O melhor disco de Dylan (pt. 2): Para a história de Dylan

Esta é a segunda parte da minissérie “O melhor disco de Dylan”. Neste post falarei sobre o melhor disco de Dylan para sua própria história. Como já disse, o rótulo de “melhor disco” é bem relativo, mas quis montar um breve panorama dylanesco a partir desses três exemplos. Veja a primeira parte aqui.

Depois de uma estadia em família no ambiente bucólico de Woodstock por cerca de 2 anos e meio – desde o fatídico acidente de moto, em 1966 -, Bob Dylan resolveu, no final de 1969, voltar a morar em New York, mais precisamente no número 94 da MacDougal Street, no coração de Greenwich Village.

You tamed the lion in my cage but it just wasn’t enough to change my heart

Talvez como consequência de sua volta ao mundo cosmopolita, ou devido à decisão de comprar e reformar completamente uma mansão em Point Dume (Malibu – Califórnia), Bob Dylan resolveu voltar a excursionar no início de 1974 com The Band, com a qual acabara de gravar o álbum Planet Waves.

O resultado da turnê – que obteve uma procura recorde de mais de 5 milhões de pessoas (cerca de 4% da população americana) para os cerca de 600 mil ingressos vendidos – foi mais do que seu registro no disco Before the Flood. Dylan retomou gosto pela vida boêmia, que resultou na volta do consumo, no mínimo, de álcool e cigarros, além das escapadas extraconjugais.

Felt an emptiness inside to which he just could not relate

Aliado ao retorno da tríade “sexo, drogas & rock’n’roll”, outro fator diretamente ligado ao nascimento de Blood on the Tracks foi o curso de artes que Dylan fez a partir de abril de 1974 com o imigrante russo Norman Raeben no Carnegie Hall.

Mais do que ensinar a pintar, Raeben buscava exercitar em seus alunos uma nova forma de olhar. A influência do professor no seu púpilo se deu principalmente de duas maneiras. Dylan explica que “ele colocou minha mente, minha mão e meu olho em um caminho que me permitiu fazer conscientemente algo que eu sentia inconscientemente”. Raeben também trouxe a Bob um outro entendimento de narrativa: ela não precisava ser vista como algo linear, mas poderia misturar passado, futuro e presente para criar um foco mais rico e unificado.

Bob tomou conhecimento de Norman Raeben através de amigos de sua esposa, Sara Dylan. Em 1978, ele deu alguns detalhes sobre como ficou sabendo dele:

“Eles estavam conversando sobre verdade, amor, beleza e todas essas palavras que eu ouvi durante anos, e eles as tinham todas definidas. Eu não conseguia acreditar… Eu perguntei ‘Onde vocês conseguiram todas essas definições?’ e eles me falaram deste professor.

[…] Nem preciso dizer que isto me mudou. Eu voltei para casa depois e minha mulher nunca mais me entendeu, desde então. Foi nesta época que meu casamento começou a acabar.”

Relationships have all been bad, mine’ve been like Verlaine’s and Rimbaud

Bob conheceu Sara Lownds em 1964, através da esposa de seu empresário Albert, Sally Grossman. Sara, que já fora coelhinha da Playboy, era casada com o fotógrafo Hans Lownds na época. Bob e Sara se casariam secretamente (até dos amigos e da então “namorada” Joan Baez) em 22 novembro de 1966.

As referências a Sara que Dylan fazia eram sempre de alta devoção, inclusive inspirando-o em canções como “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”, “Love Minus Zero/No Limit” e “Sara”.

Em Blood on the Tracks, independentemente de qual seja a temática da música, é possível ver no álbum inteiro o registro de um homem perturbado. Bob vê a instituição que mais valorizava, seu próprio casamento, ruir e não sabe qual caminho tomar.

Depois de experimentar a felicidade plena e expressando-a principalmente no disco New Morning, os esforços de Dylan para salvar seu casamento começam em Planet Waves. Neste disco de 74 já é possível ouvir o desespero, que trazia junto até uma aceitável contradição, e que alcançaria seu ápice em Blood on the Tracks e ecoaria também em Desire.

Sara e Bob se divorciaram em julho de 1977.

Like it was written in my soul from me to you

Depois da turnê de 1974 e do aprendizado com Raeben, Bob viajou com seus filhos Jesse (na época com oito anos) e Anna (sete anos) até a região de Crow River, próxima a Minneapolis, em uma fazenda comprada em parceria com o irmão David (figura que importantíssima na história de Blood on the Tracks, como veremos). Ao reviver a vida no campo, porém, Dylan não revisitou integralmente a vida familiar. No lugar de Sara, levou Ellen Bernstein, executiva de 24 anos da Columbia, que conhecera durante a recente turnê com The Band.

