Bob Dylan tem soul #2 (ou negritude dylanesca)

Depois de saber que Bob Dylan tem alma, eu descobri um álbum bem interessante: How Many Roads – Black America sings Bob Dylan. Como o próprio nome sugere, é uma compilação de várias canções do Bob na voz de negros americanos.

As interpretações se diferenciam bastante do original. É ótimo para ouvir com uma nova abordagem as canções de Dylan, com aquele toque que só os cantores negros têm. Também acho legal notar a importância na figura de Bob, mesmo que ele recuse, como porta-voz de questões humanitárias.

Apesar de ter sido lançado em 2010, os registros são atemporais. Uma porque perpassam diversas épocas; outra porque são versões que eternizam, a sua maneira, cada canção. É o caso de Nina Simone e sua Just Like a Woman; a Maggie’s Farm de Solomon Burke; o barítono de Brook Benton em Don’t Think Twice, It’s Alright; ou The Man in Me numa bela a cappella, pelo grupo The Persuasions. Citando apenas alguns

Para quem se interessar, sugiro o File Tram ou a Amazon. O disco não foi lançado no Brasil. Abaixo, segue a relação completa de faixas e seus intérpretes.

  1. BLOWING IN THE WIND – O.V. Wright
  2. GIRL FROM THE NORTH COUNTRY – Howard Tate
  3. I PITY THE POOR IMMIGRANT – Marion Williams
  4. MAGGIE’S FARM – Solomon Burke
  5. DON’T THINK TWICE, IT’S ALRIGHT – Brook Benton
  6. FROM A BUICK 6 – Gary US Bonds
  7. THE MAN IN ME – The Persuasions
  8. LIKE A ROLLING STONE – Major Harris
  9. WITH GOD ON OUR SIDE – The Neville Brothers
  10. MR TAMBOURINE MAN – Con Funk Shun
  11. MASTERS OF WAR – The Staple Singers
  12. I’LL BE YOUR BABY TONIGHT – Bill Brandon
  13. MOST LIKELY YOU GO YOUR WAY AND I’LL GO MINE – Patti La Belle
  14. KNOCKIN’ ON HEAVEN’S DOOR – Booker T Jones
  15. ALL ALONG THE WATCHTOWER – Bobby Womack
  16. JUST LIKE A WOMAN – Nina Simone
  17. I SHALL BE RELEASED – Freddie Scott
  18. LAY LADY LAY – The Isley Brothers
  19. TONIGHT I’LL BE STAYING HERE WITH YOU -Esther Phillips
  20. EMOTIONALLY YOURS – The O’Jays

Hank Williams e sua influência em Bob Dylan

A influência de Hank Williams na obra de Bob Dylan é inegável e apresenta-se em diversas formas. A primeira delas está na própria história da música americana. Apesar de morrer aos 29 anos, Hank Williams é uma das lendas do country.

Veja mais algumas referências de Hank na obra de Dylan:

  • Segundo Oliver Trager, Bob Dylan afirmou em 1965 que começou a compor após ouvir Hank Williams;
  • Durante as primeiras apresentações como um músico folk, e principalmente no álbum Nashville Skyline, é possível ver a influência de Hank no estilo vocal de Dylan, que adotou seu lendário “gemido country”;
  • No documentário Dont Look Back, registrado antes de Dylan gravar o álbum Highway 61 Revisited e sua revolucionária Like a Rolling Stone, Bob aparece cantando a música Lost Highway, que contém a seguinte estrofe: “I’m a rolling stone, all alone and lost/ For a life of sin, I have paid the cost”;
  • Em 1950, Hank passou a utilizar o pseudônimo de Luke the Drifter para fazer canções mais recitadas e com um conteúdo filosófico/espiritual. Bob Dylan foi diretamente influenciado por este formato no álbum John Wesley Harding;
  • Há 10 anos, em 2001, foi lançado Timeless, um CD em tributo à Hank Williams. Diversos artistas interpretaram canções famosas. Entre as participações, estão Keith Richards, Keb’Mo’, Sheryl Crow e, obviamente, Bob Dylan.

The Lost Notebooks of Hank Williams

Já faz algum tempo que circulava a notícia que Bob Dylan estaria preparando um álbum em tributo a Hank Williams. E agora se confirmou o disco “The Lost Notebooks of Hank Williams”, que será lançado no dia 4 de outubro.

O registro será lançado pelo selo de Bob Dylan, o Egyptian Records, e distribuído pela Columbia. Se sair no Brasil, virá pela Sony/BMG.

