O maior show de Bob Dylan (ou o menor em 25 anos)

A turnê de 1989, mesmo ano de lançamento de Oh Mercy, terminou no dia 15 de novembro. Menos de dois meses depois, Bob Dylan entraria em estúdio para gravar seu próximo disco, Under The Red Sky. As gravações começaram no dia 6 de janeiro, mas só terminariam em abril, após seis sessões de estúdio.

Entre uma sessão e outra, Dylan iniciaria sua Never Ending Tour de 1990. Como aquecimento dos próximos 14 shows que faria – incluindo quatro shows em Paris, seis em Londres e sua rápida passagem pelo Brasil (Morumbi em São Paulo e Sambódromo no Rio de Janeiro) -, Dylan fez algo duplamente inusitado: não só tocou pela primeira vez em 25 anos em um clube, como fez seu maior show.

O clube escolhido foi Toad’s Place, localizado em New Haven (Connecticut). A apresentação de Bob entraria em um rico histórico do Toad’s. Um ano antes, os Rolling Stones fizeram uma apresentação de uma hora e entre 1980 e 1981, o U2 se apresentou três vezes.

Bob subiu no palco no dia 12 de janeiro, sexta-feira. Os músicos que acompanham Dylan foram:

G.E. Smith: guitarrista que durante muito tempo foi o diretor musical do Saturday Night Live;

Tony Garnier: baixista que acompanha Dylan até hoje;

Christopher Parker: baterista (e artista plástico) que já havia gravado com Paul Butterfield, Maria Muldaur, Judy Collins, Lionel Hampton e muitos outros.

Dylan e cia. começaram a tocar às 8h45 e pararam às 2h20. Dividido em quatro sets (com um intervalo de cerca de 20 minutos entre eles), Bob Dylan interpretou 50 músicas e tocou por cerca de quatro horas.

O clima da apresentação foi descontraído e divertido. Bob Dylan avisou que o intuito da apresentação era treinar os finais das canções. Contudo, o músico aceitou diversas sugestões do público (em “Joey”, Dylan sugeriu que o dono do pedido subisse ao palco para cantar) e ainda tocou 18 covers, incluindo “Dancing In The Dark”, de Bruce Springsteen.

Para suas canções, Bob também apresentou surpresas: tocou pela primeira vez ao vivo “Tight Connection To My Hear”, “Political World” (que ele repetiu três vezes) e “Congratulations” (do seu projeto Traveling Wilburys). Para “Lay Lady Lay”, Dylan fez o seguinte prefácio:

“Esta é uma das minhas poucas canções românticas. O romance não tem um papel grande na minha vida, mas já teve”.

Confira o repertório completo (via Björner) e ouça os sets:

Set um
1. Walk A Mile In My Shoes (Joe South)
2. One More Cup Of Coffee (Valley Below)
3. Rainy Day Women # 12 & 35
4. Trouble No More (McKinley Morganfield)
5. I’ve Been All Around This World (trad.)
6. Political World
7. Where Teardrops Fall
8. Tears Of Rage (Bob Dylan & Richard Manuel)
9. I Dreamed I Saw St. Augustine
10. It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry
11. Everybody’s Movin’ (Glen Trout)

Set dois
12. Watching The River Flow
13. What Was It You Wanted
14. Oh Baby It Ain’t No Lie (Elizabeth Cotten)
15. Lenny Bruce
16. I Believe In You
17. Man Of Peace
18. Across The Borderline (Ry Cooder/John Hiatt/Jim Dickinson)
19. Leopard-Skin Pill-Box Hat
20. All Along The Watchtower

Set três
21. Tight Connection To My Heart (Has Anybody Seen My Love)
22. Political World
23. What Good Am I?
24. Wiggle Wiggle
25. Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again
26. Pay The Price (Moon Martin)
27. Help Me Make It Through The Night (Kris Kristofferson)
28. Man In The Long Black Coat
29. Congratulations
30. Dancing In The Dark (Bruce Springsteen)
31. Lonesome Whistle Blues (Hank Williams-Jimmy Davies)
32. Confidential (Dolinda Morgan)
33. In The Garden
34. Everything Is Broken

Set quatro
35. So Long, Good Luck And Goodbye (Weldon Rogers)
36. Where Teardrops Fall
37. Political World
38. Pretty Peggy-O (trad. arr. Bob Dylan)
39. I’ll Remember You
40. Key To The Highway (Charles Segar/Willie Broonzy)
41. Joey (Bob Dylan & Jacques Levy)
42. Lay Lady Lay
43. I Don’t Believe You (She Acts Like We Never Have Met)
44. When Did You Leave Heaven? (W. Bullock/R. Whiting)
45. Maggie’s Farm
46. I’ve Been All Around This World (trad.)
47. In The Pines (Huddie “Leadbelly” Leadbetter)
48. Highway 61 Revisited
49. Precious Memories (arr. by Bob Dylan)
50. Like A Rolling Stone

Tempest (Parte 2): de carona com Bob Dylan

Confira aqui a primeira parte.

