I Ain’t Dead Yet – o centenário de Woody Guthrie

Há cem anos, no dia 14 de julho de 1912, Woodrow Wilson Guthrie nascia. Os documentos mostram que sua cidade natal era Okemah, Oklahoma, mas tanto a vida como seu país o promoveram a patrimônio cultural dos Estados Unidos.

Entre 1936 e 1954, Woody compôs mais de 1000 músicas. Curiosamente, no manuscrito original de sua canção mais famosa – que muitos a consideram um “hino alternativo” dos EUA -, “This Land Is Your Land”, há uma nota de rodapé que indica: “*Tudo que você pode escrever é aquilo que você vê”. E foi exatamente o que Guthrie fez: andou por todos os lados de seu país e, assim, conseguiu criar um panorâma definitivo, tendo como pano de fundo sua pátria e o ponto-de-vista dos oprimidos e sem posses.

O primeiro contato de Bob Dylan com Woody Guthrie foi em Dinkytown, bairro boêmio de Minneapolis. Ele já conhecia alguns discos de Woody com seus amigos Cisco Houston e Sonny Terry, mas nunca ouvira Guthrie cantar sozinho. Em “Crônicas – Volume I”, Dylan descreve o momento em que foi apresentado aos discos solos de Woody:

“Todas essas canções juntas, uma depois da outra, fizeram minha cabeça rodar. Fiquei boquiaberto. Foi como se a terra se abrisse. Eu tinha ouvido Guthrie antes, mas basicamente apenas uma canção aqui e ali – na maioria, coisas que ele cantava junto com outros artistas. Não o ouvira de verdade, não desse modo arrasa quarteirão. Não pude acreditar. Guthrie tinha um grande controle sobre tudo. Era muito poético, durão e ritmado. Havia muita intensidade, e sua voz era como um estilete. Não era como nenhum dos outros cantores que eu já ouvira, tampouco suas canções. Seus maneirismos, o modo como tudo fluía de sua língua, aquilo tudo meio que me derrubou. (…) Nenhuma única canção medíocre no pacote. Woody Guthrie despedaçava tudo em seu caminho. Para mim foi uma epifania, como se uma pesada âncora tivesse acabado de mergulhar nas águas do porto.”

A partir daí, Dylan passou a se alimentar de tudo aquilo que Guthrie tivesse feito. Foi então que seu amigo Dave Whittaker, um poeta beat que vagava por Dinkytown, emprestou a autobiografia de Woody, Bound For Glory. O livro descreve parte de sua infância e as várias tragédias na Família Guthrie, incluindo a morte da irmã e o incêncio que destruiu sua casa. Woody também fala de suas aventuras na estrada como um andarilho e seu modo improvisado de conseguir dinheiro para sustento.

A música e a literatura de Guthrie aguçou a típica curiosidade dylanesca. Para Bob, ele parecia um artista remoto, mas Whittaker contou que Woody estava internado em um hospital em New Jersey, vítima da Doença de Huntington.

Bob não pensou duas vezes e tudo estava certo.

Talkin’ New York Blues

No dia 29 de janeiro de 1961, apenas cinco dias após chegar em New York, Bob viajou durante uma hora e meia e caminhou o último kilômetro até a Greystone Park Psychiatric Hospital. Lá, encontrou um ídolo enfraquecido e quase vencido bela doença, mas ainda assim tocou algumas canções de Woody e iniciou uma série de visitas frequentes. Foi nessa época que recebeu um documento que comprovava que Guthrie não estava morto: um bilhete escrito “I ain’t dead yet. Woody Guthrie”.

Mary, ex-mulher de Woody, levaria-o para casa todos os fins-de-semana. Lá, além de ver os filhos Arlo e Nora, ele também poderia tomar banho, trocar de roupas e receber visitas de grandes amigos, como Pete Seeger e seu sucessor Ramblin’ Jack Elliott. Dylan também seria um visitante assíduo e absorveria o máximo que poderia de tudo aquilo.

Nora Guthrie contou a Epstein uma passagem em que ilustra o comportamento de Dylan com seu ídolo. Para ela, que na época tinha 11 anos, Bob fez sua travessia para estar ao lado de Woody e ajudá-lo a fortalecer sua dignidade. Não era um ato egoísta.

“Woody estava tentando acender um cigarro, sua mão voando por todo canto enquanto ele segurava o isqueiro, e todos dizendo ‘eu acenderei para você’, e Dylan cortou todos e disse ‘não, ele quer fazer isso sozinho’. Então, todos o deixaram fazer; e ele fez e olhou pra todos com satisfação, como que para dizer, ‘Vejam só! Eu ainda consigo acender meu cigrarro!’”

Hey, Hey, Woody Guthrie I wrote you a song

Logo após os encontros com Woody, Bob compôs suas primeiras canções folk – que entrariam no seu disco de estréia. “Song to Woody” foi inspirada na canção “1913 Massacre” de Guthrie e contém um verso de outra música, “Pastures of Plenty” (“that come with the dust and are gone with the wind”). Nela, Bob descreve o mundo que está para surgir e agradece Woody e seus amigos.

Outra canção foi “Talkin’ New York Blues”, que utiliza de um formato largamente difundido por Woody: um blues falado e com teor cômico. Em sua composição, Bob conta sua chegada a Big Apple e seus apuros para conseguir conquistar seu espaço. Também há um empréstimo de frase: “Now, a very great man once said/ That some people rob you with a fountain pen” foi inspirada na canção “Pretty Boy Floyd”. Bob a tocaria em um tributo ao cantor em 1987:

Essas não fora, suas únicas obras explicitamente sobre Woody. Em sua primeira grande apresentação, em 12 de abril de 1963 no Town Hall, Bob comentou que escreveu algumas palavras sobre Woody para um livro que estava por sair. O poema chama-se “Last Thoughts On Woody Guthrie” e Dylan separou sete minutos para fazer seu tributo.

