Bruce Springsteen: a influência dylanesca no “The Boss”

Em turnê pela América do Sul, Bruce Springsteen tem em sua biografia uma relação bem próxima a Bob Dylan. Além de ser influenciado por Bob, Bruce foi escolhido para ocupar a vaga de “novo Dylan”.

“O irmão que eu nunca tive”

Bob e Bruce em 2002

Em 1988, Bruce Springsteen foi escolhido para empossar Bob Dylan ao Rock and Roll Hall of Fame. Ao iniciar seu discurso, Bruce relembrou a primeira vez que ouviu o homenageado:

“A primeira vez que eu ouvi Bob Dylan eu estava no carro com minha mãe ouvindo rádio e então veio aquele tiro da caixa de bateria que soava como alguém arrombava com o pé a porta da sua mente: ‘Like a Rolling Stone’. Minha mãe – ela era tão rígida com rock’n’roll, ela gostava do estilo – sentou durante um minuto e então olhou para mim e disse: ‘Este cara não sabe cantar’. Mas eu sabia que ela estava errada. Eu sentei lá e eu não disse nada, mas eu sabia que eu estava ouvindo para a voz mais dura até então. Era magra e soava de alguma forma simultaneamente jovem e adulta.”

Então Bruce afirma que sem Bob a história do rock ficaria orfã de alguns alicerces: Sgt. Peppers, dos Beatles; Pet Sound, dos Beach Boys; “God Save the Queen”, dos Sex Pistols; “What’s Going On”, de Marvin Gaye; e tantos outros.

No final de sua fala, Springsteen pega emprestado uma frase que Bob Dylan escreveu em “Lenny Bruce”: “Você foi o irmão que eu nunca tive”.

O “novo Dylan”

Durante a Rolling Thunder Revue

John Hammond, que mais de uma década atrás havia assinado Bob Dylan, contratou Bruce Springsteen para a Columbia em 1972. Há uma história que três anos depois, durante a Rolling Thunder Revue em novembro de 1975, Bob Dylan se encontrou com Bruce no camarim. Ao cumprimentá-lo, Bob teria dito: “Olá, ouvi dizer que você é o novo eu”.

Em 1978, Bob Dylan foi acusado de “pegar emprestado” algumas características do “The Boss”. Uma delas foi a inclusão de um saxofonista na gravação de Street Legal e a turnê subsequente. A outra foi a utilização de discursos que precediam as canções – a maioria deles misturando passagens autobiográficas e ficção.

Há uma influência que é inegável: em 1981, Bob Dylan optou por chamar o co-produtor de Bruce, Chuck Plotkin, para ajudá-lo na gravação do álbum Shot Of Love. Na turnê após o lançamento do disco, ao comentar sobre as apresentações, Bob afirmou: “Eu me sinto muito conectado a este show. Eu sinto que eu tenho algo a oferecer. Ninguém mais faz este show – nem Bruce, nem ninguém”.

Mais uma: em 1990, durante um show que durou mais de quatro horas (as apresentações de Bruce são conhecidas por chegar a mais de três horas), Bob Dylan arriscou uma versão de “Dancing In The Dark”.

Bob Dylan vs. Bruce Springsteen?

Sem legenda!

É inevitável a comparação entre Bob e Bruce. Ambos estão diretamente conectados a minorias e a suas lutas por justiça. No caso de Bob, sua ligação é mais íntima na luta pelos direitos civis dos negros e nas mazelas da humanidade. Bruce acaba representando algo mais próximo do jovem da década de 70 e 80: a classe média trabalhadora, o proletário que com seu suado salário consegue sair com a namorada para uma sexta-feira de diversão.

Em um nível maior ou menor, os dois compartilham de um carisma que os fazem parecer como nós. Ou o contrário: nós nos achamos mais parecidos com eles. Tanto Bob quanto Bruce dão voz a um sentimento que é comum a todos que realmente se importam.

Vídeos:

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O Mundo de John Hammond

No dia 10 de setembro de 1975, Bob Dylan prestou uma homenagem, a sua maneira, ao responsável pela sua entrada na gravadora Columbia: John Hammond. Logo após o anúncio da aposentadoria do produtor, a PBS trouxe Hammond e alguns de suas descobertas até Chicago para gravar uma edição especial do programa Soundstage.

Conheça mais a história de John Hammond e sua relação com Bob Dylan.

De filho de empresário a descobridor de talentos

Bob Dylan & John Hammond

Em sua enciclopédia, Michael Gray conta brevemente a história de John Henry Hammond: nascido em New York, no dia 15 de dezembro de 1910, e herdeiro da rica família Vanderbilt, John Hammond estudou música na Juilliard, mas desistiu do estilo erudito para investir no jazz que ouviu nos clubes que conheceu quando adolescente. Ativista dos direitos civis, Hammond usou parte de sua herança em um teatro e excursões que escalavam tanto músicos brancos como negros. Pete Seeger chegou a afirmar: “Jazz se tornou racialmente integrado 10 anos antes que o baseball muito influenciado por John Hammond”.

