Rolling Thunder Revue: a caravana cigana de Bob Dylan & cia

I asked the professors who teach the meaning of life to tell
me what is happiness.
And I went to famous executives who boss the work of
thousands of men.
They all shook their heads and gave me a smile as though
I was trying to fool with them
And then one Sunday afternoon I wandered out along
the Desplaines river
And I saw a crowd of Hungarians under the trees with
their women and children and a keg of beer and an
accordion.
(Happiness – Carl Sandburg)

Depois da midiática turnê de 74 com The Band – que muitos acharam plástica e burocrática – e da crise conjugal registrada em Blood On The Tracks, Bob Dylan resolveu, em abril de 1975, afastar-se do seu cotidiano confuso e partir para uma temporada na França, ficando na casa de David Oppenheim (artista responsável pela pintura da contracapa de Blood On The Tracks).

A temporada o aproximaria mais do inferno do que do paraíso. Além de passar seu aniversário de 34 anos sem receber visitas de sua mulher e filhos, Dylan encontrou um festival cigano que acontecia em Les Saintes Maries de La Mer. Ao presenciar a cultura cigana, suas festividades e seu modo nômade, Bob resolveu dar um novo rumo não só para sua carreira, mas para sua vida. Em breve, Bob Dylan seria Renaldo.

I’m going back to New York City I do believe I’ve had enough

Ao retornar para New York, Bob voltou a perambular pelas ruas de Greenwich Village e a rever amigos e colegas do tempo que seu cachê era pago em trocados. Com idéias e texturas musicais frescas na cabeça, Dylan buscava novos ares para sua musica.

Foi então que conheceu Jacques Levy, que havia escrito um musical, além de ter colaborado com Roger McGuinn na canção “Chestnut Mare”. Depois de compôr “Isis” juntos, Bob e Jacques se isolaram para escrever em parceria canções que integrariam o disco Desire (“Hurricane”, “Oh, Sister”, “Mozambique”, “Joey”, “Romance in Durango” e “Black Diamond Bay”). Com Levy, as canções teriam uma descrição mais próxima do cinema e os personagens, antes muito baseados na história de Dylan, agorae pareciam ter alma própria.

Após uma tentativa frustrada de gravar o disco com Eric Clapton, Bob recrutou a banda que tocava com seu amigo, artista plástico e também músico Bobby Neuwirth. Para dar o tempero cigano que conheceu na França, o destino o presenteou com Scarlett Rivera, que Dylan encontrara vagando pelas ruas de New York com seu violino.

You came down on me like Rolling Thunder

Depois de gravar Desire, mas antes mesmo de lançá-lo, Bob Dylan concretizava uma idéia que estava em sua cabeça desde o fim dos anos 60. Ao invés do alvoroço estratosférico que ele causou em 74, Bob decidiu fazer shows semi-secretos (os ingressos eram vendidos sem muito alarde) e utlizar uma dinâmica diferente: um festival itinerante que utilizava uma mesma banda como espinha dorsal e um clima de caravana cigana, com grandes artistas alternando no palco. Nascia assim a Rolling Thunder Revue.

Além de Bobby Neuwirth como o mestre de cerimônia, Dylan chamou para integrar a Rolling Thunder Revue Joan Baez, Ramblin’ Jack Elliott e Roger McGuinn. Mais artistas subiriam no palco, como Joni Mitchell, Allen Ginsberg, Robbie Robertson e tantos outros.

Parte do roteiro básico da apresentação, que chegava a mais de quatro horas de duração, começava com Neuwirth e sua banda, Guam (que incluía os conhecidos T-Bone Burnett e Mike Ronson). Joni Mitchell entrava em seguida e tocava algumas canções ao violão e outras com a banda. Jack Elliott também fazia sua participação. Depois de um intervalo de 15 minutos, as luzes se acendiam e, junto da Guam surgia um personagem, de chapéu, violão e máscara.

Tanto para aqueles que só tinham em mente o Dylan dos anos 60 quanto para os que haviam presenciado sua recente turnê com The Band, a entrada de Bob era surpreendente e confusa. Ao invés da aparência dylanesca intimista e quase indiferente (mesmo no estilo raivoso de 74), o que se via era um artista completo, com todas as qualidades de um performer. Em alguns shows, Bob subia ao palco utilizando uma máscara. Em todos eles, o cantor aparecia com o rosto pintado de branco – influência do movimento medieval commedia dell’arte, segundo o próprio Dylan.

Sua apresentação era intensa e energética. Era possível vê-lo, pela primeira vez, sem violão ou guitarra, cantando de maneira catártica em canções como “Isis”. Em outras, Bob se mostrava altamente concentrado nas versões acústicas e nas recentes composições. Entre elas, alem daquelas direcionadas ao seu casamento – como “Oh, Sister” e “Sara” -, destaca-se uma que revisitava o conteúdo engajado da era “cantor de protesto”.

