AmericanaramA: Uma incursão dylanesca (Parte 3)

Poster que comprei como lembrança.
Poster que comprei como lembrança.

Depois de assistir a dois shows de Bob Dylan nos EUA (em Atlanta e Nashville) e curtir alguns dias na capital do country, pego outro ônibus para viajar cerca de 4 horas e embarcar na última cidade onde veria a turnê AmericanaramA: Memphis.

Nashville ? Memphis

Admito que o cansaço das viagens estava começando a bater, mas tão logo terminasse o show de Dylan em Memphis, poderia relaxar e curtir as coisas sem me preocupar tanto com os horários. Havia planejado descansar no hotel, mas minha ansiedade em chegar ao local da apresentação me fez sair com certa antecedência.

O lado bom disso tudo foi que ao chegar próximo do Autozone Park, um estádio de baseball do time da cidade, Memphis Redbirds, vi que tudo estava bem organizado, sem filas. Por isso resolvi dar uma volta para um passeio rápido e ir atrás de algum lugar para almoçar, às 17h.

Entre um Friday’s e outros restaurantes do mesmo estilo “BBQ”, encontrei um mais simples e fora desse modelo, o Flying Fish. O ambiente parecia menos cenográfico e mais local. Escolhi o menor combo do menu e tão logo o recebi já me surpreendi. Num cesto forrado de batatas fritas bem finas, um filé de bagre, dois pedaços de frango e mais dois hushpuppies (um bolinho bem temperado). Tudo à milanesa (!!!) e acompanhado de um molho tártaro. Era muita gordura, eu sei… mas era muito bom também!

Forrado o estômago e depois de uma visita rápida à Beale Street – rua mais boêmia da cidade – , volto pro estádio.

Memphis, Tennessee: Autozone Park (02/07/2013)

Autozone Park

O estádio foi dividido em dois setores para o show: as cadeiras cobertas e a pista, no gramado. Boa parte do campo de baseball foi isolado, deixando uma distância bem grande entre as duas áreas. Comprei a pista, mas fiquei nas cadeiras durante os shows de abertura. Sentei ao lado de uma senhora bem feliz de reencontrar Bob (ela me disse que foi em um show de Dylan quando ele acabara de se converter ao cristianismo – 1979, eu imagino. “Eu passei a gostar ainda mais dele depois disso… porque eu sou cristã”, ela me confidenciou). Ela também me disse que seu filho, Dylan (igual ao fã-mirim), estava lá.

No meio do show do Wilco, me despedi da simpática mulher e fui até a pista. Ao assistir a troca de palco – esses detalhes de bastidores sempre me chamaram a atenção – vi que o amplificador e as guitarras de Duke Robillard não eram os mesmos. Nem me passou pela cabeça o que eu estava testemunhando, apenas imaginei que os outros equipamentos deveriam estar em manutenção ou algo parecido.

Enquanto Stu Kimball improvisava no violão para a entrada do restante da banda, vi que Duke – um cara baixinho e rechonchudo – havia se transformado num rapaz esguio e com cabelos mais compridos. Quando as luzes se acenderam, sua identidade foi revelada: Charlie Sexton!

Passei boa parte da primeira música, “Things Have Changed”, imaginando o porquê da mudança tão repentina. Nos dias seguintes, com postagens do próprio Duke no Facebook, vi que houve alguma situação incômoda. Apesar do guitarrista afirmar que sua saída não tinha relação com questões musicais, Derek Barker da Isis opinou que os solos de Duke estavam “invadindo o campo” dos solos de gaita de Dylan – de fato eu vi o guitarrista bem solto e se dando momentos de evidência no show anterior.

Derek também fez uma análise de um vídeo do começo da turnê com o novo guitarrista. Nas imagens, parece ser evidente um desconforto de Bob com o solo de Duke. Depois de se inclinar no piano como se estivesse esperando Duke terminar seu “show”, Dylan vai até Donnie Herron e parece perguntar ao música o que estava acontecendo. Derek então conclui: “Parece que Duke está muito acostumado em ser o front man. Alguém deveria ter dito a ele que não era um show dele”.

