O melhor disco de Dylan (pt.3): Para a minha história

Esta é a última parte da trilogia “O melhor disco de Dylan” (Parte 1, Parte 2). Neste texto, falarei sobre o disco que mais tem influência sobre mim.

Tão ousando quanto eleger o disco mais importante para a história da música (ou para o próprio Dylan) é dizer qual é o seu álbum predileto. Neste caso, o contexto da gravação e até mesmo as músicas nem sempre são decisivas para a escolha.

E sobre minha decisão, nem eu sei quais são exatamente as razões que me fazem gostar tanto de John Wesley Harding. A única coisa que eu sei é que, sempre que deparo com qualquer música do álbum, eu preciso prestar atenção e tenho vontade de ouvir o disco inteiro. Isso acontece com outros (como nos acústicos Good As I Been To You e World Gone Wrong, por exemplo), mas há algo que me conecta a John Wesley Harding.

The Drifter’s Escape

Bob Dylan acabara de voltar de uma turnê pela Europa quando conseguiu alguns dias de férias no meio de 1966. Nesta época, uma nova turnê americana já estava agendada, uma emissora de televisão havia dado US$100 mil como adiantamento para um especial e a editora Macmillan cobrava o cantor pelo seu livro Tarantula, que já recebera até divulgação na mídia. Bob Dylan sofria pressões de todos os lados. A Hard Rain’s A-Gonna Fall.

Era 29 de julho de 1966 quando Bob Dylan dava uma volta com sua moto Triumph Tiger 100 de 500 cilindradas pela região de Woodstock. Sara Dylan o acompanhava de carro quando viu Bob perder o controle da moto e cair. Boatos indicavam que a vida de Dylan estava em risco.

A real gravidade do acidente permanece um mistério. A versão “oficial” é que Bob quebrou o pescoço e quase morreu. Porém, há quem diga que Dylan usou o acidente para fugir de todas as exigências que o pressiovam. Bob Dylan ficou uma semana no hospital e diz ter passado um mês de repouso em sua casa.

Com sua turnê cancelada, Dylan permaneceu em sua casa, em Woodstock, para descansar. Este hiato serviu principalmente para que Bob pudesse desempenhar seu papel de pai e marido, além de montar projetos. Um deles foi a exaustiva edição do documentário Eat The Document, sobre a recente turnê elétrica.

Bem mais despretensioso, Bob passou de junho a outubro de 1967 tocando quase diariamente com seu então grupo, recém-intitulado The Band. Dylan ia até a mansão em que a banda estava hospedada, a famosa Big Pink, e tocavam improvisos e canções tradicionais. Estes encontros foram registrados e se transformariam no disco “The Basement Tapes”, lançado em 1975.

If you cannot bring good news, then don’t bring any

Enquanto o mundo se admirava com a psicodelia, Bob Dylan permanecia recluso. Apesar desta época receber grandes lançamentos inovadores, como “Sgt. Peppers” dos Beatles, “Pet Sounds” dos Beach Boys e ver nascer o grupo Velvet Underground, Dylan parece ter sido mais influenciado pela péssima notícia que recebera.

No dia 3 de outubro, Woody Guthrie não resistiu às complicações de saúde por conta de sua doença de Huntington. Um dos maiores ídolos de Dylan, e razão de sua ida à New York, Guthrie deixava o mundo e isso provavelmente afetou drasticamente seu aprendiz.

He was never known to make a foolish move

“Eu não sabia como gravar do jeito que outras pessoas estavam gravando e eu não queria saber. Os Beatles tinham acabado de lançar Sgt. Pepper, que eu não gostei de maneira alguma… Eu pensei que era um álbum bem indulgente, apesar das canções serem realmente boas. Eu não achava que toda aquela produção era necessária” Bob Dylan

Duas semanas depois da morte de Woody, no dia 17 de outubro, Bob Dylan viajou para Nashville para gravar no Columbia Music Row Studios, mesmo local em que gravara seu disco anterior (Blonde on Blonde).

Dylan manteve o produtor Bob Johnston, mas dessa vez recrutou apenas dois músicos – Kenneth Buttrey (bateria) e Charlie McCoy (baixo) – para participar das três sessões de gravação (17/10, 6/11 e 21/11). Pete Drake (steel guitar) tocou apenas nas duas últimas faixas do álbum.

