Dylan & The Dead (ou a inércia dylanesca)

No meio dos anos 1980, Bob Dylan estava perdido e, apesar de buscar alternativas, não parecia tão engajado – vislumbrava uma aposentadoria iminente.

Em 1986, Bob Dylan excursionou com Tom Petty & The Hearbrakers, a “True Confessions Tour”, e tocou 60 shows. No ano seguinte, entre uma fase e outra da turnê com Petty, um dos organizadores (e empresário de Neil Young), Elliot Roberts, arrumou seis shows de Dylan com a lendária banda hippie Grateful Dead. Como Bob estava com uma pedra a rolar e honrando sua frase “when you ain’t got nothing, you got nothing to lose”, aceitou.

Jerry Garcia, o xavequeiro

O primeiro encontro de Dylan com o Grateful Dead foi em julho de 1972, quando Bob assistiu a um show da banda. Tanto Bob quanto o líder da banda, Jerry Garcia, nutriam uma paixão por músicas americanas tradicionais e antigas e começaram uma amizade.

A história da turnê teve início em julho de 1986, quando o Dead dividiu três shows com Dylan e Tom Petty & The Heartbrakers. Quando o Grateful Dead estava no palco, Dylan cantou com a banda “Desolation Row” e “It’s All Over Now, Baby Blue”.

Clinton Heylin conta que foi nessa época que Jerry Garcia “deu em cima” de Dylan para eles fazerem uma turnê juntos.

O modus operandi dylanesco

Os ensaios começaram em junho de 1987 no Club Front, um lugar usado por músicos para ensaios e produções, localizado na rua Front, 20 (San Rafael).

Nos ensaios, Bob Dylan se surpreendeu com as sugestões de músicas. Ao invés de canções óbvias e que ele estava acostumado a tocar nos shows com Tom Petty, os novos companheiros resgataram preciosidades esquecidas e algumas quase inéditas (como “Walkin’ Down The Line” e “John Brown”, esta tocada apenas algumas vezes no início dos anos 60 e até então nunca lançada oficialmente).

Bob Weir (guitarrista do Grateful Dead): “Ele era difícil de se trabalhar na medida em que ele não queria ensaiar uma música mais que duas vezes, no máximo três. E então nós ensaiamos cerca de 100 canções duas ou três vezes… Este é meio que uma crítica padrão do modo dele trabalhar.”

Abaixo, um registro de um dos primeiros ensaios, ocorrido no dia 1º de junho. Note que algumas canções Dylan simplesmente não começa pelo primeiro verso (como “Ballad Of a Thin Man” e “Times They Are A-Changin’”, por exemplo).

Dearest the shadows, I live with are numberless

Em Crônicas, V.1, Bob Dylan relata o início do ensaio com o Dead e sua crise de identidade com suas próprias canções.

“Depois de mais ou menos uma hora, ficou claro para mim que a banda queria ensaiar mais e diferentes canções do que eu estava acostumado a tocar com Petty. Queriam repassar todas elas, aquelas de que gostavam mais, as pouco conhecidas. Me vi em uma situação peculiar e pude ouvir o rangir dos freios. Se soubesse disso desde o início, possivelmente não teria aceitado as datas. Eu não nutria sentimentos por nenhuma daquelas canções e não sabia como poderia cantá-las com qualquer entusiasmo.”

Então Dylan relata um fato que mudaria sua perspectiva. Completamente desinteressado com o andamento do ensaio, Bob inventou que tinha esquecido algo no hotel e saiu do estúdio para caminhar na chuva fraca. Sua ideia era abandonar o projeto, mas depois de andar umas cinco ou seis quadras, ouviu um jazz saindo de pequeno bar. Foi até lá, pediu uma gim-tônica e ouviu as baladas de jazz, como “Time On My Hands” e “Gloomy Sunday”. Prestou atenção no vocalista, que parecia Billy Eckstine e percebeu que o músico estava a vontade, cantando de maneira natural.