Como produtor da Columbia, ele tem como suas “crias” Bessie Smith e Bob Dylan, além de dar boas oportunidades de gravações a Count Basie, Billie Holiday e Lester Young. No final da década de 1930, promoveu duas edições do festival “From Spirituals to Swing” no Carnegie Hall. Entre as atrações, atuais lendas como Benny Goodman, Big Bill Broonzy e Sonny Terry. Hammond queria chamar Robert Johnson, mas infelizmente o música havia morrido apenas meses antes (vale lembrar que foi John que relançou no início dos anos 1960 as gravações do lendário guitarrista – que se tornariam importantíssimas para muitos, inclusive Dylan).

Bob Dylan & John Hammond

Bob Dylan & John Hammond

Influenciado pela resenha de Robert Shelton, John Hammond assinou com Bob Dylan no final de 1961. Seu primeiro disco, de 19 de março de 1962, não teve uma boa venda e nos corredores da Columbia Dylan foi apelidado de “Hammond’s Folly” (“A mancada de Hammond).

No disco seguinte, contudo, Bob Dylan entregaria pérolas como “Blowin’ In The Wind”, “Girl of the North Country”, “Masters of War”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” e “Don’t Think Twice, It’s Alright”. Provavelmente os piadistas da gravadora tiveram que se calar.

Como disse Gray, apenas Dave Van Ronk recebeu tanto espaço na autobiografia de Dylan quanto John Hammond. Em Crônicas V.1, Bob Dylan inicia e termina com a mesma passagem: sua visita a editora Leeds, por indicação de John Hammond, para gravar suas primeiras canções (o contrato com a Leed seria cancelado pelo empresário de Dylan, Al Grossman, para que fosse feito uma parceria com a Whitmark).

No início do relato, Bob comenta as primeiras conversas com John Hammond. “Compreendo a sinceridade” disse o produtor ao garoto Dylan.

Em outro momento diz:

“Vou dar a real para você. Você é um jovem talentoso. Se conseguir focar e controlar esse talento, vai se dar bem. Vou trazê-lo para cá e gravá-lo. Vamos ver o que acontece.”

Ao final do livro, Bob Dylan retoma o encontro e ao descrever o momento em que assinou o contrato com a Columbia, ele cita alguns discos que ainda não tinham sido lançados que estavam na mesa de Hammond. Entre eles, Kings of the Delta Blues, de Robert Johnson. Já na capa Dylan ficou intrigado.

Com certo orgulho juvenil, Bob escreve como quem “furou” toda uma geração, sendo um dos primeiros a ouvir o futuro lançamento da Columbia. Correu até o apartamento de Dave Van Ronk para mostrar sua descoberta, mas foi recebido com um certo desdém de Dave, que percebeu as influências nas músicas de Johnson. Bob então faz um paralelo com Woody Guthrie, que também pegou melodias emprestadas (processo que o próprio Dylan adotaria).

Hurricane, Oh Sister & Simple Twist of Fate

No programa da PBS em homenagem a John Hammond, intitulado “The World of John Hammond”, Bob Dylan surpreendeu a todos não só pela sua aparição, como pela sonoridade da banda e as músicas escolhidas. Das três canções interpretadas, duas eram completamente inéditas (“Oh Sister” e “Hurricane”, que estariam em Desire, de 1976) e a terceira, “Simple Twist of Fate” do recém-lançado Blood On The Track, teve algumas partes reescritas.

Sobre a ocasião, a violinista Scarlet Rivera conta que ela e os outros músicos (o baixista Rob Stoner e o baterista Howie Wyeth) foram informados com menos de 24 horas sobre a intenção de Bob em viajar até Chicago para participar do programa. Para ensaiar, o grupo usou o próprio camarim, momentos antes de se apresentarem.

Antes de Bob Dylan tocar, o apresentador Goddard Lieberson (presidente da Columbia entre 1956 e 1975) fez uma breve introdução sobre a importância de Bob, com um adendo especial de John Hammond:

Lieberson: “John teve um papel importante em antecipar um artista que realmente mudou uma geração. Músicas e letras que são normalmente sobre amor e lua-de-mel realmente mudaram com Bob Dylan. De repente havia canções sobre reflexões e sobre fazer outros tipos de coisas muito mais introspectivas e de maneira mais séria e com mais temas.
Eu preciso dizer que a coisa importante hoje é que John reconheceu isso. Na verdade, poucas pessoas reconheceram. Eu me lembro bem no começo, quando Bob Dylan cantava no Village, que nem todo mundo sacou a ideia. Mas John sacou.

Eu também gostaria de dizer, brevemente, que todos se esforçaram para vir até Chicago hoje a noite para prestar esta homenagem a John Hammond, mas Bobby fez um esforço especial estando aqui. Foi algo especial de se fazer. Eu estou contente disso.

Hammond: “Eu estou lisonjeado. Para mim Bob signfica… progresso, significa tanta coisa. E mudou a imagem da gravadora, eu devo salientar”

Mudou não só a imagem da gravadora, como a imagem que todos nós tínhamos, e temos, do mundo em que vivemos.