“Hurricane” nasceu após a leitura de “The Sixteenth Round”, autobiografia de Rubin “Hurricane” Carter – um lutador de boxe preso em 1967 acusado de assassinatos que ele afirma nunca ter cometido. Junto com Levy, Bob escreveu uma reconstituição da cena do crime e fez observações sobre a maneira tendenciosa de como ocorria o julgamento.

Bob Dylan & Hurricane, em foto forjada (o boxeador conseguiu alguns dias de liberdade, mas eles quiseram postar como se Bob tivesse visitado-o na prisão)

Assim, além de toda a atmosfera cigana que engendrou os shows, havia também o objetivo de difundir a injustiça do caso Hurricane e pressionar as autoridades a rever o caso.

A primeira fase da turnê iniciou no dia 30 de outubro em Plymouth e terminou no dia 8 de de dezembro, no Madison Square Garden, para o concerto a Rubin, “The Night of the Hurricane”. A caravana tocou 31 shows em apenas 40 dias.

Apesar de parte da mídia achar que tudo não passava de uma jogada de negócios (os primeiros 13 shows arrecadaram a imensa quantia de 640 mil dólares), Bob Dylan não ganharia nada com os shows e todo capital seria utilizado para pagar os músicos e os custos de todos os envolvidos – que somavam quase 70 pessoas. Ele também incluiu nesta receita um outro projeto que alimentava em sua mente.

Renaldo & Clara

A presença dylanesca no cinema não era inédita. Além de ser protagonista no documentário “Dont Look Back” em 65, que registrou sua última turnê inteiramente acústica, e de sua participação como Alias no longa-metragem “Pat Garret e Billy the Kid”, de Sam Peckinpah, Bob havia editado juntamente com Howard Alk “Eat the Document”, um registro de sua turnê elétrica de 1966 mais teatral do que “Dont Look Back”.

Depois de sua recente participação no filme western de Peckinpah, Bob tomou gosto pelo ambiente cinematográfico e quis levar suas idéias para a película. Com a turnê custeando o filme, Bob chamou Alk e sua trupe para filmar tudo que achava que poderia servir para um longa. Ele também convidou Sam Shepard para ajudá-lo no roteiro – se é que houvesse um -, com forte influência surrealista.

Em Renaldo & Clara, os papeis dos atores-músicos variam e muitos fazem mais de um personagem. Bob Dylan interpreta Renaldo, Joan Baez é, entre outros, a “Mulher de branco” e Ronnie Hawkins fez o papel… de Bob Dylan! Sara, mulher de Bob, participa do filme sendo Clara e uma prostituta.

As cenas são esquisitas e improvisadas, mas há pérolas, como Bob Dylan e Allen Ginsberg conversando no túmulo de Jack Kerouac e uma conversa entre Joan e Bob em que ela pergunta “O que aconteceria se nós tivéssemos nos casado?”. A reticência dylanesca reina.

Mas a grande cena do filme é guardada mais para o fim, quando há uma conversa entre o triângulo dramático: Bob, Joan e Sara. Larry “Ratso” Sloman, em seu livro que registra sua “infiltração” na equipe, surpreende-se com o encontro entre “Queen Jane” e “Sad-Eyed Lady” em uma cena que as duas, na vida real, já deviam ter imaginado. E nós também.

As duas então começam a conversar sobre o triângulo amoroso e querem uma decisão de Dylan (digo, Renaldo!). Quando pressionado para falar a verdade e deixar de lado as respostas evasivas, ele proclama: “a verdade está em muitos níveis”.

Apesar de um fracasso nas bilheterias e para qualquer crítico que tentasse entender esta viagem dylanesca, o grande mérito de Renaldo & Clara é, no final das contas, o registro de Dylan e sua trupe no palco, além de seus devaneios sobre assuntos diversos, até sobre si mesmo.

Hard Rain

A turnê seria retomada no dia 25 de janeiro de 1976, com a “Night of the Hurricane II”, que teve participações de Stevie Wonder, Dr. John e outros. Contudo, a turnê perdeu integrantes e sua abordagem teve uma mudança considerável.

O casal Dylan estava cada vez mais em crise. Um dia antes de completar 35 anos, Sara visitou Bob e assistiu a apresentação que seria filmada para um especial de TV e que se tornaria o disco Hard Rain. Em “Idiot Wind”, Bob parece expurgar todos os defeitos e anseios de sua relação com Sara. Ali estava o registro de um fim iminente, que só se concretizaria em junho de 77.

Essa apresentação para a TV gerou também o disco ao vivo “Hard Rain”. Além de “Idiot Wind”, é possível ouvir versões energéticas de músicas como “Shelter From the Storm” e “Maggie’s Farm”.

This Land is Your Land

No final dos shows da Rolling Thunder Revue todos os músicos se reuniam no palco para tocar “This Land is Your Land”, do andarilho mais importante dos EUA, Woody Guthrie. Contudo, mais do que uma homenagem a um dos principais pilares dylanescos, a versão apresentada, mais alegre e veloz, era uma grande celebração da própria vida na estrada e do sentimento de união que tomou conta de todos os participantes durante aquele inverno de 1975.

Em 2002, a série de bootlegs oficiais lançou uma compilação das canções interpretadas por Bob Dylan durante a Rolling Thunder Revue.

Drifter’s Escape – o acidente de 1966

Em 2012, fez 46 anos do dia que Bob Dylan sofreu acidente de moto que mudaria o percurso de sua carreira drasticamente.

No início de 1966, Bob e The Band fizeram uma turbulenta turnê elétrica que passou pelos Estados Unidos, Europa e até Austrália, recebendo vaias na maioria dos lugares. O baterista Levon Helm foi substituído por Mickey Jones por se assustar com as frequentes ameaças do público (foi nessa turnê que Dylan foi chamado de “Judas”, por exemplo).

Após o fim da turnê, Bob conseguiu algumas semanas de folga do palco. Porém, a pressão ainda era imensa. Albert Grossman acabara de agendar mais 60 shows para o segundo semestre do ano; a ABC-TV adiantara US$ 100 mil para um especial de TV; a editora Macmillian pressionava Dylan para que ele terminasse logo o livro Tarantula, que ele insistia em adiar seu lançamento.

Com tudo isso em mente, no dia 29 de julho de 1966 Bob Dylan sofreu um acidente com sua moto inglesa Triumph 500. Por sorte, ele era seguido por Sara Dylan.

As reais implicações do acidente à saúde de Dylan nunca foram descobertas. Entre os inúmeros biógrafos, há os extremos de quem acredita que o acidente quase o matou e também quem diga que tudo não passou de uma farsa dylanesca para ele sair do foco por um tempo.

Para compor a fotografia do acidente, quatro referências em biografias:

Anthony Scaduto

Quando foi lançado em 1972, o livro escrito pelo jornalista da editoria de polícia e auto-intitulado “mafia expert” Anthony Scaduto foi considerado a primeira biografia séria escrita sobre um rockstar. Com um ar detetivesco, Scaduto entrevistou inúmeras pessoas, algumas delas testemunhando de forma anônima.

Em seu livro, Scaduto defende a ideia de que o acidente foi realmente grave: cortes no rosto, concussão no cérebro (que deu a Dylan uma breve amnésia), ferimentos internos e pescoço quebrado. Depois de ficar uma semana no hospital, Bob ainda ficaria mais um mês de cama em sua casa em Woodstock. Os médicos disseram a Sara Dylan e ao empresário Albert Grossman que se a fratura no pescoço tivesse sido com alguns centímetros de diferença, certamente o teria matado.

Robert Shelton

No Direction Home é considerada por muitos a biografia definitiva de Bob Dylan, mesmo abordando a vida do cantor até o início dos anos 80. Amigo de Dylan, Robert foi imprescindível para o início do sucesso do cantor. Semanas depois da publicação de uma resenha de Shelton sobre Dylan, Bob conseguiu seu contrato com a major Columbia, algo impensável para qualquer músico de Greenwich Village.

Em seu livro, Shelton destaca a dificuldade em se saber com exatidão o que foi real e o que foi invenção nos detalhes do acidente. Segundo o irmão de Dylan, David, o acidente existiu, mas “Bob nunca disse ter quebrado o pescoço. Foi Albert quem quebrou o pescoço”.

Bob disse a Shelton que “aconteceu em uma manhã depois de eu ficar acordado por três dias. Derrapei numa poça de óleo”, mas o jornalista verificou que para outras pessoas, Dylan afirmou que estava pilotando na Striebel Road, perto de sua casa em Woodstock, e levava sua moto para a oficina quando a roda traseira travou e ele voôu por sobre o veículo.

Robert colheu alguns relatos de pessoas que visitaram Dylan na época: Allen Ginsberg foi levar livros e disse que Bob não lhe pareceu gravemente ferido; Um editor da Macmillan afirmou que Bob se recuperava de um acidente terrível e que não pôde usar os olhos por um tempo; O diretor D.A. Pennebaker foi visitá-lo e o viu com um aparelho ortopédico.