Faíscas a parte, foi muito interessante rever Charlie ao lado de Dylan. Mais do que isso, era intrigante observar o guitarrista tentando acompanhar as músicas – que ganharam um toque mais sutil e alguns novos arranjos desde sua saída. Às vezes ele observava Tony Garnier, que desempenha o papel de baixista e de diretor musical, para saber quando haveriam paradas e como as canções terminariam. Entre uma música e outra, Charlie também conversava com Bob, os dois parecendo se divertir com o reencontro. O equipamento de Charlie estava tão desacostumado quanto o músico. Ruídos, falhas de sinal e o roadie tentando resolver o problema foram constantes na primeira metade do show.

Bob Dylan, que às vezes alongava as pernas usando as caixas de retorno no chão, parecia mesmo mais à vontade. Apesar de ter tocado com Bob durante muito tempo, os meses de distância – parte deste ínterim usado para tocar com Jakob – deram um frescor nos arranjos de Charlie Sexton. Em plena Memphis, cidade que lançou Johnny Cash através da Sun Records, o guitarrista lembrou o violão percussivo do Man In Black em “High Water (For Charley Patton)”.

Nem a mudança na escalação fez Bob falar algo. Em nenhum dos três shows Bob Dylan trocou palavras com o público. Nem para apresentar a banda – algo tão comum em turnês anteriores. Outro ponto que percebi foi o lado arranjador de Bob Dylan, o que é uma pena. Quando ele optava por tocar o teclado, Bob fazia não só às vezes de cantor, mas dava um direção mais original para as canções, obrigando os músicos a improvisarem nesta readaptação. Atualmente, ao piano ou só no vocal, Bob Dylan muda menos de direção. A voz continua cantando cada dia numa linha diferente, assim como a gaita, mas os arranjos parecem se consolidar para algo mais previsíviel e estático.

Alguns fãs imaginam que a pouca alteração no repertório e nestes arranjos talvez indicassem uma intenção de Bob Dylan em lançar um disco ao vivo.

Sun Records, Beale Street e Civil Rights Museum

Sun Records

Com o fim da minha incursão dylanesca, aproveitei com calma a cidade de Memphis. Para qualquer fã de rock, uma visita à Sun Records é mais do que obrigatória. Foi lá que Sam Phillips construiu o estúdio que gravaria pela primeira vez Elvis Presley e Johnny Cash, além de lançar artistas como Jerry Lee Lewis, Carl Perkins. O melhor é que toda a estrutura está parada no tempo, então podemos ter uma noção exata do local tão importante.

Memphis é menos cenográfica que Nashville. Num dia que fui comer no Tops Bar-B-Q, um fast-food de comida típica, a atendente me disse que minha viagem seria boa para que eu voltasse para o Brasil dizendo que eu “conheci de verdade os EUA”.

Beale Street

A Beale Street é uma tradicional rua boêmia da cidade, com vários bares – como do B. B. King e recentemente inaugurado do Jerry Lee Lewis. Existe também uma loja de tudo quanto é coisa, a A. Schawb, que existe desde 1876 e se diz o único negócio da região que restou desde essa época.

Como aconselhou Marcelo Costa, fui visitar o Civil Rights Museum e vi o quão sensacional – e tétrico – ele é. O museu foi instalado no local onde Martin Luther King Jr. foi assassinado em abril de 1968, o Lorraine Motel. Lá é possível não só ver a sacada onde ele morreu completamente reconstituída, como ir até o prédio em frente, onde James Earl Ray fez o disparo.

Esses dias de viagem foram muito intensos e prazerosos. Conhecer lugares tão importantes para a cultura americana e num circuito que apesar de turístico mantém algumas bases reais do que é viver lá me fizeram pensar muito em todo o contexto que a música que Bob Dylan venera e se baseia foi criada.

É uma sensação bem diferente assistir a seus shows em Atlanta, Nashville e Memphis. A relação do público com Dylan se faz em outro aspecto, intensificando o significado de Bob Dylan como um porta-voz não de uma única geração, mas de uma nação inteira.

AmericanaramA: Uma incursão dylanesca (Parte 2)

Bob Dylan - Nashville

Ao término do show de Bob Dylan em Atlanta (leia o relato aqui), tive que correr para o hotel. Cheguei por volta das 00h30 e precisava acordar às 4h30 para pegar um ônibus em direção à Nashville.