Quando tive o primeiro acesso a Tempest na íntegra, preferi ouví-lo em sua ordem ao invés de escutar primeiro as faixas até então inéditas para mim. Confesso que fiquei ansioso, já que as canções mais faladas eram justamente as duas últimas do disco. Mas a viagem agradabilíssima até o destino valeu tanto, senão mais, do que o ponto final. A tempestade dylanesca finalmente caía.

Para quem acompanha as centenas de shows anuais que Bob faz, pode perceber a diferença ocorrida entre 2011 e 2012. Dylan parece mais à vontade no palco, investindo em suas performances. Curva-se com as mãos nos joelhos enquanto sola sua gaita; sorrisos fáceis distribuídos agora com mais frequência; experimentalismos sonoros, alternando instrumentos no meio da música e incluindo ecos em sua voz.

Como se a usasse para alongar suas canções, Bob Dylan tornou a gaita ausente em Tempest e voltou a investir pesado em letras extensas. O espaço para solos também é escasso. Das 10 músicas, metade ultrapassam os sete minutos e apenas uma possui menos de quatro minutos. Mais de 23 mil caracteres espalhados em 68 minutos.

Tempest é uma viagem em vários sentidos. A música é apenas um pano de fundo para que o cantor, ou o narrador, conte suas histórias compiladas em andanças. Até esse momento, seria impensável imaginar Dylan cantando baladas românticas que parecem ter saído da Motown ou das madrugadas calmas da Sun Records. Bob não só assume o papel de andarilho, como usa com muita sabedoria o desgaste de sua voz para cantar com a experiência de um ancião que experimentou o trajeto dantesco.

Trilhando – Tempest

#1 – Duquesne Whistle: A Rolling Stone achou o clipe “chocantemente violento”, comparando até a Goodfellas. Para mim o vídeo é bem humorado, mostrando o quanto se sofre com o amor – ou apenas um belo fim para um “stalker”. E como disseram no Facebook: Bob Dylan parece ter feito as pazes com a juventude.

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A canção, co-escrita por Robert Hunter (que também participou de Together Through Life), é uma amável história de nostalgia. O narrador lembra, a partir do apito, de um “namoro de portão” e da árvore que costumava subir. A melodia parece ecoar Earl Hines e sua “I ain’t got nobody”.

O que seria esse apito de Duquesne? Alguns acham que se trata de uma fornalha localizada em Duquesne, Pennsylvania. Porém, existe uma antiga linha de trem que vai de New York até Pittsburgh que era conhecida como Duquesne, mas que agora se chama Amtrak.

#2 – Soon After Midnight: Bob Dylan parece realizar um de seus possíveis sonhos: ser adulto o bastante para adentrar a Sun Records dos anos 50 e gravar um R&B tranquilo e acalentador. Há uma clara referência a Elvis em “It’s now or never/ More than ever”. A belíssima e suave canção deveria durar muito mais e bem que poderia ter um final menos abrupto.

#3 – Narrow Way: Um blues rápido e encrenqueiro que tem boas frases como: “I’m still hurting from an arrow, that pierced my chest/ I’m gonna have to take my head, and bury it between your breasts”. O refrão, como Will Hermes percebeu, é emprestado de uma antiga canção de Mississippi Sheiks, “You’ll Work Down to Me Someday”.

#4 – Long and Wasted Years: Um country-soul primoroso e comovente que lamenta o fim de um grande amor. Algumas frases poderiam estar em Crônicas V.2, como: “I wear dark glasses to cover my eyes/ There are secrets in them I can’t disguise/ Come back baby if I ever hurt your feelings I apologize”. Seu arranjo é um registro da atual fase de Dylan e sua experimentação melódica cadenciada.

#5 – Pay In Blood: Para mim, uma das melhores canções de Dylan dos últimos 30 anos. A vingança volta a ser tema, mas dessa vez a acidez dylanesca vem com muito mais experiência e sabedoria. A voz de Bob está mais rasgada do que nunca, tornando a música ainda mais forte. No Expecting Rain encontraram ecos de Julio Caesar de Shakespeare (“I came to bury, not to praise”).

#6 – Scarlet Town: Com uma atmosfera nebulosa que lembra “Ain’t Talkin’”, de Modern Times, Bob cita a mesma cidade utilizada como pano de fundo em uma das versões da tradicional “Barbara Allen”. Mantendo a referência ao passado, Dylan “pegou emprestado” algumas frases do poeta John Greenleaf Whittier.

#7 – Early Roman Kings: Um blues pesado e vagaroso que se baseia em “Manish Boy” de Muddy Waters e principalmente em “I am a man”, de Bo Didley. Como já dito, Bob usou da frase “I ain’t dead yet”, criada por Woody Guthrie, que em 1961 deu um bilhete a Dylan com a frase para comprovar que ainda estava vivo.

#8 – Tin Angel: Apesar de extremamente monótona, a narrativa prende e inebria o ouvinte. Seu enredo parece ter saído de uma compilação de histórias do folk tradicional americano. É como se Dylan reescrevesse toda a antologia de Harry Smith.

