May your song always be sung

Ontem, em Londres, Bob Dylan finalizou sua turnê mundial que começou no dia 3 de abril, em Taipei (Taiwan). A edição de 2011 de sua Never Ending Tour teve 88 apresentações e passou por vários continentes.

1º Semestre

Os shows do começo do ano foram uma continuação da estrutura da turnê de 2010. Tirando a primeira apresentação, quando abriu com Gotta Serve Somebody, a música de abertura era invariavelmente Gonna Change My Way Of Thinking.

Na apresentação do dia 20/06, em Israel, Bob fez uma ótima interpretação da canção, com um vocal forte e um bom solo de órgão. Cultivando um recente cavanhaque grisalho, Bob demonstrou um certo carisma e até esboçou alguns sorrisos.

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Para o show seguinte, em Milão, Bob mudaria a canção de abertura, escolhendo a mesma música que utilizou no show de ontem, Leopard-Skin Pill-Box Hat.

No primeiro semestre, o cantor também se apresentou na Austrália e tocou pela primeira vez na China, em meio à polêmica do desaparecimento do artista chinês Ai Wei Wei.

2º Semestre

Na segunda metade do ano, Bob fechou a turnê européia e iniciou seus shows pelos Estados Unidos. Parte da turnê americana teve como convidado o cantor Leon Russell.

Em outubro, Dylan voltou ao Velho Continente, mas dessa vez para se apresentar principalmente na Europa Oriental. Para o show de abertura, convidou Mark Knopfler, que no decorrer da turnê também passou a acompanhar Dylan na guitarra, nas primeiras músicas.

A última música

Um fato inédito – e belo – ocorreu no show de ontem. Para fechar suas apresentações de 2011, Bob escolheu a jovial Forever Young e recebeu Mark Knopfler para acompanhar nos vocais, pela primeira vez na turnê.

O ponto alto do dueto foi quando Mark fez uma singela homenagem a Bob, cantando para ele o verso “may your song always be sung”. O público foi ao delírio. Pelas imagens, Bob parece intacto com o ato, provavelmente apenas com aquele seu pseudo-sorriso.

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No final, sem falar uma palavra, Bob permanece no centro do palco, faz sua saudação padrão, pede aplausos para Mark e vai embora, com seu semblante típico.

Update

Eis o áudio completo do último show:

Dylan & Sinatra: o encontro dos olhos azuis

Depois de ter incorporado o crooner em alguns shows no começo de 1995, Bob tocou para um dos intérpretes mais importantes da música americana: Frank “The Voice” Sinatra. Há exatos 16 anos, Bob Dylan participava da gravação de um especial para comemorar os 80 anos de Sinatra.

A escolha de Bob Dylan

Na época, rumores indicavam não só a participação de Dylan no evento, mas até a canção que ele escolhera para interpretar. Bob teria escolhido That’s Life. Recentemente, o baterista Winston Watson, que tocava o cantor na época, disse no documentário Bob Dylan: Never Ending Tour Diaries que as canções ensaiadas foram That’s Was My Love e Anyway You Want Me. Contudo, não encontrei nenhuma interpretação de Sinatra de canções com esses nomes.

That’s Life foi composta por Dean Kay e Kelly Gordon para Sinatra e aparece no álbum homônimo, de 1966.

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O pedido de Frank Sinatra

Dylan e sua banda já estavam ensaiando quando receberam um pedido de Frank. “The Voice” queria que Bob tocasse Restless Farewell (uma adaptação de Dylan para The Parting Glass). A canção aparece no álbum The Times They are A-changin’, de 1964, e fazia 31 anos que Bob não tocava em suas apresentações.

Uma das vezes foi no programa Quest, transmitido pela emissora canadense CBC, em fevereiro de 1964 (a canção começa no minuto 22:12).
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A versão de 19 de novembro de 1995 é mais madura, experiente, mas carrega a mesma melancolia de quando Bob tinha 23 anos . Dylan toca violão e é acompanhado por sua banda, além de uma seção de cordas.
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Após o evento, apenas quatro músicos são convidados para participar de uma festa na casa de Frank Sinatra: Eydie Gorme, Steve Lawrence, Bruce Springsteen e Bob Dylan.