[Vídeo] Getting To Dylan – a retórica simbólica dylanesca

Os dois primeiros anos da segunda metade dos anos 1980 foram imprescindíveis para o Bob Dylan que conhecemos hoje. Se 1987 Bob Dylan se reencontraria consigo mesmo após pensar em abandonar sua carreira e se aposentar (tema que merece um post exclusivo), no ano anterior Bob deu uma amostra do seu pensamento e seu discurso como artista para seu público, através de uma entrevista que por si só já é um “happening” dylanesco.

Getting to Dylan (1986)

Durantes as filmagens de “Hearts of Fire”, filme tão oitentista quanto bizarro que Dylan participou, Bob aceitou colaborar em um documentário de 50 minutos feito pela BBC para a série Omnibus. Intitulado “Getting To Dylan”, além de imagens de making of, entrevistas com a equipe do filme e cenas da coletiva de imprensa, Christopher Sykes conseguiu entrar no trailer de Dylan, estacionado no subúrbio de Toronto (uma das locações do filme) e falar com Dylan por cerca de 25 minutos.

Na opinião de Clinton Heylin (em Behind the Shades), e com o aval de Paul Williams, “Getting to Dylan” é um retrato pós-conversão cristã de Bob que complementa os outros filmes sobre o músico – “Dont Look Back”, “Eat The Document” e “Renaldo & Clara”. Se os três anteriores confrontam e rodeiam o mito, “Getting To Dylan” parece envolver o homem, diz Heylin.

Só Deus sabe (de onde as músicas vêm)

A conversa tem ótimos momentos e Bob Dylan parece descontraído e disposto a fornecer informações, a sua maneira, para as questões levantadas (apesar de admitir que não daria nenhuma revelação). Quando questionado de onde suas músicas vêm, ele responde: “Eu não posso te falar porque eu não sou Deus, sabe? Só Deus sabe dessas coisas”. Depois, quando Sykes pergunta a razão dele escrevê-las, ele rebate: “Eu só escrevo porque ninguém disse que não é permitido escrevê-las”.

Apesar de respostas tão misteriosas quanto suas letras, há momentos mais esclarecedores. Ao falar da fama e de assumir seu grau de reconhecimento público, Bob Dylan reflete sobre as implicações práticas de ser famoso.

“Digamos que vocês esteja passando em um bar ou num pequeno hotel e você olha pela janela e vê todas as pessoas comendo, conversando e seguindo em frente. Você observa por fora da janela e você consegue ver que eles sendo bem verdadeiros com os outros, tão real quanto eles podem ser. Porque quando você entrar no espaço, está acabado! Você não os verá sendo verdadeiros mais.”

Momentos antes, Bob Dylan discorda de Sykes quando o entrevistador diz que suas letras contém “histórias”: “Eu não chamaria de histórias. Histórias são coisas que possuem começo, meio e fim. Minhas coisas são mais como pequenos momentos que acontecem no meio de grupos de pessoas de maneira bem rápida. Normalmente eu nem as perceberia”.

Somando as visões de Dylan sobre sua influência em um ambiente e o material bruto que serve de base para suas letras, cria-se um retrato perturbador ao artista: como observar as casualidades da vida se sua presença já altera toda a atmosfera?

Artista no trabalho

No terceiro volume da série “Performing Artist”, Paul Williams analisa a entrevista meticulosamente e interpreta o quadro que se forma ao longo do quarto de hora.

A entrevista é feita enquanto Bob Dylan rabisca um papel (que depois descobrimos ser parte do roteiro de Sykes) e olha atentamente para o entrevistador – que também faz as vezes de modelo vivo. A câmera foca o rosto de Dylan e é profundamente intrigante vê-lo olhar para Sykes (assim como imaginamos o pavor que deve ter sido para o entrevistador ser a presa do olhar de leão de de Bob).

Ao fim da entrevista, como um passe de mágica premeditado, Bob Dylan compara o resultado do seu desenho com a sua própria imagem estampada na capa de um livro de letras. Então, faz a pergunta: “Vê as similaridades aqui?”. Para Williams, a conclusão dylanesca é evidente: o retratista sempre acaba fazendo um auto-retrato.

What about rap?

Na última parte do documentário, Bob Dylan está em Ontario rodeado por criaças e alguns adultos. A cena começa com Bob conversando com uns garotos sobre o gosto musical deles. Depois de ouvir nas respostas apenas bandas de rock (Judas Priest, Ozzy e Aerosmith), Bob Dylan questiona: “e que tal rap?”.

(O que me fez lembrar de três curiosidades: a “invenção” do rap por Dylan, sua participação no disco de Kurtis Blow e a carreira nesse estilo do seu neto, Pablo Dylan).

Bob Dylan depois tira fotos com umas pessoas (e se empolga ao abraçar duas mulheres), dá autógrafos com a mão esquerda e se vai… provavelmente triste por ver mais uma vez a atmosfera alterada pela sua presença, mas minimamente satisfeito por mostrar na prática o fardo que é ser Bob Dylan.

Confira o documentário completo, incluindo outras entrevistas: