Resenha: Bob Dylan em SP (22/04)

A segunda noite dylanesca de São Paulo iniciou-se idêntica à anterior: o palco vazio, um som de fraseados blues na guitarra, as luzes se apagando e o bando invadindo. Tudo aparentando ser milimétricamente igual. Mas nunca é.

Se na noite anterior testemunhamos a construção das canções ao vivo, com Bob até mostrando certa insatisfação na procura por alguns arranjos e levadas, o show de domingo foi uma viagem introspectiva, onde vimos quão fundo o sentimento dylanesco é capaz de chegar.

Como se quisesse explicar ao confundir, Bob tem mudado pouco o repertório de seus shows. Há uma espinha dorsal fixa, principalmente nas quatro últimas canções. A maioria das músicas que se alternam segue basicamente a mesma linha. Mas setlist idêntico, para Dylan, não é sinônimo de apresentação gêmea.

Por volta das 19h, uma hora antes do início do show, era possível ver duas estantes espalhadas no palco, daquelas que se colocam partituras ou letras de música. Era claro que, durante a passagem de som (que os seguranças me disseram ter demorado cerca de 30 minutos), o bando dylanesco havia ensaiado. Curiosamente, no dia anterior não havia qualquer estante no palco.

No geral, a apresentação de domingo foi bem mais suave do que a abordagem roqueira do dia anterior. As canções soavam mais delicadas e não havia a mesma concentração de “acidez dylanesca” que houve no sábado. Por mais eternas e imortais que essas músicas sejam, elas possuem humor como todo ser vivo. Hoje elas não queriam muita farra.

(foto: Camila Fontenele)

1) Abrindo com a mesma canção em todos os shows, Bob parece usar “Leopard-Skin Pill-Box Hat” como aquecimento. A versão dominical é um shuffle mais suingado e a banda está visivelmente mais relaxada.

2) A canção que muitos vêem como um desdém a Joan Baez, “It Ain’t Me, Babe” é para mim a negação não do amor, mas das amarras do movimento Folk. Aqui, contudo, ela é solta. Bob faz um belíssimo solo na guitarra e ilustra a canção inteira no instrumento como se fosse a extensão de sua poesia.

3) “Things Have Changed” é bem menos nervosa e enérgica do que a noite anterior. Bob Dylan, no centro do palco, agora canta com mais lamentação as mudanças que observa. Os machucados que ele evita mostrar estão mais evidentes. No final, um dueto consigo mesmo, em que Dylan alterna cada linha da estrofe com uma frase na gaita.

4) Pouca coisa muda de “Tangled Up in Blue”, mas a pegada segue a tônica da noite. A caixa da bateria, que antes havia sido bem enfática, dessa vez soa mais comportada e acompanha mais a base do violão de Stu.

5) “Beyond Here Lies Nothin’” é sutilmente virada de ponta-cabeça. Tudo parece igual, mas Dylan não canta com tanta imposição. Talvez aquelas janelas estejam com alguns vidros estilhaçados e ele precise de ajuda para limpar a sujeira.

6) É hora de respirar fundo. Bob Dylan senta do lado de cada um da platéia e, com toda sua sabedoria (que nasce do solo introdutório da gaita), fala da iminência do fim em “Not Dark Yet”. Estranhamente, a tristeza da letra acalenta nossa alma. “I’ve been down to the bottom of a world full of lies/ I ain’t lookin for nothin’ in anyone’s eyes”.

7) Agora que tiramos aquele peso tão difícil de aguentar e estamos mais leves, Bob nos sugere uma dança. “Summer Days” é divertida, agradável e as brincadeiras entre o teclado de Dylan e o resto da banda funcionam com ótimo entrosamento.

8 ) O destino fez com que Bob nascesse tarde demais para sua amada, mas em contrapartida deu-lhe a simplicidade que só ele teria para cantar “Simple Twist of Fate”. Vestiu a guitarra quase no meio da canção e tocou sem palheta, só com os dedos. Seu solo é tocante como o saxofone da canção.