I ain’t got no home in this world anymore

Após seu exílio midiático em 1966 e de alguns ensaios despretensiosos com The Band na mansão Big Pink, Bob só entraria em estúdio novamente no dia 17 de outubro de 1967, para gravar o surpreendente introspectivo “John Wesley Hardin’”. O álbum é composto basicamente com canções alegóricas e contam histórias de andarilhos, vagabundos, ladrões e foras-da-lei em geral. Coincidência ou não, Woody morreria dez dias antes de Bob iniciar as gravações.

Com uma personalidade reclusa desde o acidente de moto de 1966, Bob só subiu ao palco em janeiro de 1968, quando se apresentou com The Band no Tributo a Woody Guthrie. Na ocasião, tocou três músicas: “Grand Coulee Dam”, “Mrs. Roosevelt” e “I Ain’t Got No Home”, que contem a seguinite estrofe:

Well, as I look around, it’s mighty plain to see
This wide open world, she’s a funny old place to be;
The gamblin’ man is rich, the workin’ man is poor,
And I ain’t got no home in this world anymore.

Como bem disse Michael Gray em sua enciclopédia, mais do que ser uma influência estilística na maneira de tocar e até no sotaque que Dylan absorveu, Guthrie foi essencial ao tratar de temas sérios e engajados.

É para Woody Guthrie que Bob Dylan deve boa parte de sua moralidade, presente até em suas obras mais recentes.

E são essas morais, esses códigos de conduta, que fazem com que aquele primeiro bilhete persista: a insistência para um mundo melhor. “I ain’t dead yet. Woody Guthrie”.

Inspired by Dylan (ou sinestesia dylanesca)

A sueca Leona Oppenheimer pinta desde o início dos anos 80 e após alguns anos tendo como musa a natureza, ela começou a passar para a tela as imagens que tinha em sua mente.

A partir daí, idealizou uma série intitulada “Inspired by Dylan” (inspirada em Dylan) – em que pinta suas versões de várias canções dylanescas.

Abaixo, uma seleção dessas obras:

All Along The Watchtower

 

Shelter From The Storm

 

Isis

 

Girl From The North Country

 

Lay, Lady, Lay

 

Jokerman

Agradecimentos ao Rodrigo Almeida, que lá na Fanpage me lembrou dessa série.

Dylan nos 100 maiores artistas de todos os tempos

Bob Dylan já encabeçou a lista das 500 maiores músicas e teve uma grande influência na lista das 100 melhores canções dos Beatles. Agora, o cantor também participa da recente edição especial da Rolling Stone Brasil, dessa vez com “Os 100 Maiores Artistas de Todos os Tempos”.

A revista reuniu 55 músicos, jonalistas e executivos do mundo da música para montar a lista dos 100 maiores artistas da música pop. Com um resultado tão eclético quanto óbvio, cada artista selecionado recebeu um texto de famosos como Keith Richards, Flea, Elvis Costello e tantos outros.

O júri

Entre os 55 jurados, alguns tiveram uma relação direta com Bob Dylan. Conheça alguns:

Jackson Browne – músico e compositor, possui um estúdio onde Dylan passou no começo do ano para gravar mais um álbum de inéditas.

Dr. John – além de participar de “The Last Waltz”, seu maior hit “Right Place Wrong Time” teve como faísa inicial uma frase dada por Dylan a ele: “I’m on the right trip, but I’m in the wrong car”.

Bill Flanagan – vice-presidente e diretor editorial da MTV Networks, em 2009 fez uma entrevista exclusiva com Dylan sobre o disco “Together Through Life”.

David Geffen – fundou a Asylum Records (e posteriormente a Geffen). Foi o único a convencer Dylan a sair da Columbia (por um curto período). Bob lançou pela Asylum os álbuns “Planet Waves” e “Before the Flood”.

Mikal Gilmore – jornalista, escreveu o livro “Ponto Final”, com uma série de perfis de personalidades relevantes para os anos 60 (incluindo Bob Dylan, obviamente).

Robert Hilburn – crítico de música do Los Angeles Times, acompanhou Dylan em alguns shows – como no sua primeira apresentação em Israel.

Greil Marcus – primeiro editor de resenhas de discos da Rolling Stone, já lançou uma compilação de textos sobre Dylan e um livro sobre “Like a Rolling Stone” além do importante “The Old, Weird America” (sobre a gravação do “Basement Tapes”).

Jerry Wexler – co-produziu junto de Dylan o disco de estréia de Barry Goldberg, além de ter produzido dois álbuns de Bob: “Slow Train Coming” e “Saved”.

O resultado

Bob Dylan conquistou a medalha de prata, perdendo apenas para Os Beatles. Parceiro de Dylan em shows e em alguns discos, o guitarrista Robbie Robertson foi o responsável por escrever sobre o cantor.

Em seu texto, Robertson exalta a interpretação de Dylan, a rapidez nas composições, sua necessidade intuitiva pelo improviso e como Bob deve ser considerado uma referência para qualquer compositor.

O Top 10

Confira o Top 10 dos “100 Maiores Artistas de Todos os Tempos”:

  1. The Beatles
  2. Bob Dylan
  3. Elvis Presley
  4. Rolling Stones
  5. Chuck Berry
  6. Jimi Hendrix
  7. James Brown
  8. Little Richard
  9. Aretha Franklin
  10. Ray Charles

A edição pode ser encontrada nas bancas, tem 122 páginas e custa R$19,90.