A beleza dylanesca (ou a voz da feiúra)

Em 1963, Joan Baez convidou Bob Dylan para fazer o texto da contracapa do seu vinil In Concert, Part 2. O álbum é um compilado de interpretações ao vivo de Joan Baez e é o primeiro disco da cantora a conter músicas de Bob Dylan.

Em forma de poema, Bob escreve um longo texto sobre sua relação com a música, sua infância e suas influências. Em um trecho, Bob descreve sua afeição à feiúra. Em especial, exemplifica seu entusiasmo pela voz “feia”.

“The only beauty’s ugly, man
The crackin’ shakin’ breakin’ sounds’re
The only beauty I understand”
[…]
“Ain’t no voice but an ugly voice
A the rest I don’ give a damn
‘F I can’t feel it with my hand
Then don’ wish me t’ understand”

No livro de Scaduto, algumas pessoas que conheceram Dylan durante sua passagem por Minnesota, antes de sua ida à New York, afirmam que a voz estridente de boa parte dos discos dos anos 60 de Bob não se parecia em nada com a voz que elas conheciam, muito mais aveludada. Apenas na breve fase country, com os discos Nashville Skyline, Self-Portrait e Dylan, eles reconheceram o cara que conheciam.

Assim, podemos imaginar que a voz que conhecemos, assim como seu próprio nome, foi uma invenção dylanesca para criar um personagem. Um personagem sofrido, melancólico e com uma voz cansada e uma entonação mais próxima da poesia.

Uma das características de Dylan que não mudou com o tempo foi sua vontade em contrariar algo pré-determinado. Como um anti-intérprete, Bob trilhava um caminho único, que muitas vezes confundia a todos. Foi assim na sua fé (que atualmente já não sabemos se retornou ao judaísmo, se manteve cristão ou criou uma síntese de crenças), suas escolhas estéticas (Newport que o diga) e foi assim com músicos, que o viam mudando tempos, métricas e até acordes de suas canções, sempre com o intuito de surpreender os seus companheiros e obrigá-los a inovar e a trabalhar na sinceridade do instinto.

No poema para Baez, Bob registra sua influência de Hank Williams, afirmando que o cantor foi seu primeiro ídolo. Hank tinha como característica abordar temas negativos e tabus da época, como adultério, divórcio, bebida e exploração. Woody Guthrie, outro pilar para Dylan, também fazia questão de escrever sobre problemas, neste caso questões políticas e diferenças sociais.

Recentemente, sua preferência pela feiúra (como retrato fiel da realidade) o fez gravar três álbuns que estão entre os melhores de sua carreira (Time Out of Mind, Love & Theft e Modern Times).

Junto com essa busca lírica e contínua de tentar entender os defeitos do homem, Bob Dylan também teve sua voz deteriorada com o passar dos anos, com um timbre cada vez mais sujo. Atualmente, seu timbre vocal está mais próximo da voz gutural de Tom Waits do que de famosos discípulos dylanescos, como Tom Petty e Bruce Springsteen.

Muitos podem se assustar com o atual timbre e imaginar que esta é a decadência de um kafkiano artista da fome. Mas, se pegarmos como referência sua relação com a arte e sua preferência pelo gasto e cru, Dylan talvez esteja na sua melhor forma, justamente por ser sua “pior” voz. É a exaltação da feiúra e de praticamente tudo aquilo que ele conta.

(No vídeo acima, uma compilação de várias fases e as diversas vozes dylanescas)

Em Abandoned Love, Bob recusa a máscara e prefere o caminho instintivo da inocência; A Hard Rain’s A-Gonna Fall é sobre medo e a iminência do horror com Bob afirmando que só cantará sua música quando a conhecer; na recente Not Dark Yet, “atrás de toda coisa bela, existe algum tipo de dor”.

Cada um pode ter sua preferência e dá o título de “melhor fase” do Dylan. Muitos preferem o início acústico ou a eletricidade criativa; há quem prefira o country-família ou a ascensão e queda do seu casamento com Sara; a fase cristã também é cultuada e seus discos mais recentes têm uma ótima receptividade.

Porém, eu vejo que é com a voz atual de Dylan que suas músicas fazem mais sentido. Bob e sua música parecem ter se preparado para viver este momento. Estamos testemunhando a sublimação de sua arte.

E como ele repete diversas vezes no poema para Baez, ele andou pelo seu caminho e cantou sua música.

May your song always be sung

Ontem, em Londres, Bob Dylan finalizou sua turnê mundial que começou no dia 3 de abril, em Taipei (Taiwan). A edição de 2011 de sua Never Ending Tour teve 88 apresentações e passou por vários continentes.

1º Semestre

Os shows do começo do ano foram uma continuação da estrutura da turnê de 2010. Tirando a primeira apresentação, quando abriu com Gotta Serve Somebody, a música de abertura era invariavelmente Gonna Change My Way Of Thinking.

Na apresentação do dia 20/06, em Israel, Bob fez uma ótima interpretação da canção, com um vocal forte e um bom solo de órgão. Cultivando um recente cavanhaque grisalho, Bob demonstrou um certo carisma e até esboçou alguns sorrisos.

