Dylan no Brasil: por que ir ao show?

Depois de 4 anos, Bob Dylan volta ao país para tocar em seis shows em cinco capitais brasileiras. Com a novidade, e proporcionalmente à euforia dos fãs, crescem as críticas dos que não entendem o porquê de ir a um show de um cara que, para muitos, já está morto faz tempo (tanto na arte quanto na vida).

Primeiramente, é necessário saber que, ao contrário de muitos artistas dos anos 60, Bob Dylan ainda continua contemporâneo. Em suas apresentações, não há espaços para nostalgias. Suas perfomances não miram o passado de sua carreira, mas sim o presente de suas letras e de sua música. Há, sim, pitadas de referências a estilos antigos, como country e bluegrass, mas isso não quer dizer que ele esteja revisitando sua obra. Pelo contrário.

Assistir Bob Dylan ao vivo é presenciar a formação da música naquele instante. No palco, a obra dylanesca não existe: ela acontece. Em alguns casos, percebe-se que o cantor está tateando um caminho, buscando as frestas que trazem novas texturas. Nem sempre dá certo, é verdade (o que, para muitos fãs, não é algo estritamente negativo). Mas quando a mágica acontece, o instante é indivisível e infinito.

Essa tendência ao improviso é uma característica que acompanha Bob ao longo de toda sua carreira, e seria idiota frustrar-se com os arranjos atuais. Não espere os mesmos ritmos, as mesmas melodias e nem mesmo as mesmas letras. Vá para absorver e não para associar. Um show de Dylan deve ser contemplado aos poucos, como aquele filme de roteiro complexo, mas que te dá um prazer reflexivo que dura muito mais do que os minutos da película.

O cantor verborrágico é de poucas palavras ao público. Ultimamente, seu diálogo se resume a apresentar a banda. Nem ao fim do espetáculo ele discursa. Há apenas um “nanogesto” de agradecimento. Bob Dylan não segue o mesmo protocolo de músicos internacionais, que se obrigam a falar as palavras-chaves do turismo brasileiro. Ele não oferece um espetáculo circense ou uma apresentação de stand-up. Ele é um músico/poeta e seu propósito com as palavras aflora apenas em sons.

As palavras saem de uma ex-voz. Bob Dylan incluiu a rouquidão na sua já anasalada voz. Sua maneira de cantar, influência dos poetas, também não auxilia na fluência da melodia. Contudo, mais importante do que ser “música para os ouvidos”, a interpretação dylanesca expõe a intenção do artista. Músicas são expressões humanas, mas que nem sempre se mostram iguais. Ao contarmos uma mesma história, podemos adotar um tom empolgado, triste, confessional ou mesmo irônico. E é assim que a voz de Dylan funciona. Cada dia uma interpretação. Cada dia uma intenção.

A beleza dylanesca (ou a voz da feiúra)

Em 1963, Joan Baez convidou Bob Dylan para fazer o texto da contracapa do seu vinil In Concert, Part 2. O álbum é um compilado de interpretações ao vivo de Joan Baez e é o primeiro disco da cantora a conter músicas de Bob Dylan.

Em forma de poema, Bob escreve um longo texto sobre sua relação com a música, sua infância e suas influências. Em um trecho, Bob descreve sua afeição à feiúra. Em especial, exemplifica seu entusiasmo pela voz “feia”.

“The only beauty’s ugly, man
The crackin’ shakin’ breakin’ sounds’re
The only beauty I understand”
[…]
“Ain’t no voice but an ugly voice
A the rest I don’ give a damn
‘F I can’t feel it with my hand
Then don’ wish me t’ understand”

No livro de Scaduto, algumas pessoas que conheceram Dylan durante sua passagem por Minnesota, antes de sua ida à New York, afirmam que a voz estridente de boa parte dos discos dos anos 60 de Bob não se parecia em nada com a voz que elas conheciam, muito mais aveludada. Apenas na breve fase country, com os discos Nashville Skyline, Self-Portrait e Dylan, eles reconheceram o cara que conheciam.

Assim, podemos imaginar que a voz que conhecemos, assim como seu próprio nome, foi uma invenção dylanesca para criar um personagem. Um personagem sofrido, melancólico e com uma voz cansada e uma entonação mais próxima da poesia.

Uma das características de Dylan que não mudou com o tempo foi sua vontade em contrariar algo pré-determinado. Como um anti-intérprete, Bob trilhava um caminho único, que muitas vezes confundia a todos. Foi assim na sua fé (que atualmente já não sabemos se retornou ao judaísmo, se manteve cristão ou criou uma síntese de crenças), suas escolhas estéticas (Newport que o diga) e foi assim com músicos, que o viam mudando tempos, métricas e até acordes de suas canções, sempre com o intuito de surpreender os seus companheiros e obrigá-los a inovar e a trabalhar na sinceridade do instinto.

No poema para Baez, Bob registra sua influência de Hank Williams, afirmando que o cantor foi seu primeiro ídolo. Hank tinha como característica abordar temas negativos e tabus da época, como adultério, divórcio, bebida e exploração. Woody Guthrie, outro pilar para Dylan, também fazia questão de escrever sobre problemas, neste caso questões políticas e diferenças sociais.