Tão absurdo quanto viajar com seus filhos e sua amante para o campo, Bob Dylan compôs boa parte das suas confissões amorosas (que eram, em sua maioria, direcionadas e estimuladas pelo seu casamento em crise) e mostrava-as para Ellen.

“Ele compunha no começo da manhã e meio que concretizava por volta do meio-dia, descia e eventualmente, durante o dia, compartilhava o que ele escrevia. Estava no seu caderno, e ele as tocava e perguntava para mim o que eu achava, e estava sempre diferente. […] Ele mudava, mudava, mudava. Você definitivamente tinha a noção de uma mente que nunca parava”. – Ellen Bernstein

I replay the past

Com as músicas aparentemente prontas e um novo contrato com a Columbia concretizado (Dylan lançou Planet Waves e Before the Flood pela Asylum Records), Bob resolveu gravar no mesmo estúdio que registrou seus primeiros discos, o A&R – antes chamado de Studio A da Columbia. Phil Ramone foi chamado para produzir as sessões de Blood on the Tracks, que tiveram início em 16 de setembro de 1974.

Na primeira sessão, Phil chamou para participar das gravações o músico Eric Weissberg e seu grupo, Deliverance, para acompanhar Dylan. Deste primeiro dia, apenas “Meet in the Morning” iria para o disco. Nas sessões seguintes, Bob pediu apenas que o baixista Tony Brown e o organista Paul Griffin (que tocara na gravação de Highway 61 Revisited) participassem.

Com a data de lançamento marcada para o começo de janeiro, os registros ocorridos em New York seriam a versão final do disco. Porém, durante as festas de fim de ano, Bob Dylan foi até Minneapolis para ficar com sua família e mostrou o disco para seu irmão mais novo, David. Ao ouvi-lo, o caçula não gostou; achou as músicas muito parecidas e que sua venda seria baixa por conta da atmosfera monótona.

https://www.youtube.com/watch?v=ERzUPtc8W_c

David, que era produtor de bandas locais e jingles, levou Bob até o Studio 80 e nos dias 27 e 30 de dezembro Dylan gravou com músicos convidados pelo irmão. Além de regravar 6 das 10 músicas de Blood on the Tracks, Bob reescreveu algumas. Entre as músicas com mais mudanças estão “If You See Her, Say Hello”, “Tangled Up in Blue” e principalmente “Idiot Wind”, cujas alterações deixaram a música significativamente menos pessoal.

Blood on the Tracks foi lançado no dia 20 de janeiro de 1975 e recebeu ótimas críticas. Muitos acharam que era o melhor trabalho de Dylan desde sua reclusão em Woodstock, e vários o destacaram, mesmo ainda no meio da década, como o melhor disco dos anos 70.

Trilhando – Blood on the Tracks

Tangled Up in Blue – Uma das canções que mais absorveu os ensinamentos de Norman Raeben. Dylan mistura os pronomes e o conceito de tempo é diluída. Sobre a música, Bob já afirmou: “demorei 10 anos para vivê-la e 2 anos para compô-la”.

Simple Twist of Fate – Clinton Heylin, que teve acesso ao caderno em que Dylan escreveu todas as canções do disco, diz que esta canção tinha o nome temporário de “Fourth Street Affair” (possível referência ao endereço que Bob viveu com Suze Rotolo nos anos 60). Assim, Heylin acha que, da mesma forma que o término do relacionamento com Suze inspirou o cantor a escrever uma ode a um antigo amor, em “Girl From the North Country” Sara poderia ter incitado-o a lembrar de sua relação com Rotolo.

You’re a Big Girl Now – A versão de New York é incrivelmente emotiva. Porém, Dylan preferiu a versão de Minneapolis para incluir no disco (com ele fazendo os floreios “flamencos” no violão). De qualquer forma, é impossível não se envolver com o sofrimento de Bob, principalmente nas frases finais: “I’m going out of my mind/ With a pain that stops and starts/ Like a corkscrew to my heart/ Ever since we’ve been apart”.

