!!! E do que eles falaram? Sobre a ode à essência; sobre o respeito ao que importa; e, acima de tudo, sobre se manter fiel ao que acredita. Dylan desdenha Eric Clapton, Rod Stewart e Elton John, mas faz de maneira menos polêmica e mais motivacional. É como ele quisesse sugerir a eles que seguissem mais o coração do que a cabeça (apesar de admitir que um idoso precisa se apegar a sabedoria ao invés da paixão).

Bob Dylan reflete sobre sua base musical. Discorre sobre a verdade na música. O misticismo religioso necessário para criar uma conexão com a arte. A música é essencialmente humana e não pode ser convidada a malícias tecnológicas tão efêmeras quanto frias.

Sinatra e o mundo que Dylan ironicamente ajudou a destronar nos anos 60 merecem respeito. Se Frank passa o ápice da beleza humana em sua voz, faz isso através de um arranjo meticulosamente magistral e com um conteúdo que conecta todos. A essência é o conteúdo, a poesia, a letra, a história. Conectar-se com o enredo musical é a virtude do bom intérprete. Ser afinado e técnico passa a ser secundário.

Se em Shadows… ele homenageia os grandes compositores e letristas da geração anterior a ele, nesta entrevista ele faz questão de vomitar várias outras influências. Chuck Berry, Staple Singers, Glenn Miller, Bill Monroe, Hank Williams, Woody Guthrie. É como se ele tivesse explicando: eu não fiz nada de mais, apenas segui os passos dessas pessoas. E acreditei na minha Verdade.

bob-dylan

Mais do que todo o conteúdo tratado na entrevista, a pergunta que fica na mente é: por que Dylan quer falar com os aposentados americanos? Será que é por conta das músicas recém lançadas? Será pelas referências que Dylan queria fazer? Será que ele se assume como um idoso (enquanto Macca insiste em fazer parcerias com Rihanna, Kanye West, Lady Gaga e sabe lá quem mais!)?

E ae, alguma opinião?

Devaneios sobre The New Basement Tapes

T-Bone Burnett e cia.

Acabo de ver “Lost Songs: The Basement Tapes Continued”, documentário sobre a produção de “Lost In The River” da Showtime, com direção de Sam Jones. “Lost Songs” tem um aparente compromisso de ser um “making of” do disco, mas acaba se tornando um grande acervo de reflexões e a influência da pressão no processo criativo.

T Bone Burnett resolveu juntar cinco músicos de gerações relativamente diferentes para musicar letras de um Bob Dylan de 26 anos (ou de 47 anos atrás). Elvis Costello funciona como um braço direito e “olheiro” no estúdio de T Bone ao mesmo tempo que torna o projeto menos juvenil. Jim James (do My Morning Jacket) é o extrovertido que possui experiência suficiente para uma aparente facilidade para compor. Taylor Goldsmith (The Dawes), Marcus Mumford (Mumford & Sons) e Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) formam o grupo dos novatos que ainda precisam de tempo e saúde mental para conseguir extrair harmonias e melodias.

O documentário começa com a forma de cada um encarar a aventura: 24 letras de Bob Dylan para serem musicadas em duas semanas, no lendário estúdio da Capitol, com o imponente e talentoso T Bone na produção e câmeras por todo lado. Alguns usam de todo apetrecho tecnológico para gravar ideias ou rascunhos bem definidos – vão desde gravações com iPhone no banheiro do avião (Elvis Costello) até um mini estúdio improvisado em um hotel (Jim James). Nesta primeira parte, tudo parece ser patrocinado pela Apple, com iPads, iPhones e Macs pipocando na tela.

Se alguns seguem o encontro com ideias completas e avançadas, outros rascunham coisas esperando um projeto mais colaborativo. Neste ponto, Marcus e Rhiannon são os que mais sofrem: chegam com quase nada e frustram-se ao se verem mais despreparados do que o resto do grupo. Taylor se vê como um coadjuvante ponderado, que sabe seu humilde lugar no “dream team”, trazendo boas melodias e belas canções. Mas Rhiannon não possui voz suficiente para impor suas ideias e seu processo criativo e Marcus se vê no beco da pressão por metas que o sobrecarrega.

E é aí que nasce um dos pontos mais interessantes e paradoxais do projeto.

O período que surgiram as letras são opostos a esses descritos acima. Bob Dylan ainda se recuperava de um acidente de moto que o obrigou, ou o presenteou, com um sumiço da vida pública. Neste meio tempo, ganha também sua banda de apoio como vizinhos. Desrespeitando todos os prazos (Dylan atrasou em 8 meses a edição de um documentário que nunca foi ao ar e seu livro Tarantula só chegaria às prateleiras 4 anos depois) Bob começa a compor letras exaustivamente. Segundo o dylanólogo Sid Griffin, este é o período mais produtivo da carreira de Dylan.

Se somarmos todas as músicas gravadas durante as Basement Tapes e as letras entregues a T Bone Burnett para o projeto, temos quase 80 obras (é óbvio que algumas músicas gravadas por Dylan e The Band são meros exercícios, mas não deixam de ter valor criativo). Isso sem contar os arranjos desenvolvidos por Dylan e os vizinhos para músicas de outros autores.

Segundo Robbie Robertson, as gravações tinham o objetivo de “parar o tempo” e Dylan afirma que apenas as compunha por que sentia que precisava escrevê-las. Os especialistas argumentam que Bob já pensava em enviá-las para serem gravadas por outros autores (o que foi feito com sucesso, rendendo bons hits e dólares a Dylan), mas o fato é: não havia uma pressão escancarada por resultados; não havia uma meta pré-estabelecida; não havia um convite formal, uma decisão vertical e câmeras por todos os lados. Era exatamente o contrário do vivido pelos “New Basement Tapes”.

Mas uma coisa se mantem. Segundo alguns relatos, Bob Dylan demonstrava um interesse para que a futura The Band passasse a compor também. Os encontros no porão da Big Pink serviam também como workshops, mesmo com Dylan chegando com letras prontas (apenas “Tears Of Rage” e “Wheel’s On Fire” tem co-autoria de algum integrante da banda), havia um ar colaborativo no ar. E independente das letras, Bob Dylan precisava do conhecimento musical e técnico da banda para botar em prática suas ideias – e parecia dar uma considerável liberade nisso.

Se T Bone e seu grupo criaram um caminho diferente, Marcus e Rhiannon parecem ter tido as aulas ministradas por Dylan e trilharam um caminho similar. Ao explorar a canção que estava em si próprio e não nas entrelinhas das palavras, o duo criou o ponto alto do projeto: usar a pressão para fazer algo sincero e real, surpreendendo a si próprio.

Na resenha que fiz para o disco, concluí que os destaques foram exatamente os dois. E vendo o documentário, tive certeza da minha conslusão. Marcus e Rhiannon trilharam o caminho das pedras, mas as histórias reunidas são únicas e eternas.