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Para o show seguinte, em Milão, Bob mudaria a canção de abertura, escolhendo a mesma música que utilizou no show de ontem, Leopard-Skin Pill-Box Hat.

No primeiro semestre, o cantor também se apresentou na Austrália e tocou pela primeira vez na China, em meio à polêmica do desaparecimento do artista chinês Ai Wei Wei.

2º Semestre

Na segunda metade do ano, Bob fechou a turnê européia e iniciou seus shows pelos Estados Unidos. Parte da turnê americana teve como convidado o cantor Leon Russell.

Em outubro, Dylan voltou ao Velho Continente, mas dessa vez para se apresentar principalmente na Europa Oriental. Para o show de abertura, convidou Mark Knopfler, que no decorrer da turnê também passou a acompanhar Dylan na guitarra, nas primeiras músicas.

A última música

Um fato inédito – e belo – ocorreu no show de ontem. Para fechar suas apresentações de 2011, Bob escolheu a jovial Forever Young e recebeu Mark Knopfler para acompanhar nos vocais, pela primeira vez na turnê.

O ponto alto do dueto foi quando Mark fez uma singela homenagem a Bob, cantando para ele o verso “may your song always be sung”. O público foi ao delírio. Pelas imagens, Bob parece intacto com o ato, provavelmente apenas com aquele seu pseudo-sorriso.

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No final, sem falar uma palavra, Bob permanece no centro do palco, faz sua saudação padrão, pede aplausos para Mark e vai embora, com seu semblante típico.

Update

Eis o áudio completo do último show:

Dylan & Sinatra: o encontro dos olhos azuis

Depois de ter incorporado o crooner em alguns shows no começo de 1995, Bob tocou para um dos intérpretes mais importantes da música americana: Frank “The Voice” Sinatra. Há exatos 16 anos, Bob Dylan participava da gravação de um especial para comemorar os 80 anos de Sinatra.

A escolha de Bob Dylan

Na época, rumores indicavam não só a participação de Dylan no evento, mas até a canção que ele escolhera para interpretar. Bob teria escolhido That’s Life. Recentemente, o baterista Winston Watson, que tocava o cantor na época, disse no documentário Bob Dylan: Never Ending Tour Diaries que as canções ensaiadas foram That’s Was My Love e Anyway You Want Me. Contudo, não encontrei nenhuma interpretação de Sinatra de canções com esses nomes.

That’s Life foi composta por Dean Kay e Kelly Gordon para Sinatra e aparece no álbum homônimo, de 1966.

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O pedido de Frank Sinatra

Dylan e sua banda já estavam ensaiando quando receberam um pedido de Frank. “The Voice” queria que Bob tocasse Restless Farewell (uma adaptação de Dylan para The Parting Glass). A canção aparece no álbum The Times They are A-changin’, de 1964, e fazia 31 anos que Bob não tocava em suas apresentações.

Uma das vezes foi no programa Quest, transmitido pela emissora canadense CBC, em fevereiro de 1964 (a canção começa no minuto 22:12).
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A versão de 19 de novembro de 1995 é mais madura, experiente, mas carrega a mesma melancolia de quando Bob tinha 23 anos . Dylan toca violão e é acompanhado por sua banda, além de uma seção de cordas.
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Após o evento, apenas quatro músicos são convidados para participar de uma festa na casa de Frank Sinatra: Eydie Gorme, Steve Lawrence, Bruce Springsteen e Bob Dylan.

Homenagem póstuma

Bob voltaria a interpretar Restless Farewell apenas mais uma vez. Três dias antes do seu aniversário de 57 anos, no dia 21 de maio de 1998, Dylan tocou a música em homenagem a Frank Sinatra, que morrera uma semana antes.

I’ll just bid farewell till we meet again

Acho interessante a escolha das músicas, tanto de Sinatra quanto de Dylan. Os dois parecem estar em harmonia em relação a temática que queriam abordar, mesmo sem combinar.

Em That’s Life, Frank canta as seguintes estrofes:

I said that’s life, and as funny as it may seem
Some people get their kicks stompin’ on a dream
But I don’t let it, let it get me down
’cause this fine old world, it keeps spinnin’ around

I’ve been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and aking
I’ve been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself flat on my face
I pick myself up and get back in the race

Bob, por sua vez, encanta a todos com sua despedida inquieta:

Oh ev’ry foe that ever I faced
The cause was there before we came
And ev’ry cause that ever I fought
I fought it full without regret or shame
But the dark does die
As the curtain is drawn and somebody’s eyes
Must meet the dawn
And if I see the day
I’d only have to stay
So I’ll bid farewell in the night and be gone

Oh, ev’ry thought that’s strung a knot in my mind
I might go insane if it couldn’t be sprung
But it’s not to stand naked under unknowin’ eyes
It’s for myself and my friends my stories are sung
But the time ain’t tall, yet on time you depend
And no word is possessed by no special friend
And though the line is cut
It ain’t quite the end
I’ll just bid farewell till we meet again