Idiot Wind – Para mim, é uma das canções mais viscerais de toda obra dylanesca (escrevi aqui um post sobre ela). Em “Idiot Wind”, é possível sentir todos os sentimentos de um término de relacionamento: o arrependimento, raiva, desprezo e, acima de tudo, dor. A versão de Minneapolis sofreu fortes mudanças na letra e interpretação, tornando-se bem menos autobiográfica. É Dylan quem toca o órgão da canção.

You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go – Indícios (como as cidades citadas) indicam que a música é para Ellen Bernstein. Apesar de Dylan parecer ter investido neste relacionamento, Ellen nunca quis algo mais sério. A canção parece ser cantada por um homem feliz, mas há toques melancólicos, como a comparação com o relacionamento tumultuado de Rimbaud e Verlaine.

Meet Me in the Morning – Oliver Trager a vê como a melhor performance vocal de Dylan no disco. A participação de Buddy Cage no pedal steel foi marcada por uma atitude agressiva, com Bob sendo ríspido ao explicar a Cage como tocar. No fim, o músico percebeu que era apenas uma brincadeira de Dylan para forçá-lo a dar seu máximo.

Lily, Rosemary and the Jack of Hearts – Shelton a define como “uma das mais longas fábulas de Dylan, que se desenrola como um jogo de cartas”. São 15 estrofes que relatam, com a linguagem pós-Raeben, um triângulo amoroso seguido de morte. Na gravação, depois de Bob ensaiar por apenas dois ou três minutos, David deu a dica aos músicos: “Quando vocês pensarem que a canção acabou, ela não acaba. Apenas continuem tocando. É uma longa música”.

If You See Her, Say Hello – Para Michael Gray, é a reescrição de “Girl from the North Country”. A versão do disco é arrastada, sensível, mas menos intensa que a de New York. Impossível não sentir compaixão ao ouvir: “Either I’m too sensitive or else I’m gettin’ soft”.

Shelter from the Storm – Apenas três acordes são necessários para descrever o estado tempestuoso em que o narrador se encontra. Porém, a letra e a intepretação de Dylan vão além. Muito além: “I bargained for salvation and they gave me a lethal dose/ I offered up my innocence and got repaid with scorn”.

Buckets of Rain – Inspirada na melodia de “Bottle of Wine”, de Tom Paxton, Shelton que as imagens são “risos para não chorar” e define a música como “o vento idiota sopra uma chuva pesada na Rua da Desolação”.

Concluindo: por que é o melhor disco de Dylan para sua história?

“Eu sou um mistério apenas para aqueles que não sentiram as mesmas coisas que senti”.

“Muitas pessoas me disseram que gostaram deste álbum. É difícil para mim me relacionar com isso – quero dizer, as pessoas apreciando este tipo de sofrimento.”
Bob Dylan

Aliado ao contexto desesperador de Dylan, Blood on the Tracks também pode ser considerado o ápice da criação lírica de Dylan. Se é necessário responder a pergunta com apenas uma frase, a minha seria: porque nenhum álbum dele foi tão verdadeiro e confessional.

Em um artigo escrito em 1975 e intitulado “Um álbum de feridas”, Greil Marcus começa afirmando que Bob não estava brincando quando ele chamou seu novo disco de Blood on the Tracks, já que as canções está cobertas de sangue.

O disco é o registro de uma sangria verborrágica. Mesmo bem lapidada, soa transparente e úmido de lágrimas.

O melhor disco de Dylan (pt. 1): para a história do rock

Nesta minissérie, falarei a respeito do “melhor disco de Dylan” sob três óticas: para a história do rock, para a história de Dylan e para a minha história. O rótulo de “melhor disco” é relativo e pode mudar ao longo dos anos. Os últimos álbuns de inéditas, por exemplo, mostraram-se tão bons como todos os que citarei nesta minissérie. Porém, quis montar um breve panorama dylanesco a partir desses três exemplos.

A primeira parte é sobre o disco com mais relevância para o rock.

Once upon a time…

A história de Highway 61 Revisited começa em maio de 1965. Menos de dois meses depois de lançar Bringing It All Back Home – que já ilustrava a tendência de Dylan em retomar suas raízes roqueiras, com o lado A tendo Bob acompanhado de uma banda -, o cantor fez uma série de shows na Inglaterra. A turnê foi filmada por D. A. Pennebaker e se tornaria o documentário Dont Look Back. Seria a última turnê solo e acústica de Dylan.

Em Don’t Look Back, há uma cena de Dylan tocando Hank Williams com amigos no quarto do Hotel Savoy, em Londres. Uma das músicas é “Lost Highway” e um amigo lembra a seguinte estrofe – que Bob prontamente tenta resgatar da memória:

“I’m a rolling stone, all alone and lost,
For a life of sin, I have paid the cost.”

Na volta aos EUA, Dylan pensara em abandonar a música. Ele comentou com um amigo que achava suas apresentações monótonas e, ao se questionar se ele mesmo iria num concerto de Bob Dylan, ele teve que se responder com sinceridade: “não”.

A salvação veio logo depois da turnê britânica (e possivelmente durante o vôo de volta). Bob escreveu “um vômito, que parecia ter 20 páginas” e que não se parecia com nada, apenas algo rítmico no papel. Ele não pensara neste texto como uma música até o momento em que, sentado ao piano, viu escrito, como que em câmera lenta, a frase “How does it feel?”.

Nothing to lose

Bob recrutou no dia 15 de junho de 1965 seu produtor desde parte de Frewheellin’ Tom Wilson, para gravar uma música no estúdio A da Columbia. Para a sessão, Dylan sugeriu Mike Bloomfield, guitarrista da Butterfield Band. Além do restante dos músicos, Tom Wilson convidou o amigo e guitarrista Al Kooper para acompanhar a sessão.

Kooper chegou antes e prontamente trouxe sua guitarra. Já estava preparado quando viu chegar Dylan acompanhado de Bloomfield – com sua guitarra molhada de chuva nas mãos. Ao ver o guitarrista apenas se aquecendo, Al percebeu que não teria chances na guitarra e preferiu guardar suas coisas e se dirigir à sala de controle.

(Em um texto detalhista e investigativo, Derek Barker escreveu na sua Isis #120 sobre esses dois dias de sessão. Segundo suas pesquisas, Al Kooper chegou a tocar guitarra no dia 15. O que importa, contudo, é que Kooper estava convicto de que participaria da gravação e conseguiu se instalar no órgão de maneira malandra, mesmo sem nunca ter tido contato com o instrumento. No texto de Barker, Kooper relata que teve sorte ao ver que o órgão estava ligado, já que ele não saberia nem mesmo ligar a parafernália toda).

Com Bloomfield na guitarra, Kooper no órgão, Bobby Gregg na bateria, Joseph Macho Jr. no baixo, Paul Griffin no piano e Bruce Langhorne no pandeiro, Bob Dylan tocou guitarra e cantou uma das mais importantes músicas da história do rock.

As primeiras versões eram com Dylan no piano e uma levada de valsa, mas logo Bob encontraria o som que precisava para conseguir elevar o som da sua poesia.

Just take everything down to Highway 61

A escolha do nome deste disco é tão importante quanto o próprio disco. Se no álbum anterior Bob levou tudo de volta para casa, agora ele cairia novamente na estrada e passaria pela espinha dorsal da sua música.

A Rota 61 liga o norte ao sul dos EUA. No extremo norte, passa por Duluth, onde Bob nasceu, e Hibbing, cidade em que Dylan foi criado. A estrada é conhecida como “The Blues Highway” e também é caminho para os locais de nascimento e casas de Elvis Presley, Muddy Waters, Charley Patton e Son House.

Segundo a lenda, o famoso pacto com o demônio de Robert Johnson ocorreu na encruzilhada da Rota 61 com a 49. Precisa de mais?

Playing the electric violin

Cena de Don’t Look Back em que Bob aprecia a variedade de design das guitarras britânicas

Após gravar “Like a Rolling Stone”, Dylan só retornaria ao estúdio no fim de julho. Dessa vez não teria mais a supervisão de Tom Wilson e receberia Bob Johnston como seu novo produtor. As razões dessa mudança são misteriosas, mas uma das possibilidades seria, além de um desgaste na relação entre Dylan e Tom, uma necessidade de mudança na forma como as gravações seguiam. Bob agora tinha um novo processo de composição e interpretação.

Entre “Like a Rolling Stone” e a gravação do restante das faixas, Dylan se apresentou na edição de 1965 do Newport Folk Festival. Após uma participação tímida em 1963, ele voltou no ano seguinte como a grande atração e “porta-voz da geração”. Em 1965, Dylan experimentaria algo completamente diferente.

Um dos grandes objetivos do festival é difundir a cultura popular americana e suas várias facetas. Ao lado de apresentações de danças típicas, negros interpretam seu blues do Delta ou a versão elétrica de Chicago. Há workshops para auxiliar nessa disseminação do folk.