Atlanta ? Nashville

Quando informei alguns americanos em Atlanta que pegaria o Greyhound, serviço de ônibus dos EUA, para viajar até Nashville, todos olhavam esquisitos. Alguns se surpreendiam pela escolha da opção mais barata existente e outros ainda tentavam me convencer de que não era tão tranquilo como eu imaginava.

Foto: Wikimedia
Foto: Wikimedia

O Greyhound de fato é um transporte do “povão” americano. Os conselhos de como me portar lá – sem fazer amizades e evitar o máximo de contato – me fizeram ficar receoso, mas ao vivenciar vi que tudo aquilo é possível encontrar com facilidade no Brasil. E não é só isso. O Greyhound possui uma organização e estrutura até melhores do que as nossas! Viajei em ônibus com ar-condicionado, tomadas para recarregar baterias e até Wi-Fi. Quanto às pessoas, ninguém me destratou e em nenhum momento me senti ameaçado.

Após uma viagem de cerca de cinco horas, cheguei em Nashville. Andei com minha mala até o hostel, uma caminhada de cerca de 25 minutos por ruas relativamente desertas, até a chegada do “centro turístico”. Ao me deparar com a Broadway, a principal rua da cidade, comecei a rir sozinho. Parecia uma volta ao passado country, com os bares e suas luzes neon, as diversas músicas soltas no ar, incluindo a de músicos de rua extremamente habilidosos. De fato tudo é meio cenográfico. Ainda assim é muito bom.

Meu hostel ficava de frente para o famoso e imenso Rio Mississippi. Cheguei com mais folga do que em Atlanta, o que me deu tempo para deixar minhas coisas e fazer um “reconhecimento de campo” enquanto caminhava até a Third Man Records, loja de discos de Jack White. Depois de um almoço às 15h, fui até o hostel para descansar um pouco antes da iminente maratona dylanesca.

Nashville, Tennessee: Riverfront Park (30/06/2013)

Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean
Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean

Caminhei até o local do show, um belíssimo gramado a beira do Rio Mississippi. Cheguei relativamente cedo e pude apreciar o restante do dia e parte daquilo que chamou a atenção de Bob Dylan nos anos 60 para batizar um de seus discos de Nashville Skyline.

Bob Weir continuou escalado para a edição do AmericanaramA na capital do country. Depois de My Morning Jacket e Wilco, a equipe de turnê do Bob Dylan entrou no palco para fazer toda a coreografia necessária para mudar os equipamentos. Entram os roadies que transportam amplificadores, bateria e instrumentos, os responsáveis por verificar as caixas de som de retorno, os técnicos de iluminação que fazem os ajustes finais dos holofotes que ficam atrás dos músics. Todos devidamente orientados pelo chefão Al Santos (o mesmo que fazia o discurso de introdução em turnês anteriores).

Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean
Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean

O show transcorre basicamente igual ao o dia anterior. Bob Dylan está um pouco mais solto e brinca mais com vocalizações nas músicas (“Love Sick”, por exemplo, ganha belos vibratos), dando um ar R&B em alguns momentos. Outro destaque está para o guitarrista Duke Robillard, que parece bem empolgado e até se permite dar um passo a frente quando é seu momento de solar.

Ao contrário do show em Atlanta, não há divisões na platéia, com todos compartilhando o mesmo gramado (que ao fundo ganha uma colina que serve de arquibancada). Era possível ver “tiozões sessentões” que já viram Dylan em outras décadas, jovens que foram para ver as outras bandas – principalmente Wilco -, e que ficaram para ver Bob. Vi até um filho e sua mãe (que insistia para que ele forçasse mais para ficar mais próximo do palco).

Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean
Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean

O repertório praticamente não sofreu mudanças. Como disse Derek Barker da Isis: “Um fã de Mark Knopfler sugeriu que Mark aprendesse com Dylan a mudar um pouco o setlist entre os shows. Pelo jeito aconteceu o contrário”.