Recentemente, sua preferência pela feiúra (como retrato fiel da realidade) o fez gravar três álbuns que estão entre os melhores de sua carreira (Time Out of Mind, Love & Theft e Modern Times).

Junto com essa busca lírica e contínua de tentar entender os defeitos do homem, Bob Dylan também teve sua voz deteriorada com o passar dos anos, com um timbre cada vez mais sujo. Atualmente, seu timbre vocal está mais próximo da voz gutural de Tom Waits do que de famosos discípulos dylanescos, como Tom Petty e Bruce Springsteen.

Muitos podem se assustar com o atual timbre e imaginar que esta é a decadência de um kafkiano artista da fome. Mas, se pegarmos como referência sua relação com a arte e sua preferência pelo gasto e cru, Dylan talvez esteja na sua melhor forma, justamente por ser sua “pior” voz. É a exaltação da feiúra e de praticamente tudo aquilo que ele conta.

(No vídeo acima, uma compilação de várias fases e as diversas vozes dylanescas)

Em Abandoned Love, Bob recusa a máscara e prefere o caminho instintivo da inocência; A Hard Rain’s A-Gonna Fall é sobre medo e a iminência do horror com Bob afirmando que só cantará sua música quando a conhecer; na recente Not Dark Yet, “atrás de toda coisa bela, existe algum tipo de dor”.

Cada um pode ter sua preferência e dá o título de “melhor fase” do Dylan. Muitos preferem o início acústico ou a eletricidade criativa; há quem prefira o country-família ou a ascensão e queda do seu casamento com Sara; a fase cristã também é cultuada e seus discos mais recentes têm uma ótima receptividade.

Porém, eu vejo que é com a voz atual de Dylan que suas músicas fazem mais sentido. Bob e sua música parecem ter se preparado para viver este momento. Estamos testemunhando a sublimação de sua arte.

E como ele repete diversas vezes no poema para Baez, ele andou pelo seu caminho e cantou sua música.

Dylan & Sinatra: o encontro dos olhos azuis

Depois de ter incorporado o crooner em alguns shows no começo de 1995, Bob tocou para um dos intérpretes mais importantes da música americana: Frank “The Voice” Sinatra. Há exatos 16 anos, Bob Dylan participava da gravação de um especial para comemorar os 80 anos de Sinatra.

A escolha de Bob Dylan

Na época, rumores indicavam não só a participação de Dylan no evento, mas até a canção que ele escolhera para interpretar. Bob teria escolhido That’s Life. Recentemente, o baterista Winston Watson, que tocava o cantor na época, disse no documentário Bob Dylan: Never Ending Tour Diaries que as canções ensaiadas foram That’s Was My Love e Anyway You Want Me. Contudo, não encontrei nenhuma interpretação de Sinatra de canções com esses nomes.

That’s Life foi composta por Dean Kay e Kelly Gordon para Sinatra e aparece no álbum homônimo, de 1966.

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O pedido de Frank Sinatra

Dylan e sua banda já estavam ensaiando quando receberam um pedido de Frank. “The Voice” queria que Bob tocasse Restless Farewell (uma adaptação de Dylan para The Parting Glass). A canção aparece no álbum The Times They are A-changin’, de 1964, e fazia 31 anos que Bob não tocava em suas apresentações.

Uma das vezes foi no programa Quest, transmitido pela emissora canadense CBC, em fevereiro de 1964 (a canção começa no minuto 22:12).
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A versão de 19 de novembro de 1995 é mais madura, experiente, mas carrega a mesma melancolia de quando Bob tinha 23 anos . Dylan toca violão e é acompanhado por sua banda, além de uma seção de cordas.
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Após o evento, apenas quatro músicos são convidados para participar de uma festa na casa de Frank Sinatra: Eydie Gorme, Steve Lawrence, Bruce Springsteen e Bob Dylan.

Homenagem póstuma

Bob voltaria a interpretar Restless Farewell apenas mais uma vez. Três dias antes do seu aniversário de 57 anos, no dia 21 de maio de 1998, Dylan tocou a música em homenagem a Frank Sinatra, que morrera uma semana antes.

I’ll just bid farewell till we meet again

Acho interessante a escolha das músicas, tanto de Sinatra quanto de Dylan. Os dois parecem estar em harmonia em relação a temática que queriam abordar, mesmo sem combinar.

Em That’s Life, Frank canta as seguintes estrofes:

I said that’s life, and as funny as it may seem
Some people get their kicks stompin’ on a dream
But I don’t let it, let it get me down
’cause this fine old world, it keeps spinnin’ around

I’ve been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and aking
I’ve been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself flat on my face
I pick myself up and get back in the race

Bob, por sua vez, encanta a todos com sua despedida inquieta:

Oh ev’ry foe that ever I faced
The cause was there before we came
And ev’ry cause that ever I fought
I fought it full without regret or shame
But the dark does die
As the curtain is drawn and somebody’s eyes
Must meet the dawn
And if I see the day
I’d only have to stay
So I’ll bid farewell in the night and be gone

Oh, ev’ry thought that’s strung a knot in my mind
I might go insane if it couldn’t be sprung
But it’s not to stand naked under unknowin’ eyes
It’s for myself and my friends my stories are sung
But the time ain’t tall, yet on time you depend
And no word is possessed by no special friend
And though the line is cut
It ain’t quite the end
I’ll just bid farewell till we meet again