Tudo leva a crer que Bob Dylan não pensava em apresentar as músicas elétricas de Bringing It All Back Home e nem seu recém-lançado single, “Like a Rolling Stone”. Porém, ao perceber que Mike Bloomfield e outros músicos também estavam em Newport, resolveu ensaiar improvisadamente e apresentar esta nova roupagem. Em troca, ganhou as primeiras vaias que receberia nos próximos meses e alimentou ainda mais o mito dylanesco.

I had to rearrange their faces and give them all another name

Highway 61 Revisited consolida algo que era esporádico nas letras de Bob Dylan: a utilização de personalidades, reais ou não, para compor um contexto fantástico e surreal. Cassius Clay (“I Shall Be Free No. 10”) e Abraham Lincoln (“Talkin’ Word War III Blues”) já foram coadjuvantes nas fábulas dylanescas, mas agora Bob usa e abusa deste recurso.

Entre as canções com menções, “Highway 61 Revisited” e “Tombstone Blues” possuem uma boa quantidade delas. Mas nenhuma supera “Desolation Row”: Romeu se apaixona pela Cinderela; Corcunda de Notre-Dame, Caim e Abel são os únicos que não aguardam a chuva nem fazem amor; Einstein está disfarçado de Robin Hood. Esses são apenas alguns exemplos contidos na faixa que encerra o álbum.

Trilhando ‘Highway 61 Revisited’

Like a Rolling Stone: Como bem definiu Dylan, não se trata de ódio, e sim de vingança. Cuspida em mais de 6 minutos, “Like a Rolling Stone” conseguiu ser single e promoveu Dylan ao patamar de sucesso no pop, mesmo com críticas dos conservadores do folk. A batida inicial dá o sinal de que há um marco. Bruce Springsteen lembra que, quando a ouviu pela primeira vez, a batida soou como se uma porta fosse arrombada com um pontapé.

Tombstone Blues: O galope de “Tombstone Blues” remete a um resquício do estilo cru de Bringing It All Back Home, como a simplicidade de “Maggie’s Farm” e “Subterranean Homesick Blues”. A letra, influenciada por uma conversa entre policiais sobre a morte, tece comparações precisas, como “The geometry of innocent flesh on the bone/ Causes Galileo’s math book to get thrown”. No final, Dylan dá a dica, mesmo que obscura: “Now I wish I could write you a melody so plain/ That could hold you dear lady from going insane/ That could ease you and cool you and cease the pain/ Of your useless and pointless knowledge”.

It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry: Inicialmente com o nome de “Phantom Engineer”, esta canção com um títullo bem-humorado é um shuffle dos anos 40 com uma bateria arrastada. A letra possui algumas referências de blues e country, como o termo “my gal” e a frase sobre a lua brilhando por entre as àrvores, vinda diretamente de “Poor Me”, de Charley Patton.

From a Buick 6: Para Hinton, um carro clássico americano ganhou uma canção à altura. A música vem de “Milk Cow Blues”, de Sleepy John Estes e regravada por Elvis na fase Sun Records. Irwin concorda com Hinton ao ver uma temática de amor. Bob faz a descrição de sua mulher, possivelmente Sara Dylan: “she don’t make me nervous, she don’t talk too much”.

Ballad of a Thin Man: Para mim, é um recado direto para os jornalistas incapazes de entender as drásticas mudanças e evoluções do rock. Bob descreve um “freak show” para mostrar como Mr. Jones não consegue saber o que tudo aquilo significa, mesmo sendo letrado. Mas a crítica também pode ser apontada para qualquer não entendendor da obra dylanesca. A estrutura da música é uma arte única, com uma batida densa e uma melodia dura.

Queen Jane Approximately: Seria Queen Jane aproximadamente a então rainha do folk, Joan Baez? Shelton vê como um ataque pungente à “vida familiar tradicional, conscienciosa, marcada por regras de etiqueta ritualísticas, aflitivas, sem sentido”.

Highway 61 Revisited: A Rolling Stone definiu assim: Bob Dylan “guia uma série de personagens malfadados (sendo Deus e Abraão os mais conhecidos) pela ‘estrada do blues’ dos Estados Unidos, enquanto desfila seu veneno contra uma série de hipocrisias americanas como o falso patriotismo e o comercialismo grosseiro”.

