O Mundo de John Hammond

No dia 10 de setembro de 1975, Bob Dylan prestou uma homenagem, a sua maneira, ao responsável pela sua entrada na gravadora Columbia: John Hammond. Logo após o anúncio da aposentadoria do produtor, a PBS trouxe Hammond e alguns de suas descobertas até Chicago para gravar uma edição especial do programa Soundstage.

Conheça mais a história de John Hammond e sua relação com Bob Dylan.

De filho de empresário a descobridor de talentos

Bob Dylan & John Hammond

Em sua enciclopédia, Michael Gray conta brevemente a história de John Henry Hammond: nascido em New York, no dia 15 de dezembro de 1910, e herdeiro da rica família Vanderbilt, John Hammond estudou música na Juilliard, mas desistiu do estilo erudito para investir no jazz que ouviu nos clubes que conheceu quando adolescente. Ativista dos direitos civis, Hammond usou parte de sua herança em um teatro e excursões que escalavam tanto músicos brancos como negros. Pete Seeger chegou a afirmar: “Jazz se tornou racialmente integrado 10 anos antes que o baseball muito influenciado por John Hammond”.

Como produtor da Columbia, ele tem como suas “crias” Bessie Smith e Bob Dylan, além de dar boas oportunidades de gravações a Count Basie, Billie Holiday e Lester Young. No final da década de 1930, promoveu duas edições do festival “From Spirituals to Swing” no Carnegie Hall. Entre as atrações, atuais lendas como Benny Goodman, Big Bill Broonzy e Sonny Terry. Hammond queria chamar Robert Johnson, mas infelizmente o música havia morrido apenas meses antes (vale lembrar que foi John que relançou no início dos anos 1960 as gravações do lendário guitarrista – que se tornariam importantíssimas para muitos, inclusive Dylan).

Bob Dylan & John Hammond

Bob Dylan & John Hammond

Influenciado pela resenha de Robert Shelton, John Hammond assinou com Bob Dylan no final de 1961. Seu primeiro disco, de 19 de março de 1962, não teve uma boa venda e nos corredores da Columbia Dylan foi apelidado de “Hammond’s Folly” (“A mancada de Hammond).

No disco seguinte, contudo, Bob Dylan entregaria pérolas como “Blowin’ In The Wind”, “Girl of the North Country”, “Masters of War”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” e “Don’t Think Twice, It’s Alright”. Provavelmente os piadistas da gravadora tiveram que se calar.

Como disse Gray, apenas Dave Van Ronk recebeu tanto espaço na autobiografia de Dylan quanto John Hammond. Em Crônicas V.1, Bob Dylan inicia e termina com a mesma passagem: sua visita a editora Leeds, por indicação de John Hammond, para gravar suas primeiras canções (o contrato com a Leed seria cancelado pelo empresário de Dylan, Al Grossman, para que fosse feito uma parceria com a Whitmark).

No início do relato, Bob comenta as primeiras conversas com John Hammond. “Compreendo a sinceridade” disse o produtor ao garoto Dylan.

Em outro momento diz:

“Vou dar a real para você. Você é um jovem talentoso. Se conseguir focar e controlar esse talento, vai se dar bem. Vou trazê-lo para cá e gravá-lo. Vamos ver o que acontece.”

Ao final do livro, Bob Dylan retoma o encontro e ao descrever o momento em que assinou o contrato com a Columbia, ele cita alguns discos que ainda não tinham sido lançados que estavam na mesa de Hammond. Entre eles, Kings of the Delta Blues, de Robert Johnson. Já na capa Dylan ficou intrigado.

Com certo orgulho juvenil, Bob escreve como quem “furou” toda uma geração, sendo um dos primeiros a ouvir o futuro lançamento da Columbia. Correu até o apartamento de Dave Van Ronk para mostrar sua descoberta, mas foi recebido com um certo desdém de Dave, que percebeu as influências nas músicas de Johnson. Bob então faz um paralelo com Woody Guthrie, que também pegou melodias emprestadas (processo que o próprio Dylan adotaria).

Hurricane, Oh Sister & Simple Twist of Fate

No programa da PBS em homenagem a John Hammond, intitulado “The World of John Hammond”, Bob Dylan surpreendeu a todos não só pela sua aparição, como pela sonoridade da banda e as músicas escolhidas. Das três canções interpretadas, duas eram completamente inéditas (“Oh Sister” e “Hurricane”, que estariam em Desire, de 1976) e a terceira, “Simple Twist of Fate” do recém-lançado Blood On The Track, teve algumas partes reescritas.

Sobre a ocasião, a violinista Scarlet Rivera conta que ela e os outros músicos (o baixista Rob Stoner e o baterista Howie Wyeth) foram informados com menos de 24 horas sobre a intenção de Bob em viajar até Chicago para participar do programa. Para ensaiar, o grupo usou o próprio camarim, momentos antes de se apresentarem.

Antes de Bob Dylan tocar, o apresentador Goddard Lieberson (presidente da Columbia entre 1956 e 1975) fez uma breve introdução sobre a importância de Bob, com um adendo especial de John Hammond:

Lieberson: “John teve um papel importante em antecipar um artista que realmente mudou uma geração. Músicas e letras que são normalmente sobre amor e lua-de-mel realmente mudaram com Bob Dylan. De repente havia canções sobre reflexões e sobre fazer outros tipos de coisas muito mais introspectivas e de maneira mais séria e com mais temas.
Eu preciso dizer que a coisa importante hoje é que John reconheceu isso. Na verdade, poucas pessoas reconheceram. Eu me lembro bem no começo, quando Bob Dylan cantava no Village, que nem todo mundo sacou a ideia. Mas John sacou.

Eu também gostaria de dizer, brevemente, que todos se esforçaram para vir até Chicago hoje a noite para prestar esta homenagem a John Hammond, mas Bobby fez um esforço especial estando aqui. Foi algo especial de se fazer. Eu estou contente disso.

Hammond: “Eu estou lisonjeado. Para mim Bob signfica… progresso, significa tanta coisa. E mudou a imagem da gravadora, eu devo salientar”

Mudou não só a imagem da gravadora, como a imagem que todos nós tínhamos, e temos, do mundo em que vivemos.

4 thoughts on “O Mundo de John Hammond

  1. Ainda acho injusto achar o primeiro disco de Dylan um fracasso, por causa das vendagens na época. É um excelente disco de folk music, talvez o mais original…

    1. Concordo com você, Marcus.

      O fato é que o próprio Dylan já tinha superado essa fase “cover” quando o disco foi lançado.

      Mas com certeza é uma peça importante!

      Abração

  2. John Hammond, esse sim um homem com agá maiúsculo, honesto, de caráter, conseguia prever, e talvez Bob Dylan não tivesse vindo à tona se não fosse por ele. E John Hammond instruiu Bob Dylan a respeito do caráter de Albert Grossmann, desonesto, interesseiro, etc., e Hammond dizia abertamente que não gostava de Grosmann. Frutificou, porque Dylan não prejudicou Hammond quando Grosmann pediu, acerca do primeiro contrato, em relação à idade de Bob. Uma vez perguntaram a Bob Dylan se ele acredita em vampiros, e ele respondeu: Mas é claro, principalmente no mundo da música.
    Isso não servia para John Hammond, que podia, no dizer do próprio Bob Dylan, fazer os sonhos de qualquer um virar realidade.
    É de homens como John Hammond que o mundo da música precisa, mas eles não existem mais, não se fazem mais homens como ele.

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