#9 – Tempest: Para quem acha que o clima alegre não foi uma boa escolha de Dylan, saiba que a melodia foi baseada na canção da Carter Family sobre o mesmo tema, “The Great Titanic”. Bob investe quase 14 minutos do disco para contar a história do fatídico e centenário acidente do Titanic, ocorrido em 14 de abril de 1912. Na descrição, nem Leonardo DiCaprio, ou apenas Leo, escapa.

#10 – Roll On John: A canção que fecha o álbum, como uma trilha enquanto sobem os créditos, é uma homenagem comovente e sincera de Dylan ao amigo John Lennon, morto em 1980. Bob utiliza de alguns versos do ex-beatle para recontar parte da vida de John. O título da canção é emprestada de uma homônima, intepretada por Dylan 50 anos antes, em janeiro de 1962.

Às vezes, a sensação é de que estamos realmente em um Pontiac Tempest, há 130Km/h. Em outras, estamos em um Corvette conversível, enquanto sentimos o vento leve e podemos curtir com calma a bela paisagem que se apresenta.

O destino final é, sem sombra de dúvidas, a fonte Palas-Atena e seus significados: sabedoria, justiça e arte.

Roll On, Bob.

Tempest (Parte 1): da previsão à tempestade

As nuvens começaram a se acinzentar no início de março. Na época, o músico David Hidalgo foi entrevistado pelo Aspen Times para falar de um show acústico que faria com Los Lobos, mas um comentário desviou a atenção e sua fala foi replicada aos montes pelo mundo: Hidalgo tinha acabado de gravar um novo disco com Bob Dylan. As gravações ocorreram no estúdio Groove Masters, do músico Jackson Browne, mesmo local usado por Dylan nos últimos álbuns (Together Through Life e Christmas in The Heart). Cerca de um mês depois, Bob Dylan chegava ao Brasil para fazer seis shows.

Teríamos que esperar até o final de maio para que tudo estivesse inteiramente nublado. Primeiro, vieram uns boatos sobre a data de gravação – entre janeiro e fevereiro -, alguns detalhes da duração do disco e de possíveis temas e que o jornalista Alan Jones estaria numa audição secreta do disco. No dia 17 de julho, o site oficial de Dylan finalmente divulgou um press-release sobre o lançamento, agora já batizado de Tempest e com data de lançamento, 11 de setembro (exatamente 11 anos após o lançamento de Love & Theft). Em seguida, a Amazon divulgou a capa e os nomes das faixas. Esperávamos agora a chuva cair.

A deusa da sabedoria ou um beberrão sessentista

Divulgada a capa, muitos acharam a arte pobre e tentavam desvendar seus significados. A imagem era de um detalhe da fonte Palas Atena, localizada em Vienna, Áustria. Atena é, na mitologia grega, a deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia, das artes, da justiça e da habilidade. John Smith, um morador de Duluth, onde Dylan nasceu, afirmou no Facebook que na escola da cidade havia uma estátua parecida.

O nome Tempest recebeu algumas interpretações. Alguns achavam que era uma referência à peça “The Tempest”, último trabalho de Shakespeare – ideia que Dylan tratou de refutar em uma entrevista afirmando que seu álbum chamava-se apenas “Tempest” e isso significava algo completamente diferente.

Logo depois, dylanólogos resgataram um modelo de carro chamado Pontiac Tempest, lançado em setembro de 1960, cuja tipografia do logo é bem semelhante a usada no título. Coincidência ou não, na contracapa do disco Bob está dentro de um carro (porém, trata-se de um Corvette, também dos anos 60). O quê isso poderia significar?

Pré-lançamento

Só em agosto pudemos sentir o cheiro da chuva iminente. Primeiro foi parte de “Early Roman Kings” como trilha de um trailer de Strike Back, seriado da Cinemax. Depois, “Scarlet Town” como fundo musical para os créditos finais do mesmo programa. Aos poucos as canções vazavam na íntegra.

O início efetivo ocorreu há cerca de uma semana. No dia 27 de agosto, a NPR divulgou o áudio de “Duquesne Whistle”. Dois dias depois, foi a vez do jornal The Guardian fazer o lançamento mundial no novo clipe de Dylan:

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Listen To Bob Dylan + Tempest Store

Surpreendentemente, a gravadora utilizou uma estratégia imponente para divulgar Tempest. No começo de setembro, espalhou em 10 países do mundo, incluindo o Brasil,  100 locais onde seria permitido ouvir metade do disco: as já conhecidas “Early Roman Kings”, “Duquesne Whistle” e “Scarlet Town”, além das inéditas “Pay in Blood” e “Narrow Way.

Além dessa ação, serão montadas lojas especialmente para o lançamento. A primeira será inaugurada no dia 7, em Berlim. As três restantes abrirão no dia 10 e estarão em Los Angeles, New York e Londres.

Audição na íntegra

Hoje foi disponibilizado na íntegra a audição do novo disco no iTunes. No próximo post, farei um “faixa-a-faixa” de Tempest, o 35º disco de estúdio de Bob Dylan.