“De repente e sem aviso, foi como se o cara tivesse aberto uma janela para a minha alma. Foi como dissesse: ‘É assim que você deve fazer’. De repente, compreendi algo mais rápido do que jamais havia compreendido antes. Pude perceber como ele trabalhava para atingir seu poder, o que estava fazendo para alcançá-lo. Entendi de onde o poder estava vinvo, e não era da voz, embora a voz me trouxesse agudamente de volta a mim mesmo. (…) Se de algum modo conseguisse chegar perto de manejar a técnica, poderia dar conta daquela maratona de exibições.”

Bob retornou ao ensaio e de agora em diante conseguiria completar a mini-turnê no automático. Se a manobra deu a Dylan uma paciência e até um estímulo para continuar, o resultado não foi dos melhores.

Jokerman and the Deadheads

Na turnê de seis shows, o Grateful Dead estava em alta. A maioria do público consistia de Deadheads – os fãs fervorosos da banda. Stanley Mieses, em um artigo para o New Yorker de 27 de julho, relata que muitos dos fãs paravam os trailers nos estacionamentos dos locais do show para congregar – muitos deles nem entrariam nas apresentações.

Apesar do momento de iluminação, o jeito de Dylan cantar parecia enfadonho, enrolado e há quem pense que o cantor subia no palco bêbado – o que não é uma ideia absurda. O Grateful Dead, acostumado com shows que chegavam a cinco horas de duração e com imensos improvisos, sentiram o peso dos imprevistos dylanescos no palco.

O visual de Dylan, que mais parecia um mendigo, corroborava ou significava todo o empenho de Bob no palco. Ele estava em inércia, cumprindo tabela para a banda, para o público e para si mesmo.

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No fim da meia dúzia de shows, ficou acordado um lançamento de um disco com os registros dos shows.

Dylan & The Dead

A banda selecionou cuidadosamente as melhores performances para ser compiladas no álbum. Bob, contudo, preferiu escolher canções que não haviam entrado em discos ao vivo anteriores.

Quando recebeu a fita com a mixagem final, chamou Jerry Garcia até sua casa em Malibu para discutir alguns detalhes. Chegando na casa de Dylan, cheio de cães enormes e em um ambiente rústico, nem aparentando estar na região de celebridades, Jerry teve que escutar as ressalvas de Dylan sobre a equalização. O único problema é que Bob ouvia o registro em um toca-fitas barato, sem qualquer poder de referência.

O resultado é um registro de um vocal mastigado e talvez alcoolizado de Dylan, acompanhado por uma banda fazendo uma batida quase monótona. O que salva são os belos solos e arranjos de Jerry Garcia na guitarra.

The Grateful Dylan

Apesar da experiência parecer um fiasco, Bob parece ter tido uma boa lembrança da turnê. Howard Sounes conta que menos de dois anos depois, no dia 12 de fevereiro de 1989, Bob subiu ao palco em um show do Dead e insitiu para que acompanhasse apenas em músicas do grupo. Depois de avacalhar cinco canções, a banda o forçou a cantar apenas músicas próprias.

No dia seguinte, Dylan ligou para o escritório do Grateful Dead e pediu uma vaga na banda. Ele estava sendo sincero e a banda então fez um plebiscito para decidir. Um dos integrantes da banda recusou a entrada do músico e Bob teve que conviver com o fardo do artista-solo (Nigel Williamson sugere que o veto partiu do baixista Phil Lesh).

Sorte de todos, já que Dylan lançaria no mesmo ano Oh Mercy, disco que começou a gravar apenas algumas semanas depois e que trouxe de volta o diferencial dylanesco que há muito tempo Bob estava a procura.