O início de John Wesley Harding já mostra o caminho que Dylan trilharia. Enquanto muitos experimentavam ruídos, ecos e artimanhas tecnológicas no estúdio, Bob iniciava seu disco apenas com violão. Em seguida, baixo, voz e bateria dão o tom. O retrato do jovem de “Blonde on Blonde” não é mais o mesmo.

Nothing is revealed

“Antes de compor John Wesley Harding, eu percebi algo sobre todas as canções mais antigas que eu escrevi. Eu descobri que quando eu utilizava palavras como ‘ele’, ‘isto’, ‘eles’ e falava sobre outras pessoas, eu estava na verdade falando em ninguém a não ser eu. Fui para John Wesley Harding com este conhecimento na minha mente.” Bob Dylan.

Em John Wesley Harding, Bob Dylan aparenta uma sensatez até então inédita. No lugar do ansioso e curioso artista verborrágico, entra um verdadeiro poeta observador, que faz um apanhado de sua(s) vida(s) através de frases precisas.

Todas as palavras usadas em John Wesley Harding, das letras à nota da contracapa (passando pela inclusão da letra “g” no nome do lendário fora-da-lei), possuem um propósito. Mas nada é revelado. Tudo está codificado.

Bob utiliza com consciência toda a linguagem que desenvolveu de maneira intuitiva nos cinco anos anteriores. Com parábolas e alegorias, ele faz um balanço sobre sua vida. Ironicamente, a “voz da geração” virou as costas para todos os acontecimentos políticos da época para viver com plenitude o papel de homem de família.

Muitos que visitaram Dylan disseram que ele tinha em um lugar de fácil leitura a Bíblia – acompanhada de um livro com letras do cantor Hank Williams.

I Pity The Poor Immigrant

A capa de John Wesley Harding possui uma foto bucólica (uma polaroide de John Berg) de um Dylan meio barbado e sorridente. Em sua companhia, o carpinteiro Charlie Joy e dois integrantes da trupe Bauls of Bengal (que estavam hospedados na casa de Albert Grossman).

(Há um rumor de que é possível ver membros dos Beatles e do cantor Donovan escondidos na árvore. Eu possuo o vinil originial e nunca encontrei qualquer vestígio do FabFour ou do “Dylan britânico”).

Outro ponto importante é o texto na contracapa. Escrito por Bob Dylan, a nota narra a história de três reis que percebem que “a chave é Frank”. Frank é acompanhado de Terry Shute e Vera.

Para James Dunlap (em um ótimo artigo da revista Isis #120), Frank representa um “novo” Dylan e sua vontade de libertação, deixando para trás e junto com o acidente o artista inconsequente. Terry Shute seria Albert Grossman, com quem Bob estava tendo sérias divergências, e Vera, obviamente, Sara. Os três reis representariam a indústria fonográfica (possivelmente três gravadores que queriam Bob Dylan na época).

Trilhando – John Wesley Harding

John Wesley Harding – Em entrevista para Jann Wenner para a Rolling Stone de 1969, Bob Dylan afirmou que a escolha do fora-da-lei foi por uma mera questão de rítmo. Michael Gray acha que o uso de um fora-da-lei serve para incluir o próprio Dylan nesta categoria. Além disso, há ecos das canções de Woody Guthrie, que costumava escrever sobre ladrões e andarilhos.

As I Went Out One Morning – Coincidência ou não, Tom Paine era o nome do prêmio que Bob Dylan recebeu em 1963. Na ocasião, Dylan fez um discurso polêmico, incluindo-se como uma pessoa que via em si parte de Lee Oswald – assassino de John Kennedy. Dunlap interpreta a donzela da música como sendo Joan Baez “forçando” Dylan a entrar nos movimentos políticos. No fim, o próprio Tom Paine pede desculpas.

I Dreamed I Saw St. Augustine – O autor de “Confissões” é o foco da letra, mas para entendê-la melhor é preciso ver as referências da primeira frase. Ela remete à música “Joe Hill”, de 1936, e que Woody tomou como base para compor seu “Tom Joad”. É interessante ouvir a gaita tendo um papel quase de protagonista na instrumentação.