O projeto é bem interessante e utilizou de letras inacabadas encontradas em cadernos de anotações de Hank Williams. Todas foram musicadas pelos artistas, escolhidos por conta da evidente influência de Hank no trabalho de cada um. Entre eles, Norah Jones, Jack White, Levon Helm e parte da família Dylan: Jakob e Bob, que infelizmente não fizeram um dueto.

Abaixo, a lista das músicas e seus intérpretes:

Alan Jackson – “You’ve Been Lonesome, Too”
Bob Dylan – “The Love That Faded”
Norah Jones – “How Many Times Have You Broken My Heart?”
Jack White – “You Know That I Know”
Lucinda Williams – “I’m So Happy I Found You”
Vince Gill and Rodney Crowell – “I Hope You Shed a Million Tears”
Patty Loveless – “You’re Through Fooling Me”
Levon Helm – “You’ll Never Again Be Mine”
Holly Williams – “Blue Is My Heart”
Jakob Dylan – “Oh, Mama, Come Home”
Sheryl Crow – “Angel Mine”
Merle Haggard – “The Sermon on the Mount”

Bob Dylan no The Last Waltz

Recentemente consegui arrumar tempo para garimpar vinis na famosa Galeria do Rock, aqui em São Paulo. Entre minhas aquisições analógicas, encontrei um disco triplo: The Last Waltz, do grupo The Band.

Sobre The Band

O grupo começou no Canadá, no final dos anos 50, como banda de apoio do cantor de rockabilly Ronnie Hawkins. Ainda se chamavam The Hawks quando parte do grupo participou da gravação do álbum So Many Roads, de John Hammond Jr.

Foi o próprio Hammond, filho do renomado produtor John Hammond (responsável pela contratação de Dylan pela Columbia) que indicou a banda para Bob, que queria eletrificar sua música (e, consequentemente, mudar de vez a a história e o papel da música pop).

O The Band ganhou este nome na companhia de Bob Dylan, já que o anúncio dos shows era “Bob Dylan and The Band”. Após participar das turnês de 65 e 66, o The Band ainda faria gravações descontraídas com Bob, na região de Woodstock (que seria lançado como The Basement Tapes), além de gravar o álbum de estúdio Planet Waves e o registro ao vivo Before The Flood.

Sobre o The Last Waltz

O evento foi organizado para ser como o último show do The Band. Além da baixa venda de discos, os problemas com drogas e de relacionamento dos integrantes fizeram com que a banda decidisse terminar. Para celebrar os quase 20 anos juntos, o produtor Bill Graham organizou um jantar de Ação de Graças no dia 25 de novembro de 1976.

A apresentação contou com a participação de vários artistas, como Muddy Waters, Dr. John, Neil Young, Joni Mitchell, Van Morrison e, obviamente, Bob Dylan.

Segundo Howard Sounes, o concerto foi financiado pela Warner Bros., que pagou US$ 1,5 milhão para que se registrasse em vídeo este show histórico. A única condição era que Bob Dylan estivesse no filme. Para dirigir o filme, escalaram Martin Scorsese.

Renaldo & Clara

Nesta mesma época, Bob Dylan produzia seu conturbado longa Renaldo & Clara, filmado durante a turnê The Rolling Thunder Revue, entre 75 e 76. Ainda segundo Sounes, Bob teria proibido que sua participação no show fosse filmada, temendo que a veiculação de sua imagem no vídeo do concerto pudesse ofuscar o lançamento de seu próprio filme.

Depois de uma conversa nos camarins, Dylan aceitou o registro, mas não deixou que filmasse toda sua participação. Assim, apenas Forever Young, Baby, Let me follow you down e a música que fecha o show, I Shall Be Released (com todos os convidados), foram liberadas por Bob.

O disco triplo

Dylan aceitou que sua participação fosse utilizada integralmente no disco do concerto. Além das três que foram filmadas, Bob também tocou outra versão de Baby, Let me follow you down, além de I don’t believe you (she acts like we never have met).

Imagens inéditas

Coincidentemente, não faz muito tempo vi no Expecting Rain um link para uns vídeos amadores (ou uma gravação proibida) de todo o show. Há todas as canções que Dylan participou.

Para muitos, The Last Waltz é um dos melhores filmes de rock já feitos. Robert Shelton transcreveu em seu livro um trecho da crítica que Terry Curtis Fox fez sobre o filme para o Village Voice. Para Terry, “a montagem de Scorsese não procura esconder o quanto aquele se transformou em um evento de Dylan”.