Just Like Tom Thumb’s Blues: Diversas referências ilustram essa viagem ambígua e desastrada. O título pode ser do personagem de “Ma Bohème”, de Rimbaud, mas talvez esconda um jogo com Tom Wilson, ex-produtor de Dylan. O trajeto começa em Juarez (que fica próxima à Rota 61), passa até pela Rua Morgue de Edgar Allan Poe e segue até o momento em que o narrador percebe que é hora de voltar para New York. Para Polizzotti, ela pinta um quadro de blefes e perdas, de estar esgotado e do medo de você nunca mais poder voltar pra casa.

Desolation Row: Única música da última sessão de estúdio, ocorrida no dia 4 de agosto. Após algumas tentativas com outros músicos, Bob achou melhor se manter acústico e recrutou apenas os músicos Charlie McCoy no violão e Russ Suvakus no baixo. A canção pode ter influência de Desolation Angels, de Kerouac, mas suas referências são inéditas na música. Dylan disse a Jann Wenner que a compôs no banco de trás de um táxi em New York. Shelton faz uma das melhores sínteses:

“O cenário é uma paisagem de sonho e a descrição de Dylan combina de forma poderosa o grotesco, o existencial e o sonho. “Desolation Row” é um Mardi Gras grotesco em que heróis e vilões do nosso mito-história perfilam-se lado a lado. (…) O escritor que questionou a sociedade por dois anos agora encontra as respostas, mas não gosta do que vê. Tudo é absurdo, está virado de cabeça para baixo; tudo está perdido; tudo é ridículo; a única verdade repousa ao longo da Desolation Row.”

Concluindo: por que é o melhor disco de Dylan para história do rock?

“Se você precisasse resumir Highway 61 Revisited em uma única frase, bastaria dizer que é o álbum que inventou a atitude e a elevou a uma forma de arte. Basta olhar a capa. Ninguém, de Johnny Rotten a Eminem, fez algo melhor do que aquilo até hoje” – Nigel Williamson.

Highway 61 Revisited e seu maior sucesso influenciaram a criação de uma revista especializada. O rock não era mais apenas uma música pop que circulava nas paradas de sucesso. Agora, o rock é poesia, é expressão artística e é reflexão da condição do homem moderno. Aceitem ou não, muito disso se deve a Bob Dylan.

Under the “Ray” sky

Além de Zé Ramalho, considerado por alguns o Bob Dylan do sertão, hoje seria o aniversário de 57 anos de Stevie Ray Vaughan. O guitarrista morreu no dia 26 de agosto de 1990 em um acidente de helicóptero, após tocar em um show ao lado de Eric Clapton e Robert Cray para cerca de 25 mil pessoas.

E foi no seu último ano em vida que seria lançado o álbum Under The Red Sky, de Bob Dylan. Stevie Ray Vaughan e seu irmão Jimmie tocaram guitarra nas canções: 10,000 Men, God Knows e Cat’s in the Well. Jimmie participaria também na música Handy Dandy.

O álbum foi produzido por Don Was e Jack Frost (um dos heterônimos de Bob Dylan). Don Was já havia produzido Carly Simon, o B52’s e Bonnie Raitt. O timbre do disco é mais limpo, jovial, como se Dylan quisesse se aproximar dos jovens. Além dos irmãos Vaughan, outros músicos famosos foram recrutados. Veja o nome de alguns e as músicas que participaram:

  • Al Kooper (autor do órgão de Like a Rolling Stone) – órgão em Under The Red Sky, Unbelievable, Handy Dandy;
  • David Crosby (The Byrds e Crosby, Still, Nash & Young) – Backing vocals em Born In Time, 2 x 2;
  • Elton John – Piano em 2 x 2;
  • George Harrison – Slide guitar em Under The Red Sky;
  • Paulinho da Costa (percussionista brasileiro) – Born in Time, 2 x 2, God Knows, Handy Dandy;
  • Randy Jackson (Gravou o clipe de Most of the Time e depois participaria do American Idol ) baixo em Wiggle Wiggle, Born in Time, T. V. Talkin’ Song, 2 x 2;
  • Robben Ford – guitarra em Born In Time, T. V. Talkin’ Song;
  • Slash (Guns’n’Roses) – Wiggle Wiggle

Curiosidade (ou fofoca): No encarte, há um agradecimento à Carole Childs, possivelmente sua namorada/amante e o álbum é dedicado à “Gabby Goo Goo”, também conhecida como Desiree Gabrielle Dennis-Dylan, filha de Dylan com sua então esposa Carolyn Dennis (Carolyn e Bob foram secretamente casados entre 1986 e 1992).