May Your Song Always Be Sung (ou o fã mais novo de Bob Dylan)

For his age, he’s wise
He’s got his mother’s eyes
There’s gladness in his heart
He’s young and he’s wild
(Lord, Protect My Child)

No dia 21 de março de 2011, Bob Dylan provavelmente curtia suas férias em seu bucólico casarão em Point Dume, Santa Mônica. Seu último show ocorrera cerca de quatro meses antes. A última canção da apresentação, a viajante “Like A Rolling Stone”, voaria cerca de 8.500km em 120 dias até chegar em Porto Alegre a tempo de presenciar o nascimento de Dylan Gasperin Jardim.

Seu nome já dava indícios de seu gosto musical, mas foi apenas quando estava com 1 ano e nove meses que os pais Carla e Oly conseguiram ter certeza que sua prole seguira o mesmo caminho.

A partir daí, Dylan trocou suas canções de ninar. Ao invés das naturalmente infantis Galinha Pintadinha ou Barney, balbuciava “Bobby” para a mãe.

Seguindo os passos do pai, Dylan passou a assistir os DVDs de seu chará todas as manhãs desde o início de janeiro. Suas preferências são o “Acústico MTV” e “Other Side Of The Mirror” (um compilado das apresentações de Bob no Newport Folk Festival).

Atualmente, é comum vê-lo vestir o violão de brinquedo e ser encorajado pelo pai com uma gaita de verdade (usando o mesmo tipo de suporte usado por Dylan durante anos).

Para Dylan Gasperin Jardim, o conselho tão belo quanto óbvio pode ser extraído de “Forever Young”:

May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
And may your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

Independente se seguirá esse caminho dylanesco ao longo da vida, ele poderá estufar os pulmões e dizer em alto e bom som: eu fui o fã mais novo de Bob Dylan que já existiu.

E em tom provocativo, poderá até continuar:

UPDATE (2019)

Seis anos depois, a mãe Carla nos atualiza: andava numa fase Beatles, mas voltou ao universo dylanesco:

[Retrospectiva 2012] – How many a year has passed and gone

2012 foi um ano com ótimas novidades dylanescas. Já em janeiro tivemos uma aparição na TV, durante o Critics’ Choice Awards, com Bob tocando uma ótima versão de “Blind Willie McTell” em homenagem ao diretor Martin Scorcese.

O início da turnê anual, que teve um total de 86 shows, foi no Brasil. Dylan fez seis shows em cinco capitais. Daqui foi para outros países da América do Sul e depois viajou o resto do mundo. Na Europa, passou a levar um piano de calda que o acompanhou até o final da turnê.

O ano também foi de comemorações: 50 anos do disco de estreia de Dylan, aniversário de 71 anos do cantor, centenário de um de seus maiores ídolos, Woody Guthrie, e condecoração cívica máxima dada pelo presidente Obama. Infelizmente tivemos uma perda sentida e expressada por Bob: a morte de Levon Helm, baterista do The Band.

Os boatos que começaram em março se consolidaram em setembro, com o lançamento de Tempest. O disco foi lançado no dia 11 e como divulgação Bob deu uma histórica entrevista para Mikal Gilmore na edição da Rolling Stone americana, quando disse, entre outras coisas, de sua “transfiguração”.

O brasileiro Leandro Senna aproveitou o mês de lançamento do 35º álbum de estúdio de Dylan para mostrar sua caligrafia dylanesca. No mês seguinte, enquanto Bob excursionava pelos EUA, seu filho Jakob representava a família Dylan no tributo “Love for Helm”.

Na reta final do ano, Bob Dylan lançou uma versão inédita de “Meet Me In The Morning” (um possível aperitivo para um futuro Bootleg Series) e ainda participou de uma ação beneficente no skatista Tony Hawk, batendo recorde no valor do shape com seu manuscrito.

Gostou deste ano dylanesco? E o que será que 2013 guarda para nós? (Já sabemos que haverá turnê e um novo guitarrista).

Abaixo, um dos momentos históricos da passagem no Brasil, com Dylan deixando a platéia cantar o refrão de “Like a Rolling Stone”:

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