Clinton Heylin

Em seu livro Behind the Shades Revisited, Clinton Heylin faz uma compilação funcional, com infinitas citações das mais diversas pessoas, contruindo um rico panorâma.

Heylin é o único que afirma que a moto do acidente era uma Triumph 650 Bonneville e ressalta que Dylan nunca foi famoso por ser um motociclista habilidoso. Durante uma entrevista em 1987, Bob afirma que teve um pânico quando olhou diretamente para o sol e que, ao freiar, a roda travou e ele vôou. Ele conta também que ficou uma semana no hospital e depois foi transferido para o sótão de um médico.

Dylan contou ao jornalista Al Aronowitz que viu sua vida passar em sua frente enquanto voava da moto para o chão. Ele tinha certeza que morreria. Para Heylin, D.A. Pennebaker relata que Dylan não parecia tão machucado pelo acidente, mas irritado com todo mundo.

Daniel Mark Epstein

Recém-lançada, A Balada de Bob Dylan é uma ótima leitura e trata de várias passagens dylanescas de maneira poética e muito bem narrada.

Em seu livro, Epstein enfatiza que não há registros médicos no hospital próximo e nenhum policial foi chamado e dá uma nova abordagem ao acidente, reduzindo-o a um ato de completa falta de destreza de Dylan:

“Graças aos céus não houve nenhum acidente de moto na vizinhança naquela manhã. Havia uma motocicleta e havia um poeta muito fatigado e desajeitado que queria andar nela. Ele disse que não dormia havia três dias. O veículo empoeirado, fora de uso, estava na garagem de Albert Grossman em Bearsville; não estava pronto para ser usado pois os pneus estavam murchos. Bob Dylan estava levando a pesada moto da casa de Grossman pela Striebel Road em direção a Glasco Trunpike, onde iria consertá-la, e Sara estava seguindo-o no carro. De algum modo Dylan perdeu o equilíbrio na estrada escorregadia e a motocicleta caiu sobre ele. Foi assim que ele se machucou. Esse foi o acidente de motocicleta.”

A reclusão dylanesca

Apesar dos diferentes relatos sobre o fatídico acidente, todos os livros compartilham da mesma conclusão: real ou fingimento, Bob Dylan certamente usou do evento para se distanciar da mídia e, principalmente, conseguir evitar toda a pressão que sofria.

Scaduto, por exemplo, afirma que “o acidente deu-lhe uma chance de resolver as coisas na sua cabeça, para tentar decidir para onde ele queria ir a partir daqui”. Para o jornalista, Dylan confessou: “Você estava certo sobre quando você descreveu todas essas pressões, mas você realmente tocou a superfície As pressões eram inacreditáveis. É algo que você não consegue imaginar ao menos que vivencie. Cara, [essa pressão] dói muito”.

Shelton conclui: “Mesmo se o caso fosse tão grave quanto o noticiado, o acidente se tornou uma metáfora, um tempo para mudanças, uma possibilidade de libertação, o começo de sete anos e meio de retirada para uma existência mais tranquila.”

No livro de Heylin, o capítulo sobre o acidente abre com uma citação de Dylan sobre a ocasião: “Quando eu tive aquele acidente… eu acordei, retomei meus sentidos e percebi que eu estava trabalhando para todos esses sanguessugas. E eu não queria aquilo. E também, eu tinha uma família”.

Epstein embasa sua hipótese de farsa ao citar uma entrevista de Dylan para a Rolling Stone em 1969, quando dá a entender que o acidente pode ter sido mais simbólico do que literal. Para Jann Wenner, Bob afirma: “Eu ainda não havia sentido a importância desse acidente até, no mínimo, um ano depois que ele aconteceu. Eu compreendi que ele foi um acidente de verdade”.

Bob Dylan usou esse tempo para descansar e se recompor mentalmente. O início 1967 foi usado para ensaios despretenciosos com The Band e tornaria-se o disco The Basement Tapes (lançado em 1975). Em outubro de 1967, Bob Dylan viajaria para Nashville para gravar John Wesley Harding, um álbum que marca seu distanciamento, no auge da psicodelia, ao rock.

Assim nascia, mais uma vez, um novo Dylan.

Álbuns dylanescos em nuvens de palavras

O americano Graham English usou as Word Clouds (nuvens de palavras) para uma idéia bem interessante: as palavras mais usadas nos discos de estúdio de Bob Dylan. O melhor foi que ele usou cores e tipografias próximas às usadas nos discos.

Ele sugere que sejam usados como Papel de Parede. Boa idéia, hein?

Se quiser, faça o download de todos as imagens.

Fonte: Sergio, dono do Blog Dylan, pelo Facebook.