9) Impossível evitar o trocadilho: “High Water (for Charley Patton)” é um dos pontos altos do show. O novo arranjo, com um riff inesquecível e surpreendente do banjo de Don durante todo o verso, mantem levemente aquele tom robusto do refrão da versão de “Tell Tale Sign”. Sai o peso e entra a malandragem.

10) Se a última estrofe de “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” conseguiu me tirar lágrimas na noite anterior, dessa vez foi “Tryin’ to get to Heaven” que me lavou a alma, mas durante toda a canção. Eu já sabia o que aconteceria se encontrasse com ela neste fim-de-semana, mas me surpreendi mesmo assim. Da pulsação do teclado de Bob, passando pelo arranjo sutil da guitarra de Charlie e do lapsteel de Don, eu só pensava em fechar meus olhos e imaginar se tudo era vazio como parecia. Não agora.

o último acorde do show. foto: Carolina Andrade

11) A tensão pela procura de um arranjo de “Highway 61 Revisited” da noite anterior não parecia ter deixado qualquer resquício. O riff do teclado de Bob é perfeitamente seguido pela banda e Dylan improvisa uma melodia vocal que imita o mesmo fraseado dos dedos. A coisa fica meio esquisita, mas é tudo muito divertido.

12) E a letra de “Forgetful Heart” é consolidada em música. A canção parece uma alma que perambula na mente de cada um. Os passos são dados por Tony no baixo acústico e Don no violino, enquanto Dylan narra cada cômodo das fracas lembranças do coração.

13) A execução de “Thunder on the Mountain” é primorosa. Tudo dá certo e aquele tom de “making of” da noite anterior não dá sinal de vida. O bando, com Dylan incluso, soa redondo, poderoso e com autonomia de quem já sabe o caminho.

14) Uma produtora carioca já havia alertado antes do show que nas últimas músicas poderíamos nos levantar e ir próximo ao palco. Em “Ballad of a Thin Man”, estou de pé, na grade, a poucos metros do homem nem tão magro como quando compôs a balada. A versão dominical continua poderosa.

15) Para quem acha que Dylan evita seus grandes clássicos, se surpreende pela maneira como o cantor se diverte na reta final dos shows recentes. “Like a Rolling Stone” é tocada com agrado e Bob se diverte com a nossa alegria.

16) “All Along the Watchtower” recebe a mesma da noite anterior, sendo uma das mais pesadas de domingo. Mesmo bem semelhante, valeu ver e rever.

17) A versão dançante de “Blowin in the Wind” e poderia receber os isqueiros acesos ao invés das luzes das telas de câmeras e celulares. Ainda assim é um belo momento, principalmente pelo dueto entre a guitarra de Dylan e o violino de Don. No fim, esperamos que ele, aquele cara que podemos chamar de homem e que diz que a resposta está ao vento, ainda ande muitas e muitas estradas.

Bob Dylan em SP (22/04): repertório

Bob Dylan finalizou sua passagem por São Paulo com um repertório que lembrou vagamente a seleção do show no Rio de Janeiro, do dia 15/04. Confira:

1.Leopard-Skin Pill-Box Hat
2.It Ain’t Me, Babe
3.Things Have Changed
4.Tangled Up In Blue
5.Beyond Here Lies Nothin’
6.Not Dark Yet
7.Summer Days
8.Simple Twist Of Fate
9.High Water (For Charley Patton)
10.Tryin’ To Get To Heaven
11.Highway 61 Revisited
12.Forgetful Heart
13.Thunder On The Mountain
14.Ballad Of A Thin Man
15.Like A Rolling Stone
16.All Along The Watchtower

(bis)
17.Blowin’ In The Wind

Resenha: Bob Dylan em SP (21/04)

São Paulo, 21 de abril de 2012. Estava próximo das 22h quando, ainda com as luzes acesas, uma guitarra começou a tocar riffs de blues. Minutos antes, alguns roadies haviam subido ao palco para testar instrumentos e fazer os ajustes finais. Os fraseados continuam, soando agora como aquecimento. O Credicard Hall fica às escuras e segundos depois um bando com seis integrantes invade o palco. Sem aviso prév io, sem a abertura erudita ou a introdução com o resumo da carreira dylanesca. Bob Dylan está no palco e o show começa. Simples assim.

