Lançamento: O Guia do Bob Dylan

Depois de uma biografia robusta e de uma discografia comentada, um guia sobre Bob Dylan fecha os lançamentos em português no ano do septuagésimo aniversário do cantor. Publicado pela editora Aleph, o Guia do Bob Dylan é uma tradução da série Rough Guides, lançada pela Penguin e Rough Guides nos EUA, Canadá e Inglaterra.

Escrito pelo jornalista britânico Nigel Williamson – que também escreveu outros guias, além de um livro sobre as músicas de Neil Young – o Guia pode parecer pequeno (304 páginas), mas é riquíssimo no conteúdo.

No formato de almanaque, o livro contem, além de uma biografia com bons detalhes, curiosidades interessantes, como as 50 músicas essenciais, a discografia completa e informações sobre covers, filmes, livros e sites que auxiliam na busca por informações dylanescas.

+Leia o primeiro capítulo do livro (pdf).

Um ponto bem interessante é que esta edição brasileira foi atualizada em relação a original, de 2006. Neste meio tempo Dylan lançou dois álbuns de inéditas (Modern Times e Together Through Life), dois álbuns da Bootlegs Series (Tell Tale Signs e The Witmark Demos), além do natalino Christmas In The Heart.

O livro é voltado tanto para quem é fã quanto para quem é admirador e quer ter um livro de consulta rápida.

Acho interessante este aumento de publicações nacionais sobre Bob Dylan. No exterior, são infinitas as quantidades de livros (e sites) sobre o artista ou até mesmo sobre fases específicas de Dylan.

A beleza dylanesca (ou a voz da feiúra)

Em 1963, Joan Baez convidou Bob Dylan para fazer o texto da contracapa do seu vinil In Concert, Part 2. O álbum é um compilado de interpretações ao vivo de Joan Baez e é o primeiro disco da cantora a conter músicas de Bob Dylan.

Em forma de poema, Bob escreve um longo texto sobre sua relação com a música, sua infância e suas influências. Em um trecho, Bob descreve sua afeição à feiúra. Em especial, exemplifica seu entusiasmo pela voz “feia”.

“The only beauty’s ugly, man
The crackin’ shakin’ breakin’ sounds’re
The only beauty I understand”
[…]
“Ain’t no voice but an ugly voice
A the rest I don’ give a damn
‘F I can’t feel it with my hand
Then don’ wish me t’ understand”

No livro de Scaduto, algumas pessoas que conheceram Dylan durante sua passagem por Minnesota, antes de sua ida à New York, afirmam que a voz estridente de boa parte dos discos dos anos 60 de Bob não se parecia em nada com a voz que elas conheciam, muito mais aveludada. Apenas na breve fase country, com os discos Nashville Skyline, Self-Portrait e Dylan, eles reconheceram o cara que conheciam.

Assim, podemos imaginar que a voz que conhecemos, assim como seu próprio nome, foi uma invenção dylanesca para criar um personagem. Um personagem sofrido, melancólico e com uma voz cansada e uma entonação mais próxima da poesia.

Uma das características de Dylan que não mudou com o tempo foi sua vontade em contrariar algo pré-determinado. Como um anti-intérprete, Bob trilhava um caminho único, que muitas vezes confundia a todos. Foi assim na sua fé (que atualmente já não sabemos se retornou ao judaísmo, se manteve cristão ou criou uma síntese de crenças), suas escolhas estéticas (Newport que o diga) e foi assim com músicos, que o viam mudando tempos, métricas e até acordes de suas canções, sempre com o intuito de surpreender os seus companheiros e obrigá-los a inovar e a trabalhar na sinceridade do instinto.

No poema para Baez, Bob registra sua influência de Hank Williams, afirmando que o cantor foi seu primeiro ídolo. Hank tinha como característica abordar temas negativos e tabus da época, como adultério, divórcio, bebida e exploração. Woody Guthrie, outro pilar para Dylan, também fazia questão de escrever sobre problemas, neste caso questões políticas e diferenças sociais.

Recentemente, sua preferência pela feiúra (como retrato fiel da realidade) o fez gravar três álbuns que estão entre os melhores de sua carreira (Time Out of Mind, Love & Theft e Modern Times).