All Along the Watchtower – Na época do lançamento do disco, Bob exigiu que não se fizesse muita publicidade para evitar atrair a atenção. Porém, a versão desta canção por Jimi Hendrix no final de 68 daria uma bela visibilidade para o álbum. A música é cheia de referências bíblicas e Paul Williams acertou em cheio ao afirmar que ela começa no meio da narrativa. Assim, tudo se inicia na última estrofe.

The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest – Uma das minhas favoritas. A canção, que a banda Judas Priest tomou como base para se batizar, lembra as fábulas de Esopo. Dunlap a vê como a alegoria da relação entre Dylan e seu empresário, Grossman. Após dar o dinheiro que Frankie Lee precisava, Judas Priest o convence a ir a um bordel, onde morre de cansaço. Vale lembrar que Al Grossman era famoso por fazer ótimas festas em sua casa em Bearsville (próximo a Woodstock) e providenciar as melhores drogas e mulheres.

Drifter’s Escape – Foi a primeira canção a ser gravada. Ela conta a história a fuga de um vagabundo durante um julgamento. O juiz soa como um ser divino, mas trata com descaso a súplica do réu. O nome certamente é uma referência ao heterônimo “Luke the Drifter”, criado por Hank Williams para entoar canções mais sombrias.

Dear Landlord – Para mim, “Dear Landlord” é o desabafo de Dylan e sua relação com seu Senhor Feudal (aka Al Grossman). Ele pede que não dê preço em sua alma. No fim, quase em tom de ameaça, sugere que não seja subestimado para não subestimar seu interlocutor.

I Am a Lonesome Hobo – Seria a frase “Where another man’s life might begin/ That’s exactly where mine ends” a oficialização do “velho” Dylan da fase pré-acidente? Para mim, a canção exala independência e é a autonomia de Dylan como artista, seja para seu empresário, sua gravadora e até mesmo para as exigências de seus fãs (que o vaiaram quando escolhera a guitarra como companheira).

I Pity the Poor Immigrant – Com melodia baseada em “Tramps and Hawkers”, essa melancólica canção pode ser interpretada como um conselho de Dylan para consigo mesmo. Hinton indica que aqui há referências bíblicas presentes em capítulo 26 de Levítico.

The Wicked Messenger – Canção com arranjo mais elaborado do disco. Talvez o “Wicked Messenger” (algo como mensageiro perverso) seja o “velho” Dylan e seu uso da linguagem poética. É uma letra meio confusa e há quem veja referências bíblicas.

Down Along the Cove – As duas últimas faixas de John Wesley Harding destoam do restante do álbum. “Down Along the Cove” é suingada e romanticamente feliz. Talvez faça sentido ao ouvir a frase da canção anterior: “If ye cannot bring good news, then don’t bring any”.

I’ll Be Your Baby Tonight – Fiel à base country, a canção é uma prévia do caminho que Dylan escolheria para Nashville Skyline. Uma música boba, romântica, mas bela. O pedal steel dá um ótimo toque com suas melodias.

Concluindo: por que é o melhor disco de Dylan para minha história?

As imagens criadas por Bob Dylan, tão ricas quanto sutis, prendem a minha atenção. É impossível não curtir frases como “I offered her my hand/ She took me by the arm”, “There are many here among us who feel that life is but a joke”, “It’s not a house . . . it’s a home”, “Dear landlord/ Please don’t put a price on my soul/ My burden is heavy/ My dreams are beyond control” e tantas outras mais.

Além do conteúdo, a forma é uma arte por si só. Em um contexto todo psicodélico da música, Bob Dylan prefere ser proporcional ao seu mundo e escolhe algo minimalista, direto e acústico. Ele vive uma fase intimista e completamente familiar, que influencia sua música. Para mim, é uma das melhores fases de Bob Dylan, com a melhor relação “homem/poeta”.

O melhor disco de Dylan (pt. 1): para a história do rock

Nesta minissérie, falarei a respeito do “melhor disco de Dylan” sob três óticas: para a história do rock, para a história de Dylan e para a minha história. O rótulo de “melhor disco” é relativo e pode mudar ao longo dos anos. Os últimos álbuns de inéditas, por exemplo, mostraram-se tão bons como todos os que citarei nesta minissérie. Porém, quis montar um breve panorama dylanesco a partir desses três exemplos.

A primeira parte é sobre o disco com mais relevância para o rock.

Once upon a time…

A história de Highway 61 Revisited começa em maio de 1965. Menos de dois meses depois de lançar Bringing It All Back Home – que já ilustrava a tendência de Dylan em retomar suas raízes roqueiras, com o lado A tendo Bob acompanhado de uma banda -, o cantor fez uma série de shows na Inglaterra. A turnê foi filmada por D. A. Pennebaker e se tornaria o documentário Dont Look Back. Seria a última turnê solo e acústica de Dylan.

Em Don’t Look Back, há uma cena de Dylan tocando Hank Williams com amigos no quarto do Hotel Savoy, em Londres. Uma das músicas é “Lost Highway” e um amigo lembra a seguinte estrofe – que Bob prontamente tenta resgatar da memória:

“I’m a rolling stone, all alone and lost,
For a life of sin, I have paid the cost.”

Na volta aos EUA, Dylan pensara em abandonar a música. Ele comentou com um amigo que achava suas apresentações monótonas e, ao se questionar se ele mesmo iria num concerto de Bob Dylan, ele teve que se responder com sinceridade: “não”.

A salvação veio logo depois da turnê britânica (e possivelmente durante o vôo de volta). Bob escreveu “um vômito, que parecia ter 20 páginas” e que não se parecia com nada, apenas algo rítmico no papel. Ele não pensara neste texto como uma música até o momento em que, sentado ao piano, viu escrito, como que em câmera lenta, a frase “How does it feel?”.

Nothing to lose

Bob recrutou no dia 15 de junho de 1965 seu produtor desde parte de Frewheellin’ Tom Wilson, para gravar uma música no estúdio A da Columbia. Para a sessão, Dylan sugeriu Mike Bloomfield, guitarrista da Butterfield Band. Além do restante dos músicos, Tom Wilson convidou o amigo e guitarrista Al Kooper para acompanhar a sessão.

Kooper chegou antes e prontamente trouxe sua guitarra. Já estava preparado quando viu chegar Dylan acompanhado de Bloomfield – com sua guitarra molhada de chuva nas mãos. Ao ver o guitarrista apenas se aquecendo, Al percebeu que não teria chances na guitarra e preferiu guardar suas coisas e se dirigir à sala de controle.

(Em um texto detalhista e investigativo, Derek Barker escreveu na sua Isis #120 sobre esses dois dias de sessão. Segundo suas pesquisas, Al Kooper chegou a tocar guitarra no dia 15. O que importa, contudo, é que Kooper estava convicto de que participaria da gravação e conseguiu se instalar no órgão de maneira malandra, mesmo sem nunca ter tido contato com o instrumento. No texto de Barker, Kooper relata que teve sorte ao ver que o órgão estava ligado, já que ele não saberia nem mesmo ligar a parafernália toda).

Com Bloomfield na guitarra, Kooper no órgão, Bobby Gregg na bateria, Joseph Macho Jr. no baixo, Paul Griffin no piano e Bruce Langhorne no pandeiro, Bob Dylan tocou guitarra e cantou uma das mais importantes músicas da história do rock.

As primeiras versões eram com Dylan no piano e uma levada de valsa, mas logo Bob encontraria o som que precisava para conseguir elevar o som da sua poesia.

Just take everything down to Highway 61

A escolha do nome deste disco é tão importante quanto o próprio disco. Se no álbum anterior Bob levou tudo de volta para casa, agora ele cairia novamente na estrada e passaria pela espinha dorsal da sua música.

A Rota 61 liga o norte ao sul dos EUA. No extremo norte, passa por Duluth, onde Bob nasceu, e Hibbing, cidade em que Dylan foi criado. A estrada é conhecida como “The Blues Highway” e também é caminho para os locais de nascimento e casas de Elvis Presley, Muddy Waters, Charley Patton e Son House.

Segundo a lenda, o famoso pacto com o demônio de Robert Johnson ocorreu na encruzilhada da Rota 61 com a 49. Precisa de mais?

Playing the electric violin

Cena de Don’t Look Back em que Bob aprecia a variedade de design das guitarras britânicas

Após gravar “Like a Rolling Stone”, Dylan só retornaria ao estúdio no fim de julho. Dessa vez não teria mais a supervisão de Tom Wilson e receberia Bob Johnston como seu novo produtor. As razões dessa mudança são misteriosas, mas uma das possibilidades seria, além de um desgaste na relação entre Dylan e Tom, uma necessidade de mudança na forma como as gravações seguiam. Bob agora tinha um novo processo de composição e interpretação.

Entre “Like a Rolling Stone” e a gravação do restante das faixas, Dylan se apresentou na edição de 1965 do Newport Folk Festival. Após uma participação tímida em 1963, ele voltou no ano seguinte como a grande atração e “porta-voz da geração”. Em 1965, Dylan experimentaria algo completamente diferente.

Um dos grandes objetivos do festival é difundir a cultura popular americana e suas várias facetas. Ao lado de apresentações de danças típicas, negros interpretam seu blues do Delta ou a versão elétrica de Chicago. Há workshops para auxiliar nessa disseminação do folk.

Tudo leva a crer que Bob Dylan não pensava em apresentar as músicas elétricas de Bringing It All Back Home e nem seu recém-lançado single, “Like a Rolling Stone”. Porém, ao perceber que Mike Bloomfield e outros músicos também estavam em Newport, resolveu ensaiar improvisadamente e apresentar esta nova roupagem. Em troca, ganhou as primeiras vaias que receberia nos próximos meses e alimentou ainda mais o mito dylanesco.

I had to rearrange their faces and give them all another name

Highway 61 Revisited consolida algo que era esporádico nas letras de Bob Dylan: a utilização de personalidades, reais ou não, para compor um contexto fantástico e surreal. Cassius Clay (“I Shall Be Free No. 10”) e Abraham Lincoln (“Talkin’ Word War III Blues”) já foram coadjuvantes nas fábulas dylanescas, mas agora Bob usa e abusa deste recurso.

Entre as canções com menções, “Highway 61 Revisited” e “Tombstone Blues” possuem uma boa quantidade delas. Mas nenhuma supera “Desolation Row”: Romeu se apaixona pela Cinderela; Corcunda de Notre-Dame, Caim e Abel são os únicos que não aguardam a chuva nem fazem amor; Einstein está disfarçado de Robin Hood. Esses são apenas alguns exemplos contidos na faixa que encerra o álbum.

Trilhando ‘Highway 61 Revisited’

Like a Rolling Stone: Como bem definiu Dylan, não se trata de ódio, e sim de vingança. Cuspida em mais de 6 minutos, “Like a Rolling Stone” conseguiu ser single e promoveu Dylan ao patamar de sucesso no pop, mesmo com críticas dos conservadores do folk. A batida inicial dá o sinal de que há um marco. Bruce Springsteen lembra que, quando a ouviu pela primeira vez, a batida soou como se uma porta fosse arrombada com um pontapé.

Tombstone Blues: O galope de “Tombstone Blues” remete a um resquício do estilo cru de Bringing It All Back Home, como a simplicidade de “Maggie’s Farm” e “Subterranean Homesick Blues”. A letra, influenciada por uma conversa entre policiais sobre a morte, tece comparações precisas, como “The geometry of innocent flesh on the bone/ Causes Galileo’s math book to get thrown”. No final, Dylan dá a dica, mesmo que obscura: “Now I wish I could write you a melody so plain/ That could hold you dear lady from going insane/ That could ease you and cool you and cease the pain/ Of your useless and pointless knowledge”.

It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry: Inicialmente com o nome de “Phantom Engineer”, esta canção com um títullo bem-humorado é um shuffle dos anos 40 com uma bateria arrastada. A letra possui algumas referências de blues e country, como o termo “my gal” e a frase sobre a lua brilhando por entre as àrvores, vinda diretamente de “Poor Me”, de Charley Patton.

From a Buick 6: Para Hinton, um carro clássico americano ganhou uma canção à altura. A música vem de “Milk Cow Blues”, de Sleepy John Estes e regravada por Elvis na fase Sun Records. Irwin concorda com Hinton ao ver uma temática de amor. Bob faz a descrição de sua mulher, possivelmente Sara Dylan: “she don’t make me nervous, she don’t talk too much”.