Ver Dylan ao vivo, e a poucos metros, é esquisito. Ele não se parece com aquele garoto bochechudo do início dos anos 60, tampouco o acelerado ou cristão dos anos 70. Ele é outra pessoa, uma somatória sutil de todas as anteriores, mas sem nunca olhar para trás. E sua música segue o mesmo caminho.

1) A canção de abertura se mantém a mesma de toda a turnê brasileirá até aqui: “Leopard-Skin Pill-Box Hat”. Bob Dyl an no órgão cantando sem novidades. É uma boa canção, mas ainda prefiro a impactante “Gonna Change My Way of Thinking”, que Dylan escolheu para abrir os shows do começo de 2011.

2) Bob direto pro centro do palco, com guitarra. O violão de Stu começa e tudo muda. “Don’t Think Twice, It’s Alright” é solta, despojada, malandra. Bob canta “it’s alright” sem amargura. Ele está sozinho nesta longa estrada e não pode contar para onde está indo. Para ninguém.

3) Agora que tomou a estrada, acelera fundo numa versão country nervosa de “Things Have Changed”. “No one in front of me and nothing behind”. Ele desafia a banda e a si próprio, sem transparecer qualquer dificuldade. O que antes era uma afronta, agora é uma fuga fora-da-lei.

4) Bob consegue fugir, então desacelera um pouco. “Tangled Up in Blue” é menos melancólica que a original e Dylan a canta como se tudo fosse inevitável. A caixa da bateria de George pontua toda a canção (seguida por toques sincronizados de Don no lapsteel). Dylan exigiria muito do baterista, mas dessa vez ele foi aprovado.

5) “Beyond Here Lies Nothin’” é agressiva, ácida e vingativa. É o manifesto dylanesco que impõe: “aqui quem manda sou eu!”. Bob na guitarra-solo é irônico: enquanto que na voz prefere alterar sempre a melodia, na guitarra ele procura um fraseado e quando o encontra não abre mão.

6) “To Make You Feel My Love”. Primeira vez que Bob toca nos shows de 2012. Ele ainda está a procura da melhor ma neira de expressá-la. Começa no centro do palco, mas logo vai para trás do teclado. Apesar de aparentar inacabada, a interpretação é bela e contagiante.

7) “Honest with Me” leva a mesma rapidez de “Things Have Changed”, mas a pegada country dá lugar a um blues rock nervoso. Bob Dylan canta e deixa a banda brincar com riffs e improvisos. Don e Charlie criam uma melodia que aparece entre as estrofes e é pontuada também por George. Se no show de BH ela passou despercebida, aqui ela amadureceu e ganha seu espaço.

8 ) Assim como “Make you feel my l ove”, “Every Grain of Sand” é tateada pelo cantor. Bob Dylan parece insatisfeito com alguma coisa na música. No meio da canção, ele pára e só observa o instrumental da banda. Parece querer achar algo novo na música, algum espaço vazio. A versão é boa e agradável, mas entendo a procura de Bob.

9) O ponto mais do que alto do show e quando a minha máxima dylanesca é exemplificada com primor: “The Leeve’s Gonna Break” acontece. Ela começa normalmente, sem novidades, mas o que seria de Dylan sem seu descontentamento e mudanças iminentes? Ele logo comanda uma revolução no meio da canção. Para mim, não há nada ensaiado. O que se vê são paradas absolutas – total silêncio – , com algumas “esfregadas” brincalhonas de mão no teclado. Bob Dylan descobre uma fissura na estrutura e encontra uma nova canção. Ouvi-la nunca mais será igual.