Homenagem póstuma

Bob voltaria a interpretar Restless Farewell apenas mais uma vez. Três dias antes do seu aniversário de 57 anos, no dia 21 de maio de 1998, Dylan tocou a música em homenagem a Frank Sinatra, que morrera uma semana antes.

I’ll just bid farewell till we meet again

Acho interessante a escolha das músicas, tanto de Sinatra quanto de Dylan. Os dois parecem estar em harmonia em relação a temática que queriam abordar, mesmo sem combinar.

Em That’s Life, Frank canta as seguintes estrofes:

I said that’s life, and as funny as it may seem
Some people get their kicks stompin’ on a dream
But I don’t let it, let it get me down
’cause this fine old world, it keeps spinnin’ around

I’ve been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and aking
I’ve been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself flat on my face
I pick myself up and get back in the race

Bob, por sua vez, encanta a todos com sua despedida inquieta:

Oh ev’ry foe that ever I faced
The cause was there before we came
And ev’ry cause that ever I fought
I fought it full without regret or shame
But the dark does die
As the curtain is drawn and somebody’s eyes
Must meet the dawn
And if I see the day
I’d only have to stay
So I’ll bid farewell in the night and be gone

Oh, ev’ry thought that’s strung a knot in my mind
I might go insane if it couldn’t be sprung
But it’s not to stand naked under unknowin’ eyes
It’s for myself and my friends my stories are sung
But the time ain’t tall, yet on time you depend
And no word is possessed by no special friend
And though the line is cut
It ain’t quite the end
I’ll just bid farewell till we meet again

Bob Dylan, o crooner (show completo de 1995)

Como minuciosamente demonstrado por Olof Björner, o ano de 1995 se mostrou um dos mais atarefados para Bob Dylan. Em toda sua carreira, foi o segundo ano com mais shows, 116, perdendo apenas para 1999, com 119 apresentações.

Bob viu muita coisa acontecendo além dos seus shows regulares. Em 1995, lançou seu MTV Unplugged, recebeu o Grammy de melhor disco de folk tradicional por World Gone Wrong, apresentou-se no evento em homenagem a Frank Sinatra e tocou na inauguração do Rock and Roll Hall of Fame Museum.

A edição de 95 da sua Never Ending Tour deveria começar no dia 10 de março, mas uma forte gripe o obrigou a cancelar seu show pela primeira vez desde 1974. No dia seguinte, subiu ao palco para iniciar uma série de 26 apresentações em 31 dias. O ano estava apenas começando.

A primeira apresentação, em 11 de março, foi mantida e ocorreu em Praga, República Checa. Pouco antes de subir ao palco, Bob decidiu fazer quase todo o show sem empunhar guitarra ou violão. Nas mãos, apenas microfone e gaita. Esse perfil “crooner” de Dylan se extenderia por mais shows ao longo do ano.

Abaixo, o repertório e o vídeo com o show completo:

  1. Crash On The Levee (Down In The Flood)
  2. If Not For You
  3. All Along The Watchtower
  4. Just Like A Woman
  5. Tangled Up In Blue
  6. Watching The River Flow (Bob na guitarra)
  7. Mr. Tambourine Man
  8. Boots Of Spanish Leather
  9. It’s All Over Now, Baby Blue
  10. Man In The Long Black Coat
  11. God Knows (Bob na guitarra)
  12. Maggie’s Farm
  13. Shelter From The Storm
  14. It Ain’t Me, Babe (Bob no violão)

Parte 2 / Parte 3 / Parte 4 / Parte 5 / Parte 6 / Parte 7

Como muitos guitarristas, Bob não demonstra tanta desenvoltura com o microfone. Porém, é interessante ve-lo se concentrar apenas na voz e fazer alguns gestos com as mãos. Principalmente em músicas mais intimistas, Bob faz uma interpretação intensa e melancólicamente bela.

Atualmente, ele voltou a se apresentar no meio do palco sem guitarra ou violão. Para “dificultar”, canta em um microfone enquanto segura outro microfone apenas para seus solos de gaita. Em canções como Ballad of a Thin Man, sua interpretação é sombria, divertida e intensa ao mesmo tempo. E ele mostra muito mais desenvoltura que antes, com interessantes passos bizarros e semi-coreografias com o corpo e as mãos.