Em Nashville, a única mudança nas canções em relação ao dia anterior foi o bis, “Blowin’ In The Wind”, que ganhou a participação do grupo vocal McCrary Sisters. No final da música, Bob Dylan foi até o centro do palco, onde estavam as três cantoras, e fez o solo de gaita rodeado por elas. Inesquecível.

Bob Dylan & Nashville

Bob Dylan gravou quatro discos em Nashville: Blonde On Blonde (parte em Nashville, parte em New York), John Wesley Harding, Nashville Skyline e Self Portrait (também com sessões divididas entre Nashville e New York). Além desses registros, a cidade tem uma importância maior por ser berço do country. O famoso programa de rádio Grand Ole Opry, por exemplo, era gravado na cidade, no Ryman Auditorium. Elvis Presley, Johnny Cash, Roy Orbinson e tantos outros influentes tiveram uma história íntima com a chamada Music City.

Al Kooper, o músico responsável pelo som de órgão de “Like a Rolling Stone” e que participou das gravações de Blonde On Blonde, opina que com este disco, Bob Dylan foi o primeiro a conseguir capturar o “som das 3 da manhã”, superando até mesmo Sinatra. Em um encontro acadêmico, Al relata a dissonância no “modus operandi” de Nashville e seus músicos profissionais e a forma de Bob Dylan trabalhar em estúdio. Além de dar uma liberdade de execução relativamente rara aos músicos, Bob Dylan usava boa parte do dia para compor e fazer ajustes enquanto investia pouquíssimo tempo nas gravações. Muitas das versões que escutamos até hoje foram feitas após alguns poucos takes.

Como percebeu Marcelo Costa, é muito estranho garimpar os museus e as visitações em lugares turísticos de Nashville e encontrar tão pouca referência a Dylan. Coincidentemente, antes de viajar, encontrei um vídeo de Robbie Robertson, que também gravou Blonde On Blonde, comentando sobre esta época:

Robbie então talvez tenha matado a charada do “ostracismo dylanesco” na Music City. Ele opina que a cultura de Nashville não tem o costume de valorizar músicos que não fazem parte do círculo local. Apesar de acharmos elementos aqui e ali, o “wild mercury sound” que Dylan conseguiu em Blonde on Blonde difere daquele que escutamos aos montes nas ruas da cidade.

O show seguinte seria apenas depois de dois dias, o que me deu tempo para conhecer alguns pontos turísticos obrigatórios – Country Music Hall of Fame and Museum, RCA Studio B, os bares da Broadway e um recém-inaugurado museu do Johnny Cash.

Próxima parada: Memphis.

AmericanaramA: Uma incursão dylanesca (Parte 1)

AmericanaramA

Aqui está a primeira parte do meu relato sobre os três shows que vi de Bob Dylan em sua turnê AmericanaramA – ao lado das bandas My Morning Jacket, Wilco e outros convidados.

Antes, uma breve contextualização.

São Paulo ? Atlanta

Tudo começou com a minha necessidade de tirar férias. Sem nenhuma razão aparente – talvez apenas tentando remeter aos recessos escolares da juventude -, marquei com bastante antecedência meu hiato para o mês de julho. Com a aproximação da data, pensei na possibilidade de uma viagem ao exterior. A escolha já estava definida: Estados Unidos. Mais do que uma viagem turística, queria estar em lugares que significavam algo para mim. E, como fã dylanesco assumido, esses locais com alguma ligação, direta ou indiretamente, a vida e obra de Bob Dylan.

Dylan ainda não havia divulgado as datas dos seus shows deste período. Alguns boatos indicavam shows na Inglaterra e outros diziam de shows pelos EUA. Depois de um teaser misterioso, foram divulgadas as informações da nova turnê de Dylan: AmericanaramA.

Minha intenção inicial era tentar vê-lo na região de New York, para aproveitar e reencontrar com mais calma a cidade que fui em 2009. Contudo, o destino guardou uma surpresa ainda melhor: shows em Atlanta, Nashville e Memphis.

Comecei a correria para comprar ingressos, procurar hotéis, hostels, passagens, transportes entre as cidades e tudo mais que poderia adiantar. Depois de muita apreensão, nervosismo e ajuda de amigos, consegui reservar tudo o que era possível.

Atlanta, Georgia: Aaron’s Amphitheatre (29/06/2013)

Depois de um longo atraso no vôo por conta das manifestações na região de Guarulhos (onde fica o Aeroporto Internacional de Cumbica), cheguei em Atlanta por volta das 14h (horário local). Era o tempo suficiente para ir até o hotel, descansar um pouco, comer algo e já me encaminhar para o local das apresentações, que teriam início às 17h30 com Bob Weir (ex-Grateful Dead) e seguiriam com My Morning Jacket, Wilco e terminaria com Bob Dylan.

Aarons

O Aaron’s Amphitheatre tem capacidade para 19 mil pessoas e é um anfiteatro “híbrido”: além de um gramado em forma de arena, mais próximo do palco existe um grande espaço coberto com cadeiras. De cada lado, duas praças de alimentação vendem comidas e as mais diversas bebidas (incluindo algumas opções de cerveja, algo diferente para nós brasileiros).

Por volta das 21h50,antes de apagar as luzes, uma mulher sobe ao palco – possivelmente a mesma que posiciona os três espelhos sem um significado ou função explícito – e dá um recado “em nome da turnê de Bob Dylan”: para que as pessoas curtam o show ao vivo e pessoalmente, e não através das lentes de celulares e câmeras.

Na movimentação dos roadies e assistentes para montar o palco, é interessante pegar alguns detalhes:

  • Bob Dylan abriu mão mesmo de tocar guitarra, que nem é instalada, e “trocou” por um piano Yamaha Baby Grand Piano; contudo, seu teclado Korg (com o lapsteel servindo como suporte das letras e gaita) é instalado mesmo que Dylan nem chegue perto do instrumento;
  • Al Santos, o stage manager, usa uma caneca e uma escova de dentes para limpar os três microfones de Bob (no centro do palco, no piano e no teclado);
  • Apesar do calor descomunal (até para um brasileiro), os roadies colocam dois aquecedores a gás nos dois lados do palco. Aparentemente eles servem mais como decoração do que para aquecer o tempo abafado de Atlanta.

A apresentação

Já com as luzes apagadas, apenas Stu Kimball entra no palco improvisando no violão. Com um jogo de iluminação rápida, o resto do bando – Tony Garnier no baixo, George Receli na bateria, Don Herron no lapsteel, rabeca, mandolin elétrico e bandolin, e o recém-incluído Duke Robillard na guitarra – sobe ao palco e tão imediatamente começa a primeira música.

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“Things Have Changed” tem um começo parecido com os shows de 2012, mas Bob Dylan está visivelmente querendo mudar seu jeito de cantar. Se nos shows e do disco do ano passado Bob Dylan “ostentava” uma voz rouca e cavernosa, agora ele busca a sutileza e timbres mais doces. Às vezes, contudo, ele não impede que escape algum “urro” de sua desgastada voz.

“Love Sick” está mais triste e vagarosa, soando como um lamúrio desiludido. Ao solar na gaita, a platéia aplaude como se fosse um convidado especial entrando no palco.

Assim como nas duas primeiras músicas, Bob Dylan se mantém no centro do palco para “High Water (For Charley Patton)”. O forte desta canção é a dinâmica; os altos e baixos entre o verso, o refrão e o hiato lírico. Dylan percebe que o peso e a rispidez da letra merece algo mais pontiagudo e revisita a rouquidão e o grunhido. No final, como já fizeram em “Blind Willie McTell” ao vivo, investem num “final falso”. Desta vez, são três vezes. Uma brincadeira pequena que diverte (e surpreende quem não sabia desse arranjo).

Com a conclusão real da canção, Bob Dylan se dirige pela primeira vez ao piano. Esboça alguns acordes e a música começa: “Soon After Midnight”, do recente disco Tempest. Tudo está solto, elevado, tal qual aquela sensação analgésica, quase sonífera, da madrugada. O solo de Duke é tão vintage quanto a música pede – embora em alguns momentos pareça meio esquisito.

Aproveitando o clima “tempestivo”, Bob Dylan emenda com “Early Roman Kings”. Ele continua no piano, mas sinto falta dos temperos do Korg para esta música. De qualquer forma, fica clara a intenção de Dylan em brincar mais com a dinâmica do que com os arranjos. O silêncio tão valioso quanto o som.

Agora é hora de voltar alguns anos. O ano é 1975 e a música é a mesma que abriu o disco Blood On The Tracks: “Tangled Up In Blue”. O arranjo é parecido com o que vimos aqui no Brasil em 2012, mas agora ela é mais sutil, introspectiva. Incansável compositor, Bob Dylan brinca com a letra e faz mudanças que parecem terem saído na hora. O solo de Duke Robillard também é improviso, e para mim parece faltar uma “história”. Talvez fosse só a minha cabeça, mas Duke não parecia estar tão íntimo das harmonias.

Bob Dylan realmente gostou de Tempest e escolheu mais uma música do disco: a dançante “Duquesne Whistle”. Foi deixado de lado a introdução jazzy e a música já começa com uma pegada shuffle na bateria e um baixo muito bem trabalhado de Tony Garnier. A voz de Bob é completamente diferente da registrada no álbum – com o refrão cantado em um doce falsete.

Ao término da canção, Bob Dylan escolhe a gaita, pega o microfone Sennheiser MD 421 e se dirige para o centro do palco. Enquanto o bumbo e o baixo fazem a marcação constante, o resto dos instrumentos apenas soam soltos. Bob Dylan então começa a cantar e todos reconhecem a surpresa: “She Belongs To Me”, a primeira das quatro músicas dos anos 60 da noite. O solo da gaita é envolvente e acompanha o clima da música.

De volta ao piano, Bob Dylan canta “Beyond Here Lies Nothin’”. Tudo soa unificado, funcionando perfeitamente bem. Duke Robillard, famoso pelo blues, se sente em casa com a canção na hora do solo.

Do blues para a valsa. O tempo ¾, para quem já conhece o repertório de Dylan, deixa claro qual será a próxima: “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”. Uma canção que nunca ficará velha, longa ou monótona. Por mais gigantesca que seja a letra, no fim da música fica a vontade de que houvesse mais algumas estrofes para nosso deleite.

Apesar de já estar no repertório há tempos, “Blind Willie McTell” tem um gosto diferente em Atlante, cidade em que viveu o famoso músico. O falso final feito no ano passado se manteve e se extende, assim como em “High Water”.

“Simple Twist of Fate”. Seu arranjo atual combina com a sutileza da música e Dylan insere uma frase que deixa qualquer dylanesco sensibilzado: “He read the note she left behind, it said you should have met me in 68, then we could have handled this simple twist of fate”.

Back to the 50’s com “Summer Days”. Ao contrário do ocorrido nos últimos shows em São Paulo, Bob Dylan manteve a música simples, sem improvisos experimentais e divertidos. Ainda assim é uma ótima música, principalmente com o clima.

Já com os três acordes de Stu Kimball no violão, o público enlouquece porque sabe o que vem: “All Along The Watchtower”. É a música que o público americano mais empolgou. O final, com George Recelli descendo a mão na bateria depois de um momento de quase-silêncio é fenomenal para o fim do show.

Todos se dirigem a frente do palco, com Bob Dylan esboçando um sorriso. Ele se aproxima do microfone como se fosse agradecer ou algo assim, mas é alarme falso. Eles saem sem que ele troque qualquer palavra com o público.

Com todo o anfiteatro batendo palmas e clamando por um bis, eles voltam para outro clássico dylanesco: “Ballad of A Thin Man”. Dylan desistiu do eco na voz e fica no piano, mas sem sugerir o mesmo arranjo que fez no instrumento em 1965.

Agora sim o show acabou.

A grande maioria se dirige ao estacionamento, onde antes do show muitos ficaram no “aquecimento” tomando cerveja e comendo – igual já vimos em documentários de rock espalhados por aí. Infelizmente perdi o contato com o simpático casal residente de Atlanta que eu conheci durante os shows de abertura. Conheci também uma australiana que mora em Alabama e que viajou com a amiga 2h30 para ir até o show. Interessante notar que os dylanescos por aqui…

Volto pro hotel e, apesar da empolgação, preciso me obrigar a dormir. No dia seguinte de manhã vou para Nashville de ônibus para ver mais um show de Bob.