Ballad of a Thin Man: Para mim, é um recado direto para os jornalistas incapazes de entender as drásticas mudanças e evoluções do rock. Bob descreve um “freak show” para mostrar como Mr. Jones não consegue saber o que tudo aquilo significa, mesmo sendo letrado. Mas a crítica também pode ser apontada para qualquer não entendendor da obra dylanesca. A estrutura da música é uma arte única, com uma batida densa e uma melodia dura.

Queen Jane Approximately: Seria Queen Jane aproximadamente a então rainha do folk, Joan Baez? Shelton vê como um ataque pungente à “vida familiar tradicional, conscienciosa, marcada por regras de etiqueta ritualísticas, aflitivas, sem sentido”.

Highway 61 Revisited: A Rolling Stone definiu assim: Bob Dylan “guia uma série de personagens malfadados (sendo Deus e Abraão os mais conhecidos) pela ‘estrada do blues’ dos Estados Unidos, enquanto desfila seu veneno contra uma série de hipocrisias americanas como o falso patriotismo e o comercialismo grosseiro”.

Just Like Tom Thumb’s Blues: Diversas referências ilustram essa viagem ambígua e desastrada. O título pode ser do personagem de “Ma Bohème”, de Rimbaud, mas talvez esconda um jogo com Tom Wilson, ex-produtor de Dylan. O trajeto começa em Juarez (que fica próxima à Rota 61), passa até pela Rua Morgue de Edgar Allan Poe e segue até o momento em que o narrador percebe que é hora de voltar para New York. Para Polizzotti, ela pinta um quadro de blefes e perdas, de estar esgotado e do medo de você nunca mais poder voltar pra casa.

Desolation Row: Única música da última sessão de estúdio, ocorrida no dia 4 de agosto. Após algumas tentativas com outros músicos, Bob achou melhor se manter acústico e recrutou apenas os músicos Charlie McCoy no violão e Russ Suvakus no baixo. A canção pode ter influência de Desolation Angels, de Kerouac, mas suas referências são inéditas na música. Dylan disse a Jann Wenner que a compôs no banco de trás de um táxi em New York. Shelton faz uma das melhores sínteses:

“O cenário é uma paisagem de sonho e a descrição de Dylan combina de forma poderosa o grotesco, o existencial e o sonho. “Desolation Row” é um Mardi Gras grotesco em que heróis e vilões do nosso mito-história perfilam-se lado a lado. (…) O escritor que questionou a sociedade por dois anos agora encontra as respostas, mas não gosta do que vê. Tudo é absurdo, está virado de cabeça para baixo; tudo está perdido; tudo é ridículo; a única verdade repousa ao longo da Desolation Row.”

Concluindo: por que é o melhor disco de Dylan para história do rock?

“Se você precisasse resumir Highway 61 Revisited em uma única frase, bastaria dizer que é o álbum que inventou a atitude e a elevou a uma forma de arte. Basta olhar a capa. Ninguém, de Johnny Rotten a Eminem, fez algo melhor do que aquilo até hoje” – Nigel Williamson.

Highway 61 Revisited e seu maior sucesso influenciaram a criação de uma revista especializada. O rock não era mais apenas uma música pop que circulava nas paradas de sucesso. Agora, o rock é poesia, é expressão artística e é reflexão da condição do homem moderno. Aceitem ou não, muito disso se deve a Bob Dylan.

Janet Planet e seu Dylan jazzístico

Minha preferência sempre foi para versões dos compositores ao invés de releituras de intérpretes. No caso de Dylan, obviamente essa preferência aumenta e é bem ilustrada pela máxima criada pela Columbia durante os anos 60: “Nobody sings Dylan like Dylan”.

Porém, devo reconhecer que algumas versões de terceiros são muito boas, mesmo se distanciando de uma interpretação mais próxima do conteúdo lírico.

Este é o caso da cantora de jazz Janet Planet. Em 2010, ela lançou o “Janet Planet Sings Bob Dylan Songbook Vol.1” e deu uma nova roupagem para a música de Dylan.

As interpretações de Planet são ousadas e originais. É interessante ouvir canções como Like a Rolling Stone e Don’t Think Twice, It’s Alright com arranjos jazzísticos.

Um ponto bem interessante foi a escolha do repertório deste primeiro volume. Além das famosas, Janet Planet escolheu músicas como Song To Woody e I’ll Keep It With Mine.

A cantora disponibilizou trechos das faixas para audição. Surpreenda-se.

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