10) Aaah…, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”. Assim que começaram os primeiros acordes eu sabia que muita água iria rolar – dos meus olhos. Bob já disse que cada verso de “Hard Rain” poderia ser uma música. Quando a compôs, ele estava ansioso por que não sabia quanto tempo ele – e toda a América – teria de vida. Após ver que viveu muito mais do que poderia imaginar, resolve finalmente mostrar a nós cada uma dessas sub-canções. A última estrofe sempre é nova. Ele descreve o que fará após o temporal, mas cada dia tem uma idéia na cabeça. E todas são boas. Como um mágico, ele tira uma melodia da cartola e passeia com ela. Ele fala e pensa e respira a música. Vai até as montanhas. Ele, mais do que ninguém, só a canta quando realmente a conhece. É messiânico e não poderia ser de outra forma.

11) Bob Dylan quer mudar “Highway 61 Revisited”, mas sua banda não entende qual o caminho que ele quer seguir. Ele gesticula, balança a cabeça, olha para o baterista, tenta vários caminhos, mas o que se vê é uma versão simplificada, com mudanças de dinâmicas menos explícitas e impactantes que apresentações anteriores.

12) “Love Sick”, a canção que abre Time Out Of Mind, soa menos triste que a original. Assim como em “Make You Feel My Love”, do mesmo disco, Dylan começa no centro do palco, mas logo muda para o teclado, onde faz um arranjo simples e criativo. Ela está mais rápida e pontiaguda, como uma tristeza vingativa. Bob enxuga as lágrimas vindas da doença, deixa o amor de castigo e vai beber com suas entranhas.

13) “Thunder on the Mountain” ganha um leve tempero de swing no seu rock dos anos 50. É possível imaginar pessoas dançando e rodopiando, mulheres com saias e homens com um terno impecável. Mais uma vez Dylan observa a banda, deixando-a soar e improvisar livremente. A música ainda está em construção e é um prazer testemunhar isso.

14) A “Ballad of a Thin Man” dos dias de hoje é épica. Para mim, é como se a canção tivesse precisado de mais de 40 anos para encontrar sua versão final. A voz de Dylan, com o timbre cavernoso, casa perfeitamente com o clima carrancudo. O eco, usado desde o ano passado, pontua cada palavra rasgada e enfiada goela abaixo do tal Mr. Jones.

15) Sinceramente? Acho que nada superará a versão de “Like a Rolling Stone” de Belo Horizonte, com Bob Dylan presenteando o público com o refrão. Aqui, contudo, as circunstâncias são outras: a platéia está sentada e os ingressos são bem mais caros. Ainda assim foi um momento memóravel.

16) Depois de Bob apresentar a banda e tecer comentários sobre os integrantes, Charlie Sexton dá a deixa para “All Along The Watchtower”. Ela soa aberta e livre, como se realmente estivéssemos em cima da torre de vigia, observando tudo. Agora, a movimentação de Dylan se inverte: ele sai do teclado para ir até o centro do palco e sugerir um novo fraseado. Bob en tão volta para as teclas para o final da canção.

17) Eduardo Suplicy encontrou Dylan em Brasília, deu a ele seu livro e pediu que tocasse “Blowin’ in the Wind”. Coincidência ou não Bob tirou “Rainy Day Woman” para incluir uma versão valseada de “Blowin'”. O que antes já foi um “hino”, agora se torna uma canção romântica, uma balada talvez. O público se amontoa na frente do palco e aquela história de “proibido filmar” vai para para o vento. Inúmeras pessoas se aglomeram na frente, de pé, e miram suas câmeras e celulares para o dono da noite. Ele, como de costume, não dá a mínima.

E assim, Bob Dylan termina a primeira noite paulistana. Em alguns momentos, presenciamos um ensaio aberto de Dylan e sua trupe. Em outros, a obra acontecendo e tomando vida própria. Para qualquer fã dylanesco, as duas opções são inesquecíveis.