Junto com essa busca lírica e contínua de tentar entender os defeitos do homem, Bob Dylan também teve sua voz deteriorada com o passar dos anos, com um timbre cada vez mais sujo. Atualmente, seu timbre vocal está mais próximo da voz gutural de Tom Waits do que de famosos discípulos dylanescos, como Tom Petty e Bruce Springsteen.

Muitos podem se assustar com o atual timbre e imaginar que esta é a decadência de um kafkiano artista da fome. Mas, se pegarmos como referência sua relação com a arte e sua preferência pelo gasto e cru, Dylan talvez esteja na sua melhor forma, justamente por ser sua “pior” voz. É a exaltação da feiúra e de praticamente tudo aquilo que ele conta.

(No vídeo acima, uma compilação de várias fases e as diversas vozes dylanescas)

Em Abandoned Love, Bob recusa a máscara e prefere o caminho instintivo da inocência; A Hard Rain’s A-Gonna Fall é sobre medo e a iminência do horror com Bob afirmando que só cantará sua música quando a conhecer; na recente Not Dark Yet, “atrás de toda coisa bela, existe algum tipo de dor”.

Cada um pode ter sua preferência e dá o título de “melhor fase” do Dylan. Muitos preferem o início acústico ou a eletricidade criativa; há quem prefira o country-família ou a ascensão e queda do seu casamento com Sara; a fase cristã também é cultuada e seus discos mais recentes têm uma ótima receptividade.

Porém, eu vejo que é com a voz atual de Dylan que suas músicas fazem mais sentido. Bob e sua música parecem ter se preparado para viver este momento. Estamos testemunhando a sublimação de sua arte.

E como ele repete diversas vezes no poema para Baez, ele andou pelo seu caminho e cantou sua música.

May your song always be sung

Ontem, em Londres, Bob Dylan finalizou sua turnê mundial que começou no dia 3 de abril, em Taipei (Taiwan). A edição de 2011 de sua Never Ending Tour teve 88 apresentações e passou por vários continentes.

1º Semestre

Os shows do começo do ano foram uma continuação da estrutura da turnê de 2010. Tirando a primeira apresentação, quando abriu com Gotta Serve Somebody, a música de abertura era invariavelmente Gonna Change My Way Of Thinking.

Na apresentação do dia 20/06, em Israel, Bob fez uma ótima interpretação da canção, com um vocal forte e um bom solo de órgão. Cultivando um recente cavanhaque grisalho, Bob demonstrou um certo carisma e até esboçou alguns sorrisos.

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Para o show seguinte, em Milão, Bob mudaria a canção de abertura, escolhendo a mesma música que utilizou no show de ontem, Leopard-Skin Pill-Box Hat.

No primeiro semestre, o cantor também se apresentou na Austrália e tocou pela primeira vez na China, em meio à polêmica do desaparecimento do artista chinês Ai Wei Wei.

2º Semestre

Na segunda metade do ano, Bob fechou a turnê européia e iniciou seus shows pelos Estados Unidos. Parte da turnê americana teve como convidado o cantor Leon Russell.

Em outubro, Dylan voltou ao Velho Continente, mas dessa vez para se apresentar principalmente na Europa Oriental. Para o show de abertura, convidou Mark Knopfler, que no decorrer da turnê também passou a acompanhar Dylan na guitarra, nas primeiras músicas.

A última música

Um fato inédito – e belo – ocorreu no show de ontem. Para fechar suas apresentações de 2011, Bob escolheu a jovial Forever Young e recebeu Mark Knopfler para acompanhar nos vocais, pela primeira vez na turnê.

O ponto alto do dueto foi quando Mark fez uma singela homenagem a Bob, cantando para ele o verso “may your song always be sung”. O público foi ao delírio. Pelas imagens, Bob parece intacto com o ato, provavelmente apenas com aquele seu pseudo-sorriso.

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No final, sem falar uma palavra, Bob permanece no centro do palco, faz sua saudação padrão, pede aplausos para Mark e vai embora, com seu semblante típico.

Update

